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OPINIÃO POLÍTICA

O governo, o PT e a greve

Ivan de Carvalho

Completou 70 dias ontem a greve dos professores da rede estadual de ensino. O governo está muito incomodado com o movimento e isto é perfeitamente compreensível. Vários são os motivos. É desagradável e desgastante, por si mesmo, para qualquer administração, conviver com uma grave tão prolongada, sem conseguir o fim do movimento, apesar de haver ingressado no Judiciário e obtido ganho de causa no Superior Tribunal de Justiça. Na terça-feira, mesmo ante a decisão da Justiça, uma assembleia geral da categoria decidiu, sem dissidências presentes, prosseguir na greve.

A paralisação já se estende por tempo suficiente para ameaçar, seriamente, o próprio ano letivo. Estamos chegando às festas juninas e as férias de meio de ano dos professores e alunos estarão comprometidas, isto no caso de a greve, para surpresa geral, acabar imediatamente. Mas essa perspectiva não parece plausível, a julgar pelos fatos e pela conjuntura. Com isso, tudo indica que acabarão ficando comprometidas as férias de verão, com o que danam-se os professores, os alunos e seus pais. Na melhor das hipóteses, este será um ano letivo feito “nas coxas”, como as cubanas fazem charutos Havana, antes tão apreciados pelo líder maior do PT, que infelizmente já não pode mais desfrutar desse perigoso prazer.

O prolongamento da greve já vem há muito desgostando e desgastando o governo. A demonstração disso é a intensidade com que este põe na mídia sua convocação aos professores para que voltem às salas de aula, sua impossibilidade (creio que verdadeira) de oferecer à categoria mais do que já deu e o que considera falta completa de justificativa para a continuidade da greve.

É evidente que o fato de se estar em um ano eleitoral aumenta a angústia do governo e a estende à coalizão governista, principalmente ao PT e de modo especial na capital e grandes cidades. Os professores são uma categoria muito influente junto à comunidade, portanto, no eleitorado. Isto é o que Nelson Rodrigues qualificaria de “óbvio ululante”.
E a influência política do governo e dos partidos aliados no movimento grevista está próxima de zero. Na assembleia geral de terça-feira, o coordenador setorial de educação do PT na Bahia, Antonio Edgard, tentou apoiar o movimento e não conseguiu. Note bem o leitor: ele não foi ao microfone tentar convencer os professores a voltarem às aulas, ele foi, segundo explicou depois, para apoiar o movimento – até agora eu não entendi esse negócio, devo ser o que os ingleses chamam de “pessoa menos inteligente”. Edgard quis dizer ao microfone, mas só conseguiu dizer depois, ao site Bahia Notícias, que “o PT apoia o movimento. Tem que separar o que é partido e o que é governo. Nesse ponto o PT é contrário ao governador”.

No meu pobre entender, o PT está querendo tirar o braço da seringa. Mas quem fala pelo partido é o governador ou o presidente estadual Jonas Paulo. Convenhamos, Edgard ainda tem muita escada a subir até alcançar o mesmo andar.
O governo poderia até encontrar um aliado indireto se o PC do B, que é da coalizão governista, estivesse controlando o movimento grevista. Mas não está. Apenas tem influência nele, desde o princípio, na deflagração, e a partir de um certo momento – quando ficou claro que a greve já estava “demais da conta” – até faz esforço para abreviá-la. Inútil, pois o controle está firmemente nãos mãos do PSOL e do PSTU

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Comentários

rosane santana on 21 junho, 2012 at 9:01 #

Enquanto isso, a Câmara dos Deputados, através de sua Comissão de Constituição e Justiça, aprovou esta semana duas propostas de emenda à Constituição de 1988. Verdadeiras pérolas que demonstram o quanto esse país tem caminhado na contramão da História, ou melhor, em perfeita sintonia com sua herança cultural portuguesa. A primeira amplia, em municípios com mais de 100 mil habitantes, de 5% para 8% os recursos provenientes das receitas municipais destinados às Câmaras de Vereadores. A segunda, derruba o teto do salário do funcionalismo público, hoje estabelecido (sem vantagens) como o salário dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) da ordem de R$ 26.400,00.
E o salário dos professores? Ora bolas, os professores que se danem. “Ah, esse país ainda vai cumprir seu ideal, ainda vai tornar-se um imenso Portugal”.


rosane santana on 21 junho, 2012 at 23:53 #

Mais uma de estarrecer. A vingança agora é contra o Ministério Público por ter denunciado o Mensalão.

Ministros do STF votam pelo esvaziamento do poder de investigação do Ministério Público

Os ministros Cezar Peluso e Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal (STF), votaram a favor do esvaziamento dos poderes de investigação criminal do Ministério Público nesta quinta-feira (21). O julgamento foi suspenso após os dois votos, porque alguns ministros precisaram sair para participar da sessão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que começaria em seguida. Caso a opinião de Peluso e Lewandowski prevaleça, somente a polícia poderá reunir provas contra suspeitos, o que segundo o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, seria “uma amputação” do Ministério Público. “Se esta for o entendimento predominante, com todo o respeito devido, certamente teremos um Ministério Público apequenado e incapaz de cumprir suas atribuições”, disse o procurador. Apesar de não terem votado, os ministros Carlos Ayres Britto, Gilmar Mendes e Celso de Mello já sinalizaram que concordam apenas em parte com o voto de Peluso, pois acreditam que a Constituição autoriza o Ministério Público a conduzir inquérito criminal, desde que as mesmas regras e garantias do inquérito policial sejam seguidas.


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