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OPINIÃO POLÍTICA

Os bem aventurados

Ivan de Carvalho

Em novembro de 2008, o então deputado democrata Heraldo Rocha, líder da oposição na Assembléia Legislativa da Bahia, segundo relata o site Bahia Já, edição do dia 4, criticava as péssimas condições de atendimento pelo SUS, sobretudo em hospitais da rede pública. “Há um paciente no Hospital Geral do Estado (HGE) com suspeita de rompimento de aneurisma cerebral que não consegue fazer o exame há mais de 15 dias”, disse o então líder, hoje vice-presidente estadual do partido.

Não ficou sem resposta. O deputado Paulo Rangel, então líder da bancada do PT, pulou na garganta do democrata. Disse que estava impressionado com a capacidade da oposição para criar fatos hilários (não creio que se referisse ao do paciente morredor há 15 dias à espera de um exame). Citou uma ou outra coisa que não tinha a ver com a saúde, mas com fofocas políticas, e o malfadado fim da CPI baiana dos grampos, e depois foi ao ponto – a saúde pública, afirmou, experimentara seus piores tempos na Bahia nos governos de ACM e Paulo Souto. Infelizmente, o site Bahia Já, que usei como fonte dessas informações, não deu conta de qualquer referência do deputado Rangel àquele paciente do HGE à espera de um exame há 15 dias.

O que me levou a abrir esse baú da história da saúde pública na Bahia foi uma notícia do programa Cidade Alerta, da TV Record, na tarde de ontem. Peguei o bonde já andando (rodando) e assim perdi alguns detalhes importantes, assim como a reportagem deixou de fornecer outros que eu gostaria de conhecer para referi-los aqui. De qualquer forma, vamos em frente, que o caso impressiona.

Uma senhora relatava, com palavras das quais escorria, farto, o desespero, o drama de sua mãe. Sentira alguma coisa que recomendava urgente busca de socorro médico. Fora levada a “vários postos de saúde” sem nenhum resultado. Nenhum mesmo. A aflição convenceu os familiares a levá-la a uma consulta particular. O médico pediu uma tomografia da cabeça. Também feita com dinheiro particular, evidentemente não porque houvesse suficiente, mas por falta de alternativa. Diagnóstico: aneurisma cerebral. A emissora não se informou ou não julgou relevante informar se o aneurisma rompera.

Mas abriu-se ao relato da filha. Ela levou a mãe para o Hospital Geral do Estado, onde a cidadã-paciente chegou consciente com domínio dos sentidos e da fala. Mas é preciso fazer “um exame” que o HGE não faz. Só, por autorização da Secretaria de Saúde do Estado, o Hospital Português. Falta de sorte incrível, que só acontece uma vez a cada milhão de anos – quem mandou ter aneurisma às vésperas de um feriadão? Aguardou-se, porque coisa diferente não foi possível, acabar o feriadão.

E então, ufa! Ontem, segunda-feira, correram os familiares a marcar o tal exame (a filha da cidadã-paciente não disse exatamente qual). Mas “só tem vaga para a outra segunda-feira”. Até lá, desde o começo da tragédia, quase 15 dias se terão passado. “Minha mãe chegou bem, consciente”, no HGE. “Agora não fala, não houve, nada, só geme, e tem que esperar até a outra segunda-feira”, disse a filha em seu lamento desesperado. O que posso eu dizer? Minhas palavras são pobres. Repito algo que li e, certamente, também você: “Bem aventurados os que sofrem, porque eles serão consolados. Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão saciados”

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Comentários

Gracinha on 12 junho, 2012 at 2:36 #

Ainda bem que existem jornalistas atentos e preocupados com o sofrimento de pacientes e familiares em situações como esta. É simplesmente revoltante constatar a insuficiencia na qualidade de atendimento à população que necessita dos serviços publicos de saúde.


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