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ARTIGO
Entre o pião e o mouse

Janio Ferreira Soares

A notícia publicada no jornal A Tarde de que um adolescente baiano de 15 anos suicidou-se por conta de um relacionamento virtual com alguém que ele sequer conhecia é, no mínimo, inquietante, e provoca aquela velha discussão sobre os cuidados que devemos ter com as arapucas que a internet proporciona a nossa meninada – e até que ponto ela deixa de ser uma diversão para se transformar numa ameaça. A propósito, em qualquer conversa de pais o que mais se ouve são reclamações de que os filhos não conseguem largar os computadores e que bom mesmo era antigamente, quando as brincadeiras eram mais saudáveis e ninguém ficava o tempo todo grudado num monitor. Não é bem assim.

Se a gente se esbaldava jogando bola ou brincando de amarelinha na calmaria de uma rua deserta é porque era isso que havia para a nossa diversão e, embora hoje não pareça, era sensacional, já que as crianças das antigas sabiam ser felizes apenas puxando um carrinho de lata ou dando um teco numa bola de gude. Porém, a pergunta que não cala é: e se naquele tempo já existissem esses modernos computadores e essas enormes tevês jogando imagens para dimensões bem próximas de nossos narizes, será que continuaríamos usando a palma da mão para rodar um pião, ou a usaríamos para girar um mouse?

Mas o que interessa agora é saber até onde vai essa dependência louca que as pessoas estão estabelecendo com a Internet e se você já é um dos portadores de algum tipo de TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) digital. Faça um teste. Se você não consegue desligar o computador porque fica sucessivamente entrando e saindo no Facebook, e-mail e Twitter, como se a qualquer momento esses serviços fossem lhe dar a informação mais importante de sua vida, sinto muito, mas você já foi abduzido. No entanto, se você ainda consegue navegar numa boa, o melhor a fazer é tentar mostrar a essa garotada que, diferentemente dos arranhões decorrentes de um jogo de bola num campo de terra batida, feridas digitais não saram com mertiolate e beijinhos. Às vezes, até matam.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura, Turismo e Esportes de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco

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Comentários

Mariana Soares on 10 junho, 2012 at 11:36 #

Maravilha de crônica! Equilíbrio é a palavra de ordem para tudo na vida!


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