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Rei Juan Carlos beija mão de Dilma
em Brasília:elegância ou “esperteza”?

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ARTIGO DA SEMANA

A REVISTA, A CRISE E OS “AGOURENTOS”

Vitor Hugo Soares

Faz pouco tempo: Jose Luiz Zapatero e seus socialistas conduziam, com velas empanadas à busca do segundo mandato, o que aparentava ser o irreversível milagre econômico da Espanha – “um modelo para Europa e para o mundo”.

Enquanto isso eu corria, a ponto de explodir os pulmões, pelo majestoso e infindável Aeroporto de Barajas, em Madri, para não perder o meu vôo de volta para a Bahia. Pisava, provavelmente, sobre o piso do mais moderno e expressivo símbolo de opulência e exibicionismo de uma época que, cada dia mais espanhóis e europeus tentam agora – sem sucesso – incluir na soma de mais um sonho ibérico despedaçado. Uma aventura a mais , como as de Dom Quixote e seu Sancho Pança.

Apesar da pressa, o jornalista não resistiu à atração recém exposta na banca de revistas à sua frente. Coisa de sonho, também. Principalmente quando comparada à do Aeroporto Internacional de Salvador. ”Onde, quando chove, o cidadão passageiro ou só freguês se molha mais dentro do que fora da livraria”, como descreveu com máxima propriedade e sem perder o faro profissional ou o humor, o jornalista Sebastião Nery, falando por telefone celular para a Radio Metrópole. Nery acabara de ser surpreendido trafegando pela capital baiana em dia de temporal.

De volta a Madri:

No meu caso, a surpresa foi ver exposta a edição recém saída do forno da revista FOREIGN POLICY, edição em língua espanhola, cuja principal matéria de capa fazia questionamentos polêmicos para a fase de euforia que então se vivia, sobre “a sustentabilidade e durabilidade do milagre europeu, em geral, e da Espanha, em especial”. Era a fase em que Zapatero falava grosso, era ouvido em silêncio e respeito por muita gente – incluindo o jornalista que assina estas linhas – e o Rei Juan Carlos, arrogante senhor do universo, mandava chefes de Estado “calar a boca” em reuniões de cúpula de governantes Ibéricos.

Essa recordação agora tem dois motivos. O primeiro é a imagem que correu o mundo, esta semana, da passagem do Rei de Espanha pelo Brasil. Em especial, o flagrante que encheu os olhos dos “donos do poder no Planalto Central em Brasília e adjacências”, e fez a delícia de muitos editores no Brasil e mundo afora.

Refiro-me, evidentemente, à cena de beija-mão do soberano ibérico – meio alquebrado ainda pelas costelas fraturadas e os golpes duros e seguintes pós-caçada a elefantes e rabos-de-saia na África – durante a recepção que lhe foi oferecida pela presidente Dilma Rousseff, no Palácio do Itamaraty.

Olhando bem as fotos, um modelo de reverência e picardia na mesma situação (para não dizer malandragem, expressão bem mais brasileira, mas menos apropriada a um rei). Os franceses, no seu modo especial de ver as coisas e as pessoas, seguramente diriam: “Honi soit qui mal y pense” (Amaldiçoado seja quem pensar mal dessas coisas). Mas… uma boa dose de ceticismo e desconfiança nunca é demais, principalmente na política e nas relações de poder.

O outro motivo é a própria revista FOREIGN POLICY. Em sua mais recente edição em versão espanhola, a prestigiosa publicação “de política, economia e idéias globais” (como seus próprios editores a definem), traz com chamada de destaque um interessante artigo intitulado “Cinco Motivos para desconfiar dos agourentos econômicos”

Agora com o conservador Mariano Rajoy no comando do poder na Espanha, o texto, assinado por Mário Saavedra, tem um primor de abertura, que tento traduzir aqui.

“Não é exagerado dizer que os espanhóis comem presunto (jamon) todos os dias”, escutei recentemente na CNBC, a cadeia econômica preferida pelos “brokers” de Wall Street. Dias atrás um programa da CNN utilizava uma bandeira franquista para ilustrar dados da economia ibérica.’

“Estes dois casos apenas mostram erros jornalísticos. São processos não intencionais e com pouco impacto. Porém, nesses mesmos meios, diariamente, centenas de analistas e supostos “experts”, expressam opiniões em situações interessadas, das quais podem tirar proveito. Especulam com a saída da Grécia do Euro, o “curralito” na Espanha, ou a dupla recessão nos Estados Unidos… Alguns dão opiniões fundamentadas, outros elaboram informes apocalípticos porque se beneficiam, no caso de suas profecias se cumprirem”

Só um pouquinho mais da tradução do delicioso e oportuno artigo de Saavedra, que FP publica: “Ao levantar dúvidas sobre a solvência de um país, ou de uma empresa, contribuem para gerar desconfianças e para que menos gente esteja disposta a comprar seus bonos e suas ações. Conseguem incrementar esses problemas de solvência. Alimentam o que se conhece como “profecias autocumpridas”. Algo parecido com gritar: “Marabunta” (espécie de formiga que remove e consome carne humana) em um teatro cheio de gente, para causar pânico”.

Mais não digo por questão de espaço e para não estragar o prazer da leitura do artigo no original (http://www.fp-es.org ). Antes do ponto final, apenas repito os franceses:”Honi soit qui mal y pense”.

Confira.

Vitor Hugo Soares – E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Ivan de Carvalho on 9 junho, 2012 at 1:31 #

Excelente e delicioso artigo, mas…. você trouxe esse negócio de “marabunta” aqui pro Brasil. Agora é rezar para que aconteça o milagre de que todas as pessoas de má vontade fiquem mudas de repente, antes que pronunciem a palavra fatídica. Até porque na tela não mais está sendo exibido um romance água com açucar, mas um filme de suspense… e na platéia não há só Roberto Jefferson, com seus nervos de aço…


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