==================================


ARTIGO
Entre o pião e o mouse

Janio Ferreira Soares

A notícia publicada no jornal A Tarde de que um adolescente baiano de 15 anos suicidou-se por conta de um relacionamento virtual com alguém que ele sequer conhecia é, no mínimo, inquietante, e provoca aquela velha discussão sobre os cuidados que devemos ter com as arapucas que a internet proporciona a nossa meninada – e até que ponto ela deixa de ser uma diversão para se transformar numa ameaça. A propósito, em qualquer conversa de pais o que mais se ouve são reclamações de que os filhos não conseguem largar os computadores e que bom mesmo era antigamente, quando as brincadeiras eram mais saudáveis e ninguém ficava o tempo todo grudado num monitor. Não é bem assim.

Se a gente se esbaldava jogando bola ou brincando de amarelinha na calmaria de uma rua deserta é porque era isso que havia para a nossa diversão e, embora hoje não pareça, era sensacional, já que as crianças das antigas sabiam ser felizes apenas puxando um carrinho de lata ou dando um teco numa bola de gude. Porém, a pergunta que não cala é: e se naquele tempo já existissem esses modernos computadores e essas enormes tevês jogando imagens para dimensões bem próximas de nossos narizes, será que continuaríamos usando a palma da mão para rodar um pião, ou a usaríamos para girar um mouse?

Mas o que interessa agora é saber até onde vai essa dependência louca que as pessoas estão estabelecendo com a Internet e se você já é um dos portadores de algum tipo de TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) digital. Faça um teste. Se você não consegue desligar o computador porque fica sucessivamente entrando e saindo no Facebook, e-mail e Twitter, como se a qualquer momento esses serviços fossem lhe dar a informação mais importante de sua vida, sinto muito, mas você já foi abduzido. No entanto, se você ainda consegue navegar numa boa, o melhor a fazer é tentar mostrar a essa garotada que, diferentemente dos arranhões decorrentes de um jogo de bola num campo de terra batida, feridas digitais não saram com mertiolate e beijinhos. Às vezes, até matam.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura, Turismo e Esportes de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco

jun
09
Posted on 09-06-2012
Filed Under (Newsletter) by vitor on 09-06-2012


==============================

DEU NO UOL

MEMÓRIA

O carioca londrino

Ricardo Acampora

Sempre temi o dia em que como jornalista teria que escrever sobre um amigo que acabara de morrer. Sabia que esse dia, assim como a inevitabilidade da própria morte, acabaria por vir.

Quero acreditar que a faina de revirar o passado da minha convivência com Ivan Lessa vai amenizar a dor pela perda do companheiro de redação e, principalmente, de cantina da BBC, onde, em grupo que variava de tamanho, diariamente almoçávamos, trocávamos ideias, ríamos, discutíamos e por vezes nos desentendiamos, quase sempre nesta ordem.

Ivan era papo para qualquer obra. Desde que houvesse um ouvido diligente, cujo dono não tivesse grande vocação ou disposição para a locução.

Sempre atualizadissimo pela internet, que adorava (a quem chamava carinhosamente de “Dona Nette”), disparava sua crítica contra tudo e todos com o mesmo furor, sarcasmo e eloquência que usava nas páginas do Pasquim nos anos 70.

Pulava de um assunto para outro sempre muito ligado em tudo que rolava, e descia o pau nas tolices que detestava (quase tudo).

Ia da música ao cinema, passando por política, esportes, show business, jornalismo, não escapava nada ou ninguém.

Dos atuais, gostava de muito poucos. Sua admiração tinha congelado num passado distante. Quer dizer, distante para nós, os ouvintes. Para ele tudo tinha acontecido ontem, ou, na pior das hipóteses, na semana passada.

A memória privilegiada garantia precisão à narracao e tornava tão vívidos fatos ocorridos 30, 40 anos atrás. Capaz de contar em detalhes um Botafogo x Flamengo estrelado por Leonidas da Silva ou Heleno de Freitas.

Na última vez em que estivemos juntos, há cerca de um mês, em sua casa, no bairro londrino de South Kensigton, me contou graças ocorridas na Ipanema de sua juventude, em mesas de pôquer que dividiu com Millôr Fernandes, Samuel Wainer e Antonio Maria, em peladas do Dínamo, time que defendeu no futebol de praia do Posto 6 em Copacabana.

Esse era o mundo que amava, esse era o mundo em que teimosa e anacronicamente ainda vivia. O exílio voluntário em Londres de mais de 30 anos ajudou a cristalizar sua lembrança do amado Rio de Janeiro dos anos 50 e 60.

Só voltou à cidade que adotou uma única vez, em 2006, convidado pelo amigo Mario Sergio Conti a escrever um texto para o primeiro número da revista Piauí.

Me disse que doeu ter voltado. Detestou o que viu. Pelas mesmas ruas do centro e zona Sul onde viveu intensamente a liberdade e a tranquilidade do balneário-metrópole-capital nacional, disse que viu um Rio desfigurado, pobre, sujo, feio, sem charme, deselegante, retrógrado, tenso, de trás de grades, preso em seu próprio medo. Não encontrou vestígios do que deixou. Acabaram com o Jangadeiros, nao existia mais o Zeppelin, nem a Sucata, só tolices, me disse ele.

Nos contou emocionado a tristeza que sentiu pela destruição de parte de sua memória. Tentativa de destruição, eu corrijo.

Ivan ainda era capaz de ver e viver a mesma praia de Copacabana onde pegou seus primeiros jacarés. Ainda podia saborear um salgadinho da Colombo ou um refresco de coco que era servido em um pequeno bar da Avenida Rio Branco. Descrevia com precisão a vitrine da Casa Sloper, sabia de cor letras de músicas de carnaval dos anos 40, lembrava do nome do lanterninha do Cine Rex. Ainda mantinha o mesmo desprezo pelos militares que tomaram o poder no Brasil e governaram o país por quase 30 anos. Ainda curtia intensamente a Ipanema capital cultural do Brasil, assim como curtia a bossa-nova, as modinhas de carnaval e o chamado samba autêntico.

Talvez por amar o Rio como ele, por ter partilhado inúmeras memórias cariocas com ele, decidi que é esse lado do Ivan Lessa que vou manter na memória para o resto da minha vida, já que acho que a gente, consciente ou incoscientemente, escolhe como consolidar nossa lembrança dos que nos deixam.

É asim que vou lembrar sempre dele, como o Ivan Lessa arquivo-ambulante, Ivan Lessa o londrino-carioca, amante de um Rio, que assim como ele, tristemente, não existe mais.

jun
09
Posted on 09-06-2012
Filed Under (Artigos) by vitor on 09-06-2012

Opinião Política
Chávez e o seu vazio

Ivan de Carvalho

Na segunda-feira, 11, o ditador-presidente da República Bolivariana de Venezuela, Hugo Chávez, inscreve-se candidato à reeleição, com muita esperança, mas sem garantias normais, de que estará vivo quando ocorrerem as eleições, em 7 de outubro.

Hugo Chávez, que se impunha em seu país, mandando prender até juiz, e aspirava realizar – conforme seus discursos – uma espécie de obra de salvação da América do Sul, especialmente da América andina, com sua “revolução bolivariana”, ultimamente vem sendo celebrado como uma estranha espécie de ser, o santo profano.

A contraditória mística fica por conta do câncer que lhe foi diagnosticado em Cuba “na região pélvica” e que tem sido mantido sob espessa cortina de sigilo, tornando-se um mistério tanto para o povo quanto para os altos funcionários do governo e os dirigentes da oposição.

A personalidade de Chávez, suas iniciais afirmações públicas de vitória e, na recaída, seus apelos públicos por orações e “um milagre”, o câncer até agora invicto e sua natureza esotérica – tudo isso tornou o chavismo na Venezuela (em outros países que contagiara, morreu ou está moribundo) mais uma espécie de movimento emocional e religioso que racional – do que sempre teve pouco – e político.

E assim, apesar de a população do país queixar-se fortemente da situação econômica e das condições gerais de vida dos últimos anos, o apoio a Chávez nas pesquisas eleitorais cresceu e atinge atualmente 55 por cento das intenções de voto, bem à frente de seu adversário, o candidato das oposições Henrique Capriles. Não é a aprovação do governo, mas a doença e seu mistério, que sustentam o ditador-presidente popularmente. “A imagem de Chávez foi sacralizada”, disse à BBC Brasil o escritor Alberto Barrera, autor da biografia “Chávez sem uniforme”.

A grande dúvida, o tormento entre chavistas nacionais e estrangeiros – entre estes, cito o colega Jadson Oliveira – é o que acontecerá se Chávez perder, isto é, se o câncer vencer. É que aconteceu na Venezuela, em escala superlativa, o que aconteceu na Bahia durante o carlismo. ACM combatia a todo custo o crescimento de lideranças que no futuro poderiam alçar vôo próprio. E as que já encontrara ao assumir o comando, cuidou de desmontar. Era autodefesa. Legítima ou não, dilema para a história.

O jornal espanhol ABC noticiou no sábado passado que Chávez “sofre com um rabdomiossarcoma, um tumor cancerígeno dos músculos que estão ligados aos ossos, com metástases nestes”. Da musculatura esquelética o câncer passa aos ossos e, segundo os médicos, câncer nos ossos produz uma das mais fortes dores que uma doença pode produzir. Daí que, segundo o jornal – baseado em “um informe de inteligência que detalha a terapia seguida pelo líder bolivariano” e estaria baseado em relatório da equipe médica que atende Chávez em Cuba –, o líder venezuelano está “tomando fentanil”, um opiáceo “cem vezes mais forte que a morfina” para aliviar as dores que o câncer e seu avanço estão provocando. O jornal ABC diz que uma parte da equipe médica sugere que se não houver uma “inesperada queda, o presidente Chávez pode chegar às eleições”.

Bem, que chegue. Mas, e se não chegar? E, chegando, como será depois, se o milagre solicitado da cura não for concedido?

No dia seguinte à morte de ACM, o carlismo acabou na Bahia. Pelo menos como grupo e força política. Permaneceu como fenômeno histórico.

DEU NO SITE BAHIA TODO DIA

CÍNTIA KELLY

O Supremo Tribunal Federal manteve a liminar concedida pelo Tribunal de Justiça da Bahia, que obriga o governo pagar o salário dos professores em greve. A vice-presidente da Aplb, Marilene Betros, em contato com o BAHIA TODO DIA, comemorou a decisão. “Isso é uma grande vitória para a categoria”, comentou.

Os professores da rede estadual da Bahia estão há 60 dias em greve e há dois meses sem receber salário. O TJ já havia concedido liminar em favor da categoria, mas o governo recorreu ao Supremo. “Agora, o governo tem que cumprir”, pontuou Marilene.


Rei Juan Carlos beija mão de Dilma
em Brasília:elegância ou “esperteza”?

=================================

ARTIGO DA SEMANA

A REVISTA, A CRISE E OS “AGOURENTOS”

Vitor Hugo Soares

Faz pouco tempo: Jose Luiz Zapatero e seus socialistas conduziam, com velas empanadas à busca do segundo mandato, o que aparentava ser o irreversível milagre econômico da Espanha – “um modelo para Europa e para o mundo”.

Enquanto isso eu corria, a ponto de explodir os pulmões, pelo majestoso e infindável Aeroporto de Barajas, em Madri, para não perder o meu vôo de volta para a Bahia. Pisava, provavelmente, sobre o piso do mais moderno e expressivo símbolo de opulência e exibicionismo de uma época que, cada dia mais espanhóis e europeus tentam agora – sem sucesso – incluir na soma de mais um sonho ibérico despedaçado. Uma aventura a mais , como as de Dom Quixote e seu Sancho Pança.

Apesar da pressa, o jornalista não resistiu à atração recém exposta na banca de revistas à sua frente. Coisa de sonho, também. Principalmente quando comparada à do Aeroporto Internacional de Salvador. ”Onde, quando chove, o cidadão passageiro ou só freguês se molha mais dentro do que fora da livraria”, como descreveu com máxima propriedade e sem perder o faro profissional ou o humor, o jornalista Sebastião Nery, falando por telefone celular para a Radio Metrópole. Nery acabara de ser surpreendido trafegando pela capital baiana em dia de temporal.

De volta a Madri:

No meu caso, a surpresa foi ver exposta a edição recém saída do forno da revista FOREIGN POLICY, edição em língua espanhola, cuja principal matéria de capa fazia questionamentos polêmicos para a fase de euforia que então se vivia, sobre “a sustentabilidade e durabilidade do milagre europeu, em geral, e da Espanha, em especial”. Era a fase em que Zapatero falava grosso, era ouvido em silêncio e respeito por muita gente – incluindo o jornalista que assina estas linhas – e o Rei Juan Carlos, arrogante senhor do universo, mandava chefes de Estado “calar a boca” em reuniões de cúpula de governantes Ibéricos.

Essa recordação agora tem dois motivos. O primeiro é a imagem que correu o mundo, esta semana, da passagem do Rei de Espanha pelo Brasil. Em especial, o flagrante que encheu os olhos dos “donos do poder no Planalto Central em Brasília e adjacências”, e fez a delícia de muitos editores no Brasil e mundo afora.

Refiro-me, evidentemente, à cena de beija-mão do soberano ibérico – meio alquebrado ainda pelas costelas fraturadas e os golpes duros e seguintes pós-caçada a elefantes e rabos-de-saia na África – durante a recepção que lhe foi oferecida pela presidente Dilma Rousseff, no Palácio do Itamaraty.

Olhando bem as fotos, um modelo de reverência e picardia na mesma situação (para não dizer malandragem, expressão bem mais brasileira, mas menos apropriada a um rei). Os franceses, no seu modo especial de ver as coisas e as pessoas, seguramente diriam: “Honi soit qui mal y pense” (Amaldiçoado seja quem pensar mal dessas coisas). Mas… uma boa dose de ceticismo e desconfiança nunca é demais, principalmente na política e nas relações de poder.

O outro motivo é a própria revista FOREIGN POLICY. Em sua mais recente edição em versão espanhola, a prestigiosa publicação “de política, economia e idéias globais” (como seus próprios editores a definem), traz com chamada de destaque um interessante artigo intitulado “Cinco Motivos para desconfiar dos agourentos econômicos”

Agora com o conservador Mariano Rajoy no comando do poder na Espanha, o texto, assinado por Mário Saavedra, tem um primor de abertura, que tento traduzir aqui.

“Não é exagerado dizer que os espanhóis comem presunto (jamon) todos os dias”, escutei recentemente na CNBC, a cadeia econômica preferida pelos “brokers” de Wall Street. Dias atrás um programa da CNN utilizava uma bandeira franquista para ilustrar dados da economia ibérica.’

“Estes dois casos apenas mostram erros jornalísticos. São processos não intencionais e com pouco impacto. Porém, nesses mesmos meios, diariamente, centenas de analistas e supostos “experts”, expressam opiniões em situações interessadas, das quais podem tirar proveito. Especulam com a saída da Grécia do Euro, o “curralito” na Espanha, ou a dupla recessão nos Estados Unidos… Alguns dão opiniões fundamentadas, outros elaboram informes apocalípticos porque se beneficiam, no caso de suas profecias se cumprirem”

Só um pouquinho mais da tradução do delicioso e oportuno artigo de Saavedra, que FP publica: “Ao levantar dúvidas sobre a solvência de um país, ou de uma empresa, contribuem para gerar desconfianças e para que menos gente esteja disposta a comprar seus bonos e suas ações. Conseguem incrementar esses problemas de solvência. Alimentam o que se conhece como “profecias autocumpridas”. Algo parecido com gritar: “Marabunta” (espécie de formiga que remove e consome carne humana) em um teatro cheio de gente, para causar pânico”.

Mais não digo por questão de espaço e para não estragar o prazer da leitura do artigo no original (http://www.fp-es.org ). Antes do ponto final, apenas repito os franceses:”Honi soit qui mal y pense”.

Confira.

Vitor Hugo Soares – E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

=================================
Placido Domingo-Suspiros de España do album “Pasión Española”
=====================================

http://youtu.be/6WZ9yKIa2_I

=====================================
Suspiros de España

Quiso Dios, con su poder
fundir cuatro rayitos de sol
y hacer con ellos una mujer.

Y al cumplir su voluntad
en un jardín de España nací
como la flor en el rosal.

Tierra gloriosa de mi querer
tierra bendita de perfume y pasión
España en toda flor a tus pies
suspira un corazón.

Ay de mi pena mortal
porqué me alejo España de ti
porqué me arrancan de mi rosal.

Quiero yo volver a ser
la luz de aquel rayito de sol
hecho mujer
por voluntad de Dios.

Ay, madre mía
ay, quién pudiera
ser luz del día
y al rayar la amanecida
sobre España renacer.

Mis pensamientos
han revestido
el firmamento
de besos míos
y sobre España
como gotas de rocío
los dejo caer.

En mi corazón
España te miro
y el eco llevará de mi canción
a España en un suspiro.

============================

PARA OUVIR E SUSPIRAR

ESPANHA, SEMPRE ESPANHA

BOM SÁBADO PARA TODOS!

(Vitor Hugo Soares )

  • Arquivos