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Postado em 07-06-2012
Arquivado em (Artigos) por vitor em 07-06-2012 12:03

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DEU NO TERRA MAGAZINE

PAQUITO

De Salvador

Tentei não prestar atenção na CPI do Cachoeira, mas eles não deixam. Políticos se insultando, mas mantendo o tratamento respeitoso de excelência, pra depois descer a ripa, é show. Curiosamente, Demóstenes Torres citou um samba de Ismael Silva, ao responder a uma das várias perguntas que lhe foram endereçadas: “nem tudo que se diz se faz”. E acrescentou que só falou que faria, mas não fez. Malandragens.

Ismael, um dos inventores do samba hoje visto como parte da tradição, deu parceria, em muitas canções, a Francisco Alves, para que suas músicas fossem gravadas por este último. Chico Alves & Mário Reis – como intérpretes – e Ismael e Noel Rosa – compositores – reinventaram o samba, e o menos lembrado deles é Ismael, por sinal, o parceiro mais constante de Noel, que, dizem os biógrafos, não gostava do acerto entre Chico e Ismael, já que, na condição de parceiro do segundo, se sentia prejudicado. Os caras que ficaram com fama de malandros – Noel e Ismael – parecem ingênuos diante de tudo que se assiste nas CPIs, e, hoje a gente vê, se submeteram a Chico. Noel protestou através de sambas, mas Ismael ficou na sua. Para ele, era vantajoso ser cantado pelo Rei da Voz.

O jubileu da Rainha Elisabeth parece uma cafonália só, com aquelas carruagens vermelhas e douradas feito brinquedo de criança, e toda a pompa e chiquê da nobreza . “Chiquê” é uma palavra usada em um samba de Orestes Barbosa e Nássara, Caixa econômica, de 1933, também daquela turma que não estava muito aí pra essa coisa de nobreza, e seu refrão pode servir de trilha sonora pra o que a gente sente ante às denúncias de corrupção:

você quer comprar o seu sossego

me vendo morrer no emprego

pra depois então gozar

essa vida é muito cômica

e eu não sou Caixa Econômica

que tem juros pra ganhar

Mas Jorge Mautner nos salva. O anjo-astronauta tropicalista avant la lettre desceu com sua espada de luz e sons no palco do Teatro Castro Alves, dentro da série Conversas plugadas, na última segunda-feira. Acompanhado de Rubinho Jacobina – irmão do parceiro de Jorge, Nelson Jacobina, que faleceu três dias antes da apresentação – e Luiz Caldas, nos violões, Mautner estava emocionado e inspirado.

Em 1958, no Brasil, enquanto João Gilberto gravava Chega de Saudade, e Nelson Gonçalves vendia um milhão de cópias com A volta do boêmio, de Adelino Moreira, Mautner compôs O vampiro, que suga o sangue dos meninos e meninas, óculos escuros, corpo estranho e santo.Só gravaria discos a partir da década de 1970, referendado pelos tropicalistas e sua estética da inclusão, a mesma que abarca Adelino e João Gilberto.

Durante a “conversa”, Mautner falou de tudo e mais um pouco, insistindo na brasilificação do planeta Terra, no amálgama que construímos, profetizado por José Bonifácio, remetendo à Vieira, chegando na Arte Moderna e desembocando na Tropicália. Enquanto a Europa pregava a eugenia, Carlos Gomes, no Brasil, homenageava o Guarani. Aqui árabes e judeus são sócios. Obama é o resultado deste nosso amálgama: se a sua mãe não tivesse visto o Orfeu Negro, de Tom e Vinicius, no cinema, não teria se casado com um queniano. Os templários, abrigados por Portugal, deram início à Escola de Sagres. Mautner mescla um tempo num outro, transtempos, novos tempos de sempre, filosofia da música popular, filosofia popular da música e um refrão tão simples, um refrão quase à Lamartine Babo, ficou na cabeça:

Morre-se assim

Como se faz um atchim!

“A razão é um pedacinho da emoção”.”Jesus de Nazaré e os tambores do candomblé”, ” A Amazônia foi um jardim plantado pelos índios”. Frases, ditos que abrem janelas pra entrarem o sol e a lua, o cosmos e o caos. Mautner mata a cobra e mostra o pau, referendado pelas últimas descobertas da ciência, mecânica quântica, neurônios emocionais. Quando perguntado do porque da constância da escuridão nas canções – óculos escuros do vampiro, lágrimas negras -, não pestanejou: enaltecer a negritude: “O negro é o acúmulo de azuis”, “O azul da felicidade extrema é negro”,” A noite é misteriosa”. Daí ele chegou à importância da matéria e da energia escuras no equilíbrio do universo, suporte de galáxias.

De quebra, Rubinho tocou e cantou com verve. Luís Caldas brilhou na Lenda do Pégaso, de Mautner e Moraes Moreira. Parecia um canto pra Nelson Jacobina, o Carneirinho alado, sempre ao lado de Mautner. O Irdeb disponibilizará a fita pra quem quiser assistir, mas estar lá, ser tomado de chofre pela arte e ciência de Mautner, in loco, foi grande e forte. Pensei em Anna em Goiânia, perdendo o instante. Saí reconciliado até com o Jubileu de Bebete, nossos mitos, ritos e ritmos.

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