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Postado em 04-06-2012
Arquivado em (Artigos) por vitor em 04-06-2012 10:46

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(Uma história de Ronaldinho Gaúcho na Bahia escondida pela televisão)

Washington de Souza Filho

Direto de Covilhã, Portugal. especial para o BP

Uma ironia e uma contradição estão contidas na decisão do jogador Ronaldinho Gaúcho de recorrer à Justiça Trabalhista, no Rio de Janeiro, para pedir a rescisão do contrato com o Flamengo. As circunstâncias destacadas são conhecidas nos bastidores das emissoras de televisão baianas, porém mantidas encobertas – inclusive por uma determinação de confidencialidade, de conhecimento da entidade representativa de trabalhadores do setor. A ironia, porém, é que o fato pode ser conhecido através do processo de número 0001124-33.2011.5.05.0013, tramitado e julgado na 13ª. Vara do Trabalho, da mesma Justiça Trabalhista, na Bahia.


A contradição, estabelecida com a situação, será tratada a seguir. A ironia é representada pelo conteúdo da ação trabalhista, motivada pela demissão de um funcionário de uma emissora de televisão da Bahia, relacionada a um vídeo em que o jogador apareceria em uma efusiva comemoração.

Ao lado de um colega, este funcionário foi, sumariamente, demitido, por ter tido acesso, indevidamente, como foram acusados, às imagens que, supostamente, mostravam o jogador do Flamengo, depois de uma partida em Salvador, contra o Bahia, durante o Campeonato Brasileiro de 2011. A gravação depõe contra a condição de atleta e cidadão.

O vídeo que seria utilizado de muito bom grado pelos programas exibidos em emissoras de televisão baiana, que chocam o público. A diferença, se é que pode haver da exposição feita de qualquer pessoa, é que ele continha um ingrediente que é valorizado pelo jornalismo, de um modo geral. Uma celebridade do futebol exposta ao seu livre arbítrio. A compreensão do valor do que tinha sido registrado entusiasmou os autores – eles seriam experientes no trabalho de vigilância, inclusive para autoridades – e as imagens foram colocadas em uma cesta, à venda na Bahia.

A emissora A, digamos mais afeita ao uso, foi procurada – quem recebeu a proposta, não viu as imagens, mas confirma a descrição. O preço oferecido não agradou e surgiu o contato com a emissora B, que pagou o dobro do preço, por ter mais recursos, certamente. A roda do destino agiu neste ponto. Os funcionários, que trabalhavam para a emissora B, foram demitidos, porque viram as imagens,quando executavam tarefas da atividade deles, da mesma forma que ouros colegas. Eles foram acusados de “quebra da confiança” pelo chefe, responsável pela autorização da compra das imagens, e acabaram demitidos. A norma de confidencialidade surgiu para evitar que a indignação de quem foi solidário causasse a divulgação – da causa e da consequência, com a preocupação focada na razão do fato.

A Justiça Trabalhista foi acionada para o reconhecimento do direito de um deles – estabilidade, por estar próximo da aposentadoria. A empresa, por decisão direta do autor da demissão, não aceitou a proposta de conciliação – a volta do funcionário ao trabalho, pelo tempo necessário para o reconhecimento do direito – sem avaliar a orientação de outros setores da empresa, no limite do acordo – e pagou para ver. Acabou obrigada a fazer a indenização, nos valores correspondentes, com o funcionário mantido longe da emissora, agora já aposentado.

A contradição é que a preocupação com a “quebra de confiança” representou, na época, a proteção da imagem do jogador, astro de um time de futebol, valorizado em função de um produto – a transmissão das partidas. A saída dele do Flamengo, estabelecida pela decisão judicial, é um fato, previamente, anunciado, marcado pela divulgação de um comportamento, de acordo com as informações – que não seria o adequado para um jogador de futebol. Os jornais brasileiros têm destacado que no período em que jogou na Europa, na França, Espanha e Itália, a postura era a mesma.

A ironia e a contradição que relacionam o astro do futebol e dois profissionais da televisão baiana têm como razão uma estrutura de trabalho que permite vantagens, muitas vezes com a conivência de quem manda e decide. E a conveniência, como no futebol, é admitida na TV para os astros e quem segue o chefe.

A crença é que a consciência – deles, dos chefes – é a defesa dos valores que advogam para o trabalho, sem o reconhecimento de quem trabalha. Mande quem pode, obedece quem tem juízo.

Há ainda, mais uma questão, sobre a ironia e a contradição: o que pode justificar a decisão de manter guardada uma informação, de quem tem a função de fazer a divulgação?

(Washington de Souza Filho: Jornalista, professor da Faculdade de Comunicação da UFBA. Faz doutorado na Universidade da Beira Interior, em Covilhã, Portugal.)

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