Bruno Barreto com Gloria Pires e Miranda Otto
—————————————————————-

Lota de Macedo e Elizabeth Bishop

==================================

“FLORES RARAS”

Rosane Santana

Fiquei encantada com a notícia de que o cineasta Bruno Barreto começa a filmar, em junho, “Flores raras”, com roteiro baseado no romance “Flores Raras e Banalíssimas”, de Carmem Oliveira, uma história de amor entre a urbanista Lota de Macedo Soares e a poetisa americana Elizabeth Bishop.

O romance, que li há mais de 10 anos, impressionou-me exatamente por resgatar uma figura desconhecida do grande público, a de uma urbanista de família carioca, nascida em Paris, Maria Carlota Costallat de Macedo Soares, amiga de Carlos Lacerda que idealizou a construção do aterro do Flamengo, nos anos 60.

Não há no livro, nenhuma apologia ao homossexualismo, mas uma história sobre duas personalidades marcantes, uma delas, uma brasileira de destaque na alta sociedade carioca, esquecida num tempo de tanques e fuzis nas ruas, muito provavelmente por ser homossexual, e que encerrou a vida tragicamente em Nova Iorque.

A outra, a poetisa americana Elizabeth Bishop, pouco conhecida fora dos círculos acadêmicos e literários, que viveu muito tempo no Brasil, ao lado da urbanista, em Petrópolis, e viajou pela Amazônia etc. Seu poema mais popular, “A arte de perder”, é obra-prima que deve ser lida muitas vezes, pela beleza e intensa carga lírica e afetiva.

Ao falar sobre o filme, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, Barreto indica que seguirá a trilha deixada por Carmem Oliveira no romance. Discutir a alma de duas mulheres modernas, uma forte, poderosa, a Lota de Macedo Soares, de família aristocrática, que foi se tornando fraca, porque não soube perder; e uma fraca, Bishop, que se tornou forte, porque, ao longo da vida, fez, espiritualmente, trajetória inversa a de sua companheira.

“Elas se amaram e viveram juntas os momentos mais importantes de suas vidas. Bishop ganhou o Pulitzer quatro anos depois de estar com Lota. E Lota fez o parque do Flamengo, que é uma das melhores obras do mundo. Por muito tempo elas cresceram juntas, depois começaram a crescer em direções opostas”, disse Barreto.
Dito isso, deve-se acrescentar ainda os elogios do cineasta ao desempenho de Glória Pires no papel de Lota, falando inglês – língua através da qual se comunicava com sua namorada -, cujo papel será desempenhado pela australiana Miranda Otto (Senhor dos Anéis).

É esperar, para conferir. E, quem não conhece o livro, esta aí uma boa oportunidade para ler o romance e saber um pouco mais do Rio de Janeiro dos anos 60, que foi varrido para debaixo do tapete pela ditadura militar.
Em tempo: Bruno Barreto está com dificuldades de arranjar patrocinadores para o filme, e declara ,abertamente, que o fato de a obra falar do romance entre duas mulheres é a causa principal.

Não tenho dúvida.

Rosane Santana, jornalista e professora universitária, mestre em História pela UFBA, mora em Caravelas e ensina na universidade em Teixeira de Freitas, extremo sul da Bahia.

Be Sociable, Share!

Comentários

carmen l.oliveira on 6 junho, 2014 at 14:16 #

Rosane baiana, é ótimo receber um comentário assim. A figura de Lota, enterrada pela história, precisa ser divulgada, como uma das mulheres que, antes do feminismo, aceitava seu corpo e obedecia a sua escolhas, além de ser responsável pelo parque mais lindo do Rio. Obrigada, Rosane.


carmen l.oliveira on 6 junho, 2014 at 14:21 #

Rosane baiana, Sua apreciação da importância de filme brasileiro é marcante. Lota foi enterrada pela história do Brasil, e necessita ser conhecida como a mulher que, antes do feminismo, acatava seu corpo e sua escolhas afetivas, além de ser responsável pelo mais belo parque do Rio. Obrigada, Rosane. Carmen


Rosane Santana on 6 junho, 2014 at 19:52 #

Que bom que você gostou, Carmem. Muito lindo o seu livro! Um abraço, Rosane.


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos