Demostenes e advogado: maus atores
na encenação da CPI em Brasília
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ARTIGO DA SEMANA

A ÓPERA DOS MALANDROS

Vitor Hugo Soares

Julho próximo assinala os 34 anos da estréia da Ópera do Malandro, no Teatro Ginástico do Rio de Janeiro, no tumultuado ano de 1978. A peça seria não apenas fato artístico e jornalístico de destaque, naquele ano, mas um dos marcos mais representativos e polêmicos na arte do teatro musical e político no Brasil da época, com desdobramentos na cultura e nos costumes fortemente presentes ainda hoje.

Mas o que pretendo, com esta recordação, é chamar a atenção para a “vida real” no Brasil de 2012, nestes dias de barulhos estranhos e de silêncios mais que significativos na CPI do Cachoeira ou de encontros suspeitos e escandalosos de Brasília a Paris.

Um dos maiores exemplos, sem dúvida, é o que reuniu há mais de um mês, no Planalto Central, o ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva e os ex-presidentes do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes e Nelson Jobim. Neste caso, uma bomba de efeito retardado, mas devastador, pois segue espalhando estilhaços para todo lado.

Mal comparando, episódios como este, protagonizado por “três maiorais da República”, ou o da presença de Demóstenes Torres na triste sessão de quinta-feira da CPMI (que repercutem, com enorme confusão e desencontros factuais, tanto na chamada “grande imprensa”, quanto nos noticiários do “horário nobre” da TV em redes nacionais, e até no popular Programa do Ratinho, no SBT), criam uma forte e irrecusável impressão de opereta.

Parece que o país assiste a uma monumental e desastrosa reapresentação, ao vivo, da grandiosa obra de Chico Buarque de Holanda, dirigida por Luís Antônio Martinez Corrêa. Desta vez com péssimos e ridículos atores, ao contrário do fabuloso elenco da peça original.

Juarez Bahia, premiado e sempre lembrado mestre da teoria e da prática do jornalismo brasileiro, recomendava, quando editor nacional do Jornal do Brasil (e nos livros referenciais que deixou escrito, também): “é preciso usar a memória para contextualizar os fatos”.

Vamos à história, então, para facilitar o entendimento da comparação. Antes, porém, uma sugestão. A encenação destes dias mereceria talvez uma pequena adaptação no título. Da original Ópera do Malandro, de Chico, para “A Ópera dos Malandros” atual, de autores diversos e mal identificados.

No fim dos anos 70, Chico Buarque escreveu a trama ambientada no bairro da Lapa, no Rio de Janeiro da década de 1940, já nos estertores do Estado Novo. Na verdade era um enredo semelhante ao desenvolvido antes, por John Gay, na famosa Ópera dos Mendigos, e por Bertolt Brecht, com Elisabeth Hauptmamm, em A Ópera dos Três Vinténs, mais emblemática ainda, em 1928.

“O nosso trabalho tem a estrutura da peça de Gay, o enfoque crítico de Brecht, mas é essencialmente brasileiro”, explicou, na época, o autor de Ópera do Malandro em entrevista à revista ISTOÉ. Em cena aparece a Lapa do tempo de Getúlio Vargas, “com seus bordéis, os agiotas, os contrabandistas, os policiais corruptos, os empresários inescrupulosos”.

Nesse clima de música, festa, barulho e mistura de prostitutas e coronéis se conta a história da rivalidade entre o comerciante Fernandes de Duran e o contrabandista Orverseas. A situação ganha tinturas dramáticas quando a filha de Duran, Terezinha de Jesus, casa-se em segredo com Overseas.

Todo este enredo, no entanto, é puro pretexto para a grande e essencial discussão que envolve e motiva Ópera do Malandro: O poder do dinheiro, a corrupção e a entrada das poderosas empresas multinacionais no Brasil do tempo da ditadura militar, que vivia os seus estertores quando a peça estreou no Rio.

O diretor Luís Antônio Martinez Corrêa comentou, na estréia: “Localizamos a peça no fim do Estado Novo, porque sentimos muita afinidade entre aquele processo e o período que estamos vivendo. (…) Na Ópera do Malandro se discute a decadência de um sistema econômico, social e político e as alternativas criadas por ele, com roupagem nova, para se manter no poder”.

“A base, a estrutura desse sistema é a mesma, só que mais moderna e mais sofisticada. Assistimos ao fim do capitalismo liberal e à entrada, no país, do capital internacional através das multinacionais”, pontua Martinez.

Na “Ópera dos Malandros”, encenada atualmente no grande palco chamado Brasil, base e estrutura também se parecem com 78. Mas em 2012, tempo das empreiteiras e do grande capital financeiro em fase de novos arranjos com o poder político, há mudanças cruciais.

“O sistema é bruto”, como assinala o jovem apresentador do programa policialesco “Brasil Urgente”, na televisão em rede nacional, enquanto a repórter, de microfone em punho, tortura com imagens e palavras um preso, acusado de “pensar em estuprar”, sob guarda do Estado em uma delegacia de Polícia no bairro de Itapoã, em Salvador.

Na Ópera dos Malandros faltam autor, diretor e o notável elenco de atores da peça original, de fabuloso sucesso. Sobram criadores de farsas, diretores mambembes e um enorme elenco de canastrões consumados.

Resultado imprevisível, a conferir.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

vangelis on 2 junho, 2012 at 0:53 #

E para completar essa ópera bufa, Kurt Weill e Bertold Brecht nos apresenta a Ópera dos Tres Vintes…

http://www.youtube.com/watch?v=EWhqpKru-Po


Olivia on 2 junho, 2012 at 10:43 #

Hoje os malandros já não caminham nas pontas dos pés, é em frente às câmaras da TV. Grande artigo.


Carlos Volney on 2 junho, 2012 at 12:35 #

Grande Vitor, ninguém conseguirá ser mais oportuno e brilhante que você em qualquer comentário que pretenda fazer sobre o mesmo tema.
A comparação é pertinente e sua criatividade na adaptação (“A ÓPERA DOS MALANDROS”), impagável.


Graça Azevedo on 2 junho, 2012 at 16:02 #

Nada como esperar o sábado para ler e aprender com VH no bahiaempauta. Bom ter um grande jornalista, com visão de historiador, para examinar a grande farsa que é o momento atual do Brasil.


luiz alfredo motta fontana on 2 junho, 2012 at 18:18 #

Caro VHS

Pena que nessa opereta, a Geny é a Constituição


Ivan de Carvalho on 3 junho, 2012 at 1:41 #

Não precisa ser tão discreto, caro Fontana. A constituição, a nação, a gente. A Geny multipolar.


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