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Postado em 30-05-2012
Arquivado em (Artigos) por vitor em 30-05-2012 11:59


Crepúsculo visto de uma varanda na Rua do Porto, em Caravelas-Bahia.

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CRÔNICA

VARANDAS

Rosane Santana

Tenho uma predileção por varandas que não sei explicar. Vem da minha infância, no espaço urbano e rural, no extremo sul da Bahia. A partir delas, podia contemplar a chuva, precedida do vôo misterioso de urubus ,em círculo, anunciando o temporal, e sentir o cheiro da terra, arriscando, algumas vezes, um banho sob a calha que escoava a água do telhado.
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Em dias de sol, ali brincava com meus irmãos, ouvia a conversa dos adultos, balançava-me na rede ou remoia alguma mágoa. Noutros, jogava totó, quando em minha casa, e sinuca, já entrando na adolescência, na fazenda de um amigo fanfarrão.

Varandas são espaços privados e, ao mesmo tempo, públicos. Nela contemplamos paisagens externas, seguros de que não seremos importunados, ou que sempre poderemos escapar para dentro de casa; podemos nos expor e até bisbilhotar sem risco de sermos acusados de invadir o espaço alheio.

As varandas me proporcionam uma sensação de amplidão e de aconchego, de conexão com o mundo, de liberdade e de bem estar, ao contemplar o mar da Bahia, por exemplo, paisagem que preenche minhas retinas.

A partir das varandas, pode ser narrada uma parte da história política do Brasil. Dos barões do açúcar e do café, no Império, aos coronéis da República. Das sacadas também, que funcionam como se aquelas fossem em muitas construções coloniais.

Sou apaixonada por varandas. Na casa de minha mãe, onde moro atualmente, no centro histórico de Caravelas, no extremo sul da Bahia, há quatro varandas. Em uma delas, todas as manhãs, observo os telhados, a rua onde moro, de pequeníssimo movimento, e o céu. É como se abraçasse minha cidade e retornasse ao interior da casa revigorada e cheia de coragem.

Numa segunda varanda, no primeiro andar, ouço o vento, o canto dos pássaros, os sons que vêm de toda a parte, os mais próximos e os mais distantes, contemplo a chuva, leio, estudo e pratico alguns exercícios físicos. Existem ainda duas outras varandas na casa, onde observo o orquidário e outras plantas – o mundo de minha mãe, reproduzido em telas que ela mesma pinta e espalha por todos os cômodos.

Em Salvador, onde morei 33 anos, e sempre cumpro um roteiro afetivo, há uma varanda especial para mim: a da família Tonhá, no Caminho das Árvores. Ponto de encontro de velhos e novos baianos, familiares e amigos, espaço de confraternização e alegria que bem reflete o espírito de Gracinha e Lauro, os anfitriões.

Recentemente lá estive, de passagem por Salvador, e mais uma vez saí com a alma impregnada de boas sensações, depois de um bate papo que começou no final da manhã e terminou no início da noite, porque tudo termina, embora às vezes, desejemos que não.

Ao redor de uma pequena mesa, contaram-se histórias sobre lugares, amigos e novos amores. Histórias que alimentaram o meu espírito na viagem de retorno ao extremo sul. Da janela do ônibus, enquanto observava a paisagem e ouvia João Gilberto e Stan Getz, Sinatra e Jobim, num inseparável Ipod, relembrava a Juazeiro de Gracinha, de Gileno , do bar Vapor e de Dom José Rodrigues, e sentia saudades de um tempo que não vivi.

Rosane Santana, jornalista e professora universitária, mestre em História pela UFBA,mora em Caravelas, extremo-sul da Bahia, e ensina na universidade em Teixeira de Freitas.

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Comentários

Gracinha on 30 Maio, 2012 at 14:41 #

Rosane Querida!

Só alguém com enorme sensibilidade; rica vida interior; inteligência; escritora nata; além de evidente competencia profissional, para produzir texto tão comovente… Quase pude apreciar a chuva, sentir o vento e ouvir o canto dos pássaros no aconchego das varandas de sua mãe. Amei a simplicidade e beleza de sua cronica, melhor dizendo, exatamente bela pela forma simples como foi escrita.
Em tempos de mídia repleta de terremoto; seca; chuvas; choro de Xuxa; humilhação de reporter a preso; cachoeira, cpi; indignação e mensalão, ler sua crônica foi alento para mim.
As reuniões na nossa varanda ( que adoro), certamente ficam bem melhores quando participam pessoas tão especiais como você! Venha sempre que possivel!!!
Beijão amiga!!!

P.S. Gileno vai achar o maior “detalhe” ser citado por vc… rsrsrs


rosane santana on 30 Maio, 2012 at 15:28 #

Gracinha, amiga, muito obrigada. Sua descrição sobre Gileno foi algo que me encantou a ponto de relembrar Juazeiro e até estar no baile do qual vc falou. E sua varanda é especial, para mim, exatamente por todos que lá estão. “Gente é muito bom
Gente deve ser o bom
Tem de se cuidar
De se respeitar o bom” (Caetano Veloso).beijos.


Marcia Dourado on 31 Maio, 2012 at 22:13 #

Rosane
Que deleite a sua crônica! Me tocou profundamente, do passado ao presente.
Também eu, adoro varandas. Tenho uma pequenina em minha casa, e é nesse espaço que mais gosto de pensar e repensar a minha vida, vêr o movimento da rua, ouvir os sons diversos que se misturam e essa conectividade do interior e exterior num passe de mágica, que tão bem você fala, é extraordinário.
Bravo, Rosane, bravo!


rosane santana on 31 Maio, 2012 at 23:15 #

Marcia, amiga, muito obrigada. Maravilha sua presença na varanda de Gracinha. Confesso que senti sua falta na feijoada de Margô, mestre da culinária, e já estava ficando triste, pois achava que iria voltar sem te ver. Ainda bem que vc estava lá.E, na varanda, senti a falta de Vitor. Mas entendi. beijos


Gracinha on 1 junho, 2012 at 3:30 #

Que delicia estes momentos magicos!

Realmente Ro gente é muito bom! e melhor ainda qdo escontramos gente que capta e compartilha o que vai na nossa alma… No inicio do nosso papo naquela tarde notei que vc ( e talvez só vc) entendeu a importancia que eu havia dado em participar do baile no Juá , o qual terminei n indo por inumeros motivos, alguns dos quais talvez ainda não bem esclarecidos p mim. Tornou-se evidente porém, uma certeza: não foi por falta de companhia… isto poderia suportar na boa…
Sua referencia a sentir ” saudades de um tempo que não vivi” que para mim fecha c chave de ouro o seu emocionante texto , me fez refletir sobre como lidar com a saudade dos tempos por mim vividos, que sei ,não voltarão jamais.
Beijos!
PS Como sinto falta das nossas conversas…


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