Desenho:Gilson Migué

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CRÔNICA
Chuva, Seca e modernidade

Gilson Nogueira

Escrever é um ato solitário. Pelo menos, agora, enquanto só, em casa, estou. A chuva fina, chata e demorada aprisiona-me a idéia de dar um pulo no shopping, para fazer de conta que o verão está lá, à minha espera.Se fosse, iria perguntar-lhe: “ E aê, gente boa, como foi que você fez para prolongar suas férias, em Salvador, até a chegada dessa chuva chata, que não vai embora?”

“ Sei não, a Bahia tem um feitiço que nos prende aqui. Esqueci de tirar o time de campo e fui ficando…”
Se esse encontro existisse, iria dar-lhe uma bronca por haver tomado todas no Porto da Barra e, por isso, permitir que seu sol de rachar sertanejo fosse para o Interior da Bahia reeditar a seca, de mais de 40 anos, que presenciei, na juventude, no sertão baiano, vendo gente humilde, sem nada para comer, pedindo esmola, com a cuia na mão, e, ao mesmo tempo, benzendo-se e tirando o chapéu, aos céus, em agradecimento, pelo pedaço de pão e o pouco de farinha. Dói, até hoje.

E os urubus, na cerca, como pelotão da morte, perfilados, disputando, em rodízio, a carniça do garrote. Foi alí que ouvi um gemido estranho, no meio da caatinga, como se a natureza pedisse socorro, no canto da codorna. Logo depois, o tiro seco da fome.

Como não vou sair da frente do computador, opção única para passar o tempo, após ler um jornal local com alguns erros que agridem o bom jornalismo, como, por exemplo, fazer trocadilho com a morte, resolvo colocar na tela do meu PC, além do que já digitei, até aqui, um pensamento. É o seguinte:

Não faz tanto tempo, assim, que o lápis de madeira e grafite, a caneta tinteiro, a esferográfica e a máquina de datilografar eram os instrumentos de quem escrevia. O ato de criar um texto, para o cronista, naquela época, como na atual, exigia-lhe estar só, na solidão de um quarto, sala e, até, de uma privada, que, para muitos, é o ponto ideal para divulgar sua intelectualidade ou o refúgio dos complexados.

Pois é, acompanhado de processos quase rudimentares, comparando com a parafernália tecnológica da era da informação globalizada, o delírio de por no papel a crônica do dia, deu lugar a isso que, na atualidade, nos assusta pela facilidade de escrever e, consequentemente, comunicar. “Vixe, mãe do céu!”, exclama o caboclo.

Vive-se o êxtase cibernético, o orgasmo digital, no dedilhar de palavras e verbos, sobre o teclado do computador pessoal, como se todos os terráqueos fossem co-autores da sinfonia do amanhã, enquanto os ET os espiam. Com certeza, viva o prazer colossal de redigir o instante, o momento presente, em máquinas cada vez mais poderosas, capazes de entortar o tempo e nos deixar tontos diante do que virá! Como agora, por exemplo, ao ouvir – e ver- o saudoso Ray Charles, no Bahia em Pauta, cantando. Comunico-me com uma amiga, na areia da praia de Mar Grande, em plena Ilha de Itaparica. Ilha que, terça-feira passada, da janela do ônibus, no final da tarde daquele dia, avistei, sempre magnífica, piscando sobre o mar escuro.

Vindo do Itaigara, em direção ao Porto da Barra, aquelas luzes da ilha, aos meus olhos, brilhavam mais que em anos em que eu a admirava com o coração de veranista. A sua quietude, seu silêncio, sua não violência acabaram. E, de repente, meu computador ameaça travar geral.É um dos vírus da modernidade!


Gilson Nogueira é jornalista e desenhista, colaborador da primeira hora do BP

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Comentários

vangelis on 27 Maio, 2012 at 21:21 #

“Escrever é um ato solitário. Pelo menos, agora, enquanto só, em casa, estou…”
Como se diz na periferia: BROCOU!!!


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