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Uma punida, muitos culpados.

Washington de Souza Filho

De Corvilhã, Portugal, especial para o BP

A moça não conhecia limites e agora vai pagar pelo o que fez, sem que a culpa deva ser, totalmente, debitada a ela. No máximo, ela vai servir para demonstrar que existe o reconhecimento do limite que a sociedade aceita, em particular, neste caso de flagrante desrespeito a mais elementar regra de civilidade – do trato entre as pessoas,nem discuto a natureza da atividade – e de princípios constitucionais – o sujeito é acusado por um crime e ainda tem de ser punido pela ignorância ?

O fato em questão é a destacada entrevista, exibida pela Band Bahia, que ganhou o mundo – e o imediato repúdio dos que puderam assistir. E uma ironia que a razão da mobilização tenha sido a mesma fonte, que a autora da entrevista admitia que seria o destino, em função dos erros do acusado – a internet.

Não conheço a profissional – Mirela Cunha é o nome – e prefiro não a tratá-la como jornalista ou fazer referência como repórter, porque o trabalho em emissoras de rádio e televisão, apresentador incluído, é uma terra de ninguém. O acesso é permitido com a realização de cursos rápidos, em cidades do Interior da Bahia, sem que exista, em muitos casos, a rejeição de empresas e chefes. Pelo o que sei, investigações constataram fraudes que colocaria nomes como ficha-suja–se valesse para a carreira política.

Uma breve viagem, no fim de semana, pode não ser o caso dela, mas tem sido a regra geral – aplicada aos,considerados, famosos. Em relação à Mirela, cumpriu-se uma das regras básicas de Valmir Palma, sêo Porreta, repórter de Polícia do jornal A Tarde: “ Jornalista burro é que vira notícia”.

O problema para ela é que o procedimento visto, na rede – como ela tinha previsto -, é um padrão, há muito tempo no Brasil, com um inusitado destaque para a Bahia – mais um precedente, para lembrar de outro frasista, o ex-governador Octávio Mangabeira.

Neste período que estou em Portugal, o mal-estar de maior destaque, como brasileiro, nascido na Bahia, jornalista e professor de Jornalismo, vivi ao usar um desses programas como ilustração, de algo que era feito no país, mas que não podia servir de modelo – mostrei localizada no Youtube, a cena, que ficou famosa, do “cadê Coco?”. O episódio ocorreu em aula, para os alunos da licenciatura – graduação – em Comunicação e foi desagradável – para mim, pela reação de algumas estudantes, diante da vulgaridade.

O Brasil que é visto nas emissoras de televisão de Portugal não tem apenas as novelas, de muito sucesso por aqui, como destaque. Os programas como os criticados na Bahia também são vistos, através dos canais internacionais. Para muitos, é a realidade brasileira. Há mais tempo, quando vivia em Angola, a situação era a mesma. Para os angolanos, ainda no meio de uma guerra civil, era difícil de compreender a dimensão do que ocorria nas cidades brasileiras. O que restava, como diversão, era descobrir o significado de algumas expressões, usadas, indistintamente, por, ditos, jornalistas, e policiais. “O que é a casa caiu?”, perguntavam. E riam muito, depois da explicação, com a transformação da frase em uma espécie de saudação.

Este episódio, divulgado pela Band Bahia, faz parte do cotidiano da televisão baiana. É grave, pelo desrespeito. Mas o fato de ter ocorrido impõe à sociedade prestar atenção em relação semelhante, sem o tom visto, em que ela é desrespeitada, quando pensa estar sendo informada. Se a profissional agiu como visto, e a sua atuação reflete uma indesejada proximidade com os agentes policiais, o que dizer de quem é anunciado como comentarista de qualquer coisa e é empresário de um determinado setor? Ou quem trabalha na cobertura de um tipo de assunto e presta assessoria para profissionais da mesma área? Ou tem um hobby, mostrado como um fato de interesse público? Ou “os novos e velhos heróis” do rádio e da televisão, mantidos por um esquema, que busca a audiência dos seus programas para a divulgação dos feitos – apenas o que pode ser dito como bem feito.

Ouvi do advogado Ignácio Gomes, certa vez, que ele tinha atuado na defesa de presos políticos, contra o arbítrio e a tortura do governo militar. Mas que ainda havia situações, sem a opressão de um regime ditatorial, que presos precisam de um advogado, para o reconhecimento dos seus direitos. De alguma forma, penso ser assim o trabalho de um jornalista. O seu trabalho não pode ser o chicote que pune, sob o risco de atingi-lo, por não compreender o seu limite, da sua atividade – a regra do jogo, dizia Cláudio Abramo.

Vale para Mirela, mas ela não é a única responsável.

Washington de Souza Filho, jornalista, professor da Faculdade de Comunicação da UFBA. Atualmente, cursa o Doutorado em Comunicação na Universidade da Beira Interior, em Covilhã, Portugal.

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Comentários

vangelis on 25 Maio, 2012 at 16:32 #

O Sistema é Bruto – Nos anos 50, na minha infância, em Juazeiro tinha o Cine São Francisco que durante muito tempo passou um filme de farwest americano chamado Os Brutos Também Amam, em inglês o título é Shane, com o astro Alan Ladd. A garotada para se divertir e por estar de saco cheio pela repetição passou a titular o filme de Os Baitolas Que Se Gostam. Essas lembranças me remetem para um episódio recente entre dois profissionais da comunicação que foram colegas de faculdade, um deles é o da foto dessa matéria, o outro é o ex-vencedor do BBB e hoje Deputado Federal Jean Willis(nome do velho Jeep), o conteúdo do evento está postado no Youtube, link abaixo. O episódio é similar ao da entrevistadora com o menor infrator, porém, os atores são diferentes pela formação que tem, logo, a repercussão também foi diferenciada. Exemplos iguais estão todos os dias nesses meios de transmissão via TV e muitos são postados nesse canal de internet Youtube, onde, mesmo com algum controle, é um verdadeiro Mundo de Deus Dará. Acredito que somente os verdadeiros jornalista junto com a opinião pública podem inibir essas ações de falso jornalismo dentro do meio. A guerra que se trava hoje entre os canais de televisão pela audiência é um verdadeiro campo minado onde não haverá vencedores…Por isso retorno ao Cinema Hollywoodiano com a comédia dos Grandes Irmãos Marx: Uma Noite Na Ópera…

http://www.youtube.com/watch?v=t7lutEOwRmw


vangelis on 25 Maio, 2012 at 16:40 #

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