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OPINIÃO POLÍTICA

Direitos e a mídia

Ivan de Carvalho

As divisas da Bahia não foram suficientes para conter a repercussão da entrevista feita numa delegacia de polícia de Itapuã pela repórter Mirella Cunha, do programa “Brasil Urgente Bahia” contra um cidadão detido acusado de roubo e estupro. Quero dizer “uma entrevista contra”, mesmo, porque ficou manifesto o propósito de agredir moralmente o suspeito em troca de alguma pontuação a mais no ibope para o programa apresentado pelo jornalista Uziel Bueno na Band.

A quase inacreditável entrevista – feita pela repórter dentro da 12ª Delegacia, em Itapuã, uma repartição do Estado da Bahia, na presença de agentes do Estado e atingindo com disparos de efeito moral um suspeito sob custódia do Estado, um suspeito intelectualmente inerme que apesar da presunção de inocência foi exibido como uma espécie de troféu midiático à sociedade – inicialmente provocou uma “carta aberta” de protesto e pedido de providências, assinada por jornalistas e que, às 20 horas de ontem, já contava com 1347 signatários de todas as partes do país.

Apesar do teor humilhante e deplorável das perguntas feitas pela repórter ao suspeito, aproveitando-se de sua ignorância para ridicularizá-lo, Mirella Cunha foi, em verdade, a peça menor na engrenagem. É impensável, sob o aspecto profissional, que ela exercesse a sua função sem uma orientação do programa, que a emissora evidentemente acolhe. E, encontrando na ocasião terreno fértil, plantou o que não devia e colheu o que quis, mas a que não tinha direito.

Liberdade de expressão, liberdade de imprensa. São fundamentais, essenciais. Não existem outras liberdades, nem direitos, nem democracia sem elas. Devem ser respeitadas tanto quanto a dignidade humana, presumindo-se que seu bom uso seja promover esta dignidade, ao invés de degradá-la.

Enquanto o caso ganha dimensão nacional – certamente porque esse tipo de programa não é exclusividade da grade de três das emissoras de televisão de Salvador, mas é uma espécie de praga que se espalhou pelo país numa guerra nada santa por audiência e que, não raro, transforma repórteres e principalmente apresentadores em portadores de mandatos eletivos, aproveitando a curiosidade mórbida de parte da população e usando alguns truques de comunicação – a Associação Bahiana de Imprensa prepara-se para se manifestar.

Um documento interno assinado por Ernesto Marques, destacado membro da diretoria da entidade, dirigido aos demais diretores, relata suscintamente o caso de que estamos tratando, qualifica-o de relevante, “evitando fulanizar o debate” e informa que o assunto estará na pauta da próxima sessão da diretoria da ABI.

Algumas medidas estão sendo tomadas, mas parecem convergir contra a repórter Mirella Cunha, que provavelmente já aprendeu a lição e não repetirá a atuação que teve.

Mas esse tipo de programas que produz essa espécie de entrevistas, nas quais direitos de cidadania são violados sob a garantia de agentes do Estado em repartições do Estado, este sim é um ponto muito mais importante. Como o é o estímulo público, pela mídia televisiva, do atentado violento ao pudor no interior do sistema prisional contra detentos suspeitos de haverem cometido esse mesmo crime ou o de estupro. E a passividade do Estado em enfrentar essa violação dos direitos humanos das pessoas sob sua custódia.

Em síntese, está aí muito do que debater.

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Comentários

Claudio on 24 Maio, 2012 at 0:22 #

Belíssimo artigo, Ivan. Vai no tutano. Grande abraço.


Almério on 24 Maio, 2012 at 8:02 #

Realmente esse tipo de programa é um abuso, uma praga à infestar a TV brasileira e não entendo como permite-se algo assim… Mas a “jornalista” tem muita responsabilidade, não vale tudo por dinheiro, bem como por audiência, afinal, ela, em seu íntimo não percebeu o abuso que cometia? Promoveu o linchamento porque sentiu-se bem com isso, fazendo-se passar por justiceira e propagadora de uma suposta moral que impoem-se a pretos e pobre, principalmente na Bahia, um dos estados mais racistas que conheci.
É lamentável, triste, e tem pais que pensam educar seus filhos assistindo a esses lixos que a TV exibe.


vangelis on 24 Maio, 2012 at 10:13 #

Realmente ela é a pela menor, a concessão de rádio e televisão é poder do Estado, as relações entre esses dois poderes quando não são controladas pela sociedade podem atingir até a sua liberdade levando essa sociedade para uma ditadura. Não queremos censura, Ivan lembra bem: Liberdade de expressão, liberdade de imprensa. São fundamentais, essenciais…Devem ser respeitadas tanto quanto a dignidade humana. Em muitos dos sermões do Padre Vieira há um, de uma quinta-feira Santa, no qual ele argumenta sobre o Capital e o Poder, diz ele numa interpretação livre O Dinheiro e o Poder: Um sem o outro de nada servem, os dois juntos são armas letais contra o próprio povo, é muito necessário o equilíbrio entre esses poderes…


vangelis on 24 Maio, 2012 at 10:14 #

Realmente ela é a peça menor, a concessão de rádio e televisão é poder do Estado, as relações entre esses dois poderes quando não são controladas pela sociedade podem atingir até a sua liberdade levando essa sociedade para uma ditadura. Não queremos censura, Ivan lembra bem: Liberdade de expressão, liberdade de imprensa. São fundamentais, essenciais…Devem ser respeitadas tanto quanto a dignidade humana. Em muitos dos sermões do Padre Vieira há um, de uma quinta-feira Santa, no qual ele argumenta sobre o Capital e o Poder, diz ele numa interpretação livre O Dinheiro e o Poder: Um sem o outro de nada servem, os dois juntos são armas letais contra o próprio povo, é muito necessário o equilíbrio entre esses poderes…


[…] link: Ivan de Carvalho: A repórter é a peça menor na engrenagem de … Tweet This […]


vitor on 24 Maio, 2012 at 13:44 #

Aviso aos navegantes: o artigo de Ivan de Carvalho sobre “Brasil Urgente”está bombando hoje no twittet


danilo on 24 Maio, 2012 at 14:19 #

tá certo que houve excesso da repórter. o garoto não estuprou a mulher. mas ele não é santo, e até mesmo confessa a prática de delitos. inclusive, aforma que já foi preso antes por algo errado que cometeu.

o pior de tudo, é que o meliante se torna “santo”, por conta da pisada de bola da bela e deliciosa moiçola.

aí, tudo vira uma grande moral de jegue. a repórter é transformada em inquisidora, e o pequeno bandido vira herói nacional. periga ser recebido por Dilma e Lulla para ser condecorado com alguma medalha de mérito à honra.


Claudio on 24 Maio, 2012 at 14:43 #

Caro Danilo: ninguém está santificando o garoto, mas, pense bem: depois de tantas violações de direitos individuais, uma leve comiseração lhe é merecida, um leve respeitinho lhe é devido, talvez pão e leite nas refeições, e mais a dispensa de chibatadas matinais, apesar de ser um criminoso de alta periculosidade: morador de rua desde criança, analfabeto e ex-vendedor de doces em ônibus. Creio que um “pequeno bandido” dessa envergadura teria o direito de ficar calado numa CPI, protegido pelo manto generoso da Constituição Federal.
Abraços, Claudio.


Olivia on 24 Maio, 2012 at 15:03 #

Pois é amigos, o contraventor foi depor na CPI esta semana, adentrou o recinto do Senado de roupa de grife, acompanhado do mais caro advogado do país e não usava pulseira de prata. Já o negro baiano, ora, … deixa pra lá.


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