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Seu Zeca, pai de Caetano, dona Canô, Dedé e o próprio

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DEU NO JORNAL O GLOBO ( EDIÇÃO IMPRESSA DE DOMINGO, 20 ), REPRODUZIDO EM CONTEÚDO LIVRE

VERDADE

Caetano Veloso

Tinha tido a impressão de que este jornal quis tirar onda com a minha cara. No domingo passado, ao anunciar, na primeira página, o que o leitor encontraria aqui na coluna, os editores disseram que eu teria “adoração” por Marcelo Freixo. Achei estranho. Sempre essas chamadas vêm com ideias expressas no meu texto. Por que dessa vez houve um distanciamento? Ali se dizia, literalmente, que eu estava entre a lucidez de Fernanda Torres e a adoração pelo pré-candidato. Será que dei mesmo lugar a que se escrevesse isso? — me perguntei. E pensei: há algo errado. Nada em meu texto permitia que se usasse a palavra “adoração”. E esta palavra desqualificava quaisquer observações objetivas que porventura eu tentasse desenvolver.

Minha adesão à ideia de uma candidatura de Freixo à Prefeitura do Rio é explicitada, inclusive com a afirmação de que sou “100% Freixo”. Todas as vezes em que, ao se avizinharem eleições, senti que um candidato representaria um movimento forte no sentido do encaminhamento político que vislumbro para o Brasil, declarei meu voto sem margem para dúvidas. Ao contrário do que querem fazer crer meus maus imitadores, não vivo dizendo “ou não”. Tal definição de posições tão específicas não podia ser tachada de “adoração” por essa ou aquela personalidade pública. Ao apoiar uma possível candidatura tão desamparada pelo dinheiro, pelos esquemas existentes, pelos donos do poder, não pude deixar de achar suspeita uma tirada como essa do GLOBO. Cheguei mesmo a formular que nenhum jornalista poderia fingir para si mesmo que o uso da palavra “adoração” não teria, no contexto, o papel destrutivo que detectei. Mas me esqueci de outra verdade sobre a vida diária dos jornais: a correria, que pode levar a mal-entendidos. Não é preciso ser um paranoico clássico para atribuir intencionalidade a coisas que chegam às rotativas por acidente ou falta de tempo. Relendo o que já tinha escrito, me vi (depois de alertado por amigos e por jornalistas em quem não tenho por que não confiar) como um articulista algo mimado e temperamental. Na verdade, a frase inicial me veio junto com a lembrança de Paulo Francis escrevendo na “Folha” em resposta ao então ombudsman daquele jornal. (Não reli tal texto na publicação de uma nova antologia de Francis: como disse, ainda não li nenhuma dessas coletâneas de coisas dele, prometo fazê-lo uma hora dessas. A frase — que era, mais ou menos, “Tenho a impressão de que Caio Tulio passou a mão na minha cabeça” — reveio de memória.) E, embora aquele jornalista tenha me influenciado desde a adolescência — e eu não deixe de perceber sua presença aqui em meus escritos —, eu acabei por considerá-lo um autor mimado e dado
a chiliques, aspecto que não desejo emular.

Eu teria declarado essa intenção de voto com a mesma firmeza de qualquer maneira, mas meu artigo nasceu da leitura do texto de Fernanda Torres na “Folha de S. Paulo”. Sem este, talvez eu apenas informasse o leitor sobre minha decisão. Mas Nanda questionava a viabilidade de um candidato que supostamente despreza empresários. Como explicou o próprio Freixo no “Roda Viva”, não se trata de desprezar os empresários, mas sim de rechaçar o modo viciado como vêm se dando as relações entre políticos e o poder econômico. Ele crê que isso pode e deve mudar, enquanto não chega o financiamento público das campanhas. Dizem que ele crê em muitas coisas incríveis. Mas achavam incrível a criação de uma CPI das milícias e no entanto ela foi instaurada e puniu gente. Pergunta: alguém acha oportuno uma candidatura de oposição, quando o alinhamento entre prefeitura, estado e União funciona e quando a polícia entra em favelas para ficar em vez de invadir e abandonar? Resposta: Freixo é uma espécie de oposição que ajuda o que há de bom no governante a se livrar das arapucas em que se meteu. Além de ele não anunciar o desarme do que foi conseguido, a cidade capta o valor de um gesto que indica aumento de saúde social.

XXX

Contei no domingo passado que leio o Ex-Blog de Cesar Maia com proveito. Pois bem, esta semana li lá uma nota intitulada “Uma sugestão para a Comissão da Verdade: ver o filme ‘Cidadão Boilesen’”. Quero ver esse filme. A descrição que Maia oferece causa forte impressão. Quando estive preso, ouvi, no quartel da PE da Vila Militar, gritos de dor de torturados. O fato de me terem dito ali que provalvelmente se tratava de presos comuns, bandidos da Zona Norte, fez-me pensar na brutalidade da sociedade brasileira. Sempre penso que a Comissão da Verdade deveria desnudar o mundo da tortura, que tomou ares quase oficiais durante o governo militar, mas que é prática comum nas prisões e delegacias do país. Esse filme que Maia destaca conta como empresários e banqueiros financiaram a Oban (Operação Bandeirante, o centro de informações da ditadura, que torturava), sendo que Boilesen foi o mais entusiasmado deles: gostava de assistir pessoalmente às sessões de maus-tratos. Era um anticomunista. Como me ensinou meu pai: pior do que um comunista é um anticomunista.

XXX

Falar de Cesar Maia num texto em que se apoia Freixo pode parecer exibição gratuita de independência. Talvez seja. Mas o que interessa é que Maia chame a atenção para esse aspecto das relações entre nossa sociedade e a tortura. Quanto aos planos eleitorais do ex-prefeito (ou qualquer revelação que se faça sobre promiscuidade sua com empresas), minha resposta é meu apoio a Freixo.

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Comentários

danilo on 21 Maio, 2012 at 17:45 #

… ou não.

botando a bola no chão, Caetano é tão chato e confuso quando escreve. se justifica demais. o tempo todo.

ou não…

tanta gente interessante para escrever nas domingueiras dos jornais, e aí vem o Globo, e A Tarde (a reboque do provincianismo), dar guarita ao menino de Santo Amaro para que ele fale tanta abobrinha.

a grande imprensa brasileira vive mesmo uma lacuna de brilhantismo. que falta faz um Paulo Francis, neste momento, pra escangalhar com o Brasil cumpanhêro.

e na carona, confrontar os arrazoados chatíssimos de Caetano.


vangelis on 21 Maio, 2012 at 22:48 #

Bota chato nisso…mas, no domingo o João Ubaldo publicou mais uma crônica super hilária com o título A mulher, a ciência e o côco:
Sim, cativante leitora, gentil leitor, fiquei devendo algumas explicações, depois da deplorável barafunda de assuntos com que os tenho vitimado, nos últimos domingos. Mas, apesar de tudo, creio que acabei esclarecendo mais ou menos a questão da gordura do coco e discorrendo um pouco sobre a inconstância do que nos apresentam como perenes e irretorquíveis verdades científicas. Não cheguei, contudo, a dizer direito o que via nisso de relevante para as mulheres. Hoje essa grave lacuna, como é destino de todas as lacunas, será preenchida.

No domingo passado, escrevi que havia novidades científicas para as mulheres, relacionadas com o coco. Disse também que não sabia se era caso de as mulheres desconfiarem de mais esse achado científico. De minha parte, creio que sim – e não somente porque os achados vivem se contradizendo, mas porque minhas contemporâneas sofreram bastante, por causa da verdade científica. A maioria das queridas leitoras, todas na flor da idade, talvez não possa recordar o tempo em que a gente se referia às mulheres, a sério, como “o sexo frágil” ou “o belo sexo” e as considerava umas instintivas mais ou menos destituídas de real inteligência. Claro que essa maneira de ver se originava na ciência vigente. Sem achar que estavam ofendendo ninguém, os homens e muitas mulheres repetiam uma porção de besteiras sobre as mulheres, nenhuma delas abertamente desmentidas pela ciência e algumas até confirmadas.

As besteiras se estendiam sobre todas as áreas, inclusive aquela em que o óleo de coco está ganhando destaque, ou seja a tensão pré-menstrual. Pois é, a cada dia aparece uma matéria em algum jornal ou noticiário, anunciando essa maravilha. Desconheço a posologia e não estou receitando nada, mas li que, num porcentual altíssimo, as mulheres que sofrem de TPM ficam curadas ingerindo óleo de coco diariamente, do qual já existem não sei quantas marcas em circulação. Espero que as sofredoras fiquem boas mesmo, mas, como disse domingo passado, tenho algumas lembranças do progresso da ciência e do conhecimento comum sobre a questão, que talvez devam ser ponderadas.

No começo, não havia menstruação. Ou seja, não se falava nisso na presença de homem algum, a não ser o médico, a cujos consultórios as mulheres só iam acompanhadas. Geralmente eram os homens que tinham irmãs que começavam a revelar aos outros a existência desse estranho fenômeno, encarado por muitos com ceticismo. Os mais sofisticados pegavam anúncios de Modess na revista O Cruzeiro, em que apareciam misteriosas mensagens cifradas, dirigidas às mulheres e mencionando “as antiquadas toalhinhas”. Mas não se mostrava nem a toalhinha, nem o secretíssimo produto anunciado. Havia grandes discussões masculinas sobre o que seriam as antiquadas toalhinhas e até hoje não faço delas uma ideia clara. Neném, um amigo de infância, certa vez abriu um pacote de Modess para ver como era e o descreveu como “um travesseiro de gato”, o que não contribuiu muito para o entendimento. E a moça não ficava menstruada, ficava “incomodada”, ou até “doente”.

O conhecimento comum e o conhecimento científico sobre o assunto, tanto quanto eu saiba, diferiam apenas na terminologia. Em Itaparica, não se usava a expressão na presença de alguém do sexo oposto, mas a menstruação era designada como “boi”, em falas como “acho que o boi dela chegou, você precisa ver como o feijão está salgado e mal catado”, “ele disse que vai casar com ela e eu retruquei que não tinha nada contra, só fiz lembrar que a família dela tem os bois mais brabos da ilha e ele que se precate, porque vai tomar porrada todo mês”. Quando eu era menino e ficava na quitanda de Bambano para ouvir as conversas dos adultos, a finada Lindaura, de finado Cartésio (nomes mudados por uma questão de discrição), às vezes passava batendo os tamancos e assoprando forte e Bambano comentava que “compadre Cartésio hoje vai se ver, espere só ela abrir a cancela e soltar esse boi”. E de fato, quando sentia que o boi de Lindaura estava perto, Cartésio sempre arranjava uma viagenzinha de negócios a Salinas e ficava por lá até ele acalmar.

Era mais ou menos o que a ciência dizia, com outras palavras. Questão de personalidade da vítima de bois brabos, histeria. Quando a infeliz se queixava de cólicas que a deixavam rolando na cama, o médico, como eu vi acontecer, só faltava dar uma risadinha de condescendência para com o eterno feminino (sim, havia também o eterno feminino) e explicava que as cólicas eram psicológicas. “Está tudo em sua cabecinha”, dizia o médico a uma paciente que evidentemente não tinha dor nenhuma na cabeça, mas na barriga mesmo.

Agora, ao que parece, as cólicas não são mais psicológicas e a ciência reconhece a existência da TPM. Segundo me contam, entidades científicas questionam essa existência, mas outras não só a aceitam, como ainda acharam algo pior, chamado Transtorno Disfórico Pré-Menstrual. Pela descrição, a mulher nas vascas do TDPM é capaz de metralhar a vizinhança ou jogar o gato no liquidificador. Óleo de coco nela, atual palavra de ordem. Como eu disse antes, espero que dê certo mesmo e, a julgar pelo material que me mandaram depois que falei nele, deveremos entrar em breve na Era do Coco. Aliás, lá na ilha já entramos, com resultados ainda duvidosos, o que dá pra rir dá pra chorar e até cheiro bom tem sua hora. Um toureiro (marido ou amancebado com mulher de boi brabo) lá do Bar de Espanha se ofereceu para um teste e, de fato, o boi da sua dele santa esposa amansou muito, depois que ela passou a tomar leite de coco várias vezes por dia.

– Mas eu suspendi o tratamento – disse ele. – Muito antes um boi brabo do que o sujeito ir deitar e achar que está dormindo com uma moqueca.


lucia angelica rocha on 14 agosto, 2012 at 19:08 #

como alguem tem coragem de comparar caetano veloso com paulo francis um chato de galocha. caetano é o genio de maior importancia do planeta.


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