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Postado em 14-05-2012
Arquivado em (Artigos) por vitor em 14-05-2012 05:37


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CRÔNICA DE UMA ALEGRIA
Traço de Gilson Migué

A felicidade é azul, vermelha e branca

Gilson Nogueira

A grande tela da televisão colorida escancarada em minha sala de visitas dava-me a impressão que eu estava no Estádio Roberto Santos, o Pituaçu, na arquibancada, torcendo junto ao povão pelo time de minha vida.
Enquanto a bola rolava nos pés do Bahia todo de branco, lembrando meu segundo time de coração, o Santos, aquele com Pelé e companhia, no final da década de 1950 e início da década de 1960, em plena Vila Belmiro, fazendo-me imaginar, na juventude, que anjos jogavam bola, davam palavrões e porradas nos adversários, em busca da vitória, eu rodopiava em volta da mesa de centro da sala feito peru bêbado antes de cair na faca em véspera de Natal.

Com os minutos passando mais rápido que o vendedor de jornal A Tarde em minha rua aos domingos fui acreditando que, ao final do jogo, iria dar um grito de é campeão, como há muito não fazia, desde o ano em que o Esquadrão de Aço levantou a taça de campeão baiano de futebol,2001.
Foi tiro e queda. Com a voz rouca, sozinho, a cada gol do maior time do mundo, num vestir e tirar a camisa de listras verticais, em azul, vermelho e branco, com o número 8 às costas, percebi que meu recado aos adversários estava gravado no CD licenciado do Esporte Clube Bahia.
Feito criança, a cada gol, que levaria ao triunfo consagrador, mesmo em um empate, em 3 a 3, com o Vitória, subia as escadas do meu apartamento para dar o play que substituia, eletronicamente, meu grito guardado na gaveta da memória, há 11 anos.

Emocionado, chorei, em silêncio, para que minha mulher não se assustasse com o soluço da minha alma.

O hino do Bahia, composto por Adroaldo Ribeiro Costa e Agenor Gomes, dominava os ares do pedaço, invadindo janelas, portas, telhados, batendo – e voltando – nas paredes das residências vizinhas, subindo aos céus, como um canto emocionando e felicidade.

Assim que o clube que me convidou para fazer sua primeira revista, em 1969 ou 1970, não recordo, agora, ao lado de alguns colegas do curso de jornalismo da Universidade Federal da Bahia, a Ufba, desenhava mais uma epopéia com o coração, a cabeça, mãos e pés dos seus heróis da bola, voltava eu a ser criança, sorria saudades do meu saudoso pai, que me ensinou a ser Bahia;

Exausto, quase sem voz, por um instante, no silêncio da TV desligada e do rádio de pilha perdido nos labirintos das coisas esquecidas, senti, de repente, em volta de mim, e nos clarões de fogos de artifício, ao longe, no início da noite, que a alegria voltava a dominar os ares da terra do primeiro campeão brasileiro.

Próximo à meia noite, com o silêncio pedindo passagem, uma voz perdida na escuridão da caótica Salvador dos dias que correm fechava o dia: “ Bahêêêaaa!!!”

Era um solitário torcedor do time que faz do futebol carnaval.

Gilson Nogueira, jornalista, colaborador da primeira hora do BP, tem Bahêêêa no sangue desde garoto morador ao pé da Fonte Nova.

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