Neiva Moreira:um exemplo de político…
===========================================

…e de jornalista

============================================
ARTIGO DA SEMANA

UMA PERDA, UM GANHO

Vitor Hugo Soares

Na madrugada de quinta-feira (10) o Brasil perdeu Neiva Moreira, 94 anos, uma de suas maiores e melhores referências no terreno, cada vez mais movediço, do pensamento político, da ação parlamentar e do jornalismo exercidos por ele, sempre, na sua expressão mais ética, verdadeira e desassombrada ao longo de uma vida inteira. Perda sem tamanho em uma terra e em um momento cada vez mais carentes de figuras assim.

No final do mesmo dia, a presidente Dilma Rousseff – confessa admiradora de Neiva, reconhecida pelos ensinamentos dele recebidos em sua origem pedetista, quando a ex-guerrilheira mineira já morava no Rio Grande do Sul – anunciou, finalmente, a lista com os nomes dos sete componentes da Comissão da Verdade. Polêmica entidade criada em 18 de novembro do ano passado, com o objetivo de “esclarecer as graves violações de direitos humanos” praticadas durante a ditadura implantada em 1964.

Um ganho democrático, sem dúvida, mas cuja dimensão e alcance só poderão ser avaliados no futuro (que esperamos mais próximo que distante). A partir não só da história pessoal e profissional de cada um dos membros da comissão, mas, principalmente, do desempenho concreto do conjunto dos escolhidos para esta desafiadora e crucial missão que, bem cumprida, ajudará a nação a superar um dos maiores traumas de sua história recente.

Logo se vê: esta segunda semana de maio de 2012 é, definitivamente, um período para ficar registrado na história e não esquecer tão cedo nos relatos, análises e crônicas sobre perdas e ganhos do Brasil. E não se fala aqui dos intrincados, secretos e insondáveis labirintos em que começa a mergulhar a chamada CPMI do Cachoeira, resultante dos escandalosos telefonemas grampeados pela Polícia Federal .

Uma história cada dia mais cinzenta, confusa, imprópria para menores, mesmo em território de escândalos os mais escabrosos – boa parte deles ainda mofando nos arquivos de polícia, nos imensos processos judiciais por julgar, ou simplesmente já transformados em pizza. Mas, para não perder o rumo, sigamos o roteiro proposto no começo destas linhas.

Mesmo sabedor da idade avançada de Neiva – e dos estragos que o tempo causa na saúde das pessoas, alguns por experiência própria – há figuras nas nossas relações pessoais, afetivas, profissionais ou políticas que a gente costuma e gosta de acreditar que são imbatíveis, eternas, imortais de verdade e não apenas por um feito qualquer ou título de academia.

Para o jornalista que assina estas linhas, José Guimarães Neiva Moreira era uma destas figuras. Desde o tempo de garoto nordestino nascido nas barrancas baianas do Vale do Rio São Francisco, mas já de olho no mundo. Ligado muitas vezes nos feitos daquele prodigioso rapaz nascido irônica (ou emblematicamente?) na cidade maranhense de Nova Iorque, distante quase 500 quilômetros da capital, São Luís. A história de vida de Neiva, na política, no jornalismo, nas relações humanas e nos combates intelectuais e sociais, é longa. Brilhante, reta moralmente, bonita, épica às vezes, outras vezes triste, mas sempre pontuada por uma inesgotável capacidade de pensar, resistir e fazer coisas. Desde quando, órfão de pai aos seis anos, ele ajudou na subsistência familiar, vendendo bolos, remando canoas no Rio Parnaíba e como cobrador da Associação dos Empregados do Comércio de Floriano (PI). Sem jamais deixar de ir à escola e estudar com afinco, registre-se.

Em Floriano deu os primeiro passos, no jornalismo, na redação do jornal estudantil A Luz. Depois, em Teresina, ao mesmo tempo em que estudava no Liceu local, fundou e dirigiu, com Carlos Castelo Branco (o Castelinho, do Jornal do Brasil, um dos mais completos articulistas políticos do país), o jornal A Mocidade. Ponto de partida para grandes vôos na imprensa brasileira e da América Latina.

A vida e a obra de Neiva são imensas e as linhas deste artigo insuficientes para abarcá-las. Boa parte delas vivenciei, em conversas com o próprio Castelinho, durante o convívio profissional de mais de 15 anos, no Jornal do Brasil. Ora nas minhas idas à sede, no Rio de Janeiro, ora nas freqüentes e luminosas passagens de Castelo pela Sucursal do JB na Bahia, cuja redação eu então chefiava.

No tempo da ditadura fui muitas vezes ao Uruguai (em companhia de Margarida, também jornalista), onde ainda estavam exilados Brizola, Jango, o coronel Dagoberto Rodrigues, o jornalista e querido amigo Paulo Cavalcanti Valente, entre outros. Em Montevideu, construí e estreitei laços de admiração e respeito por Neiva. Mesmo quando não estava presente, ele, o maranhense de Nova Iorque, pontuava nas longas conversas desses ilustres personagens citados, Brizola principalmente.

A última vez que estive pessoalmente com Neiva Moreira foi durante uma passagem triste pelo Rio de Janeiro. O coronel Dagoberto tinha acabado de morrer de enfarte, na véspera de tomar posse como diretor-geral da Imprensa Oficial no primeiro governo de Brizola, depois de longo exílio. Com Margarida, fui levar abraço (repetidas vezes recomendado por Paulo Valente) na redação do centro do Rio, ao “cabra corajoso, inteligente e jornalista sem igual” (dizia Paulo) , que acabara de refundar no Brasil o emblemático Cadernos do Terceiro Mundo, criado em Buenos Aires por Neiva e colegas argentinos e uruguaios.

Na despedida, naquela manhã no Rio, recebi de Neiva o honroso convite para escrever sobre a africanidade em Salvador para uma das publicações do jornalismo alternativo que fizeram a cabeça de muita gente de minha geração. Na última quinta-feira, antes de sentar à mesa para o café da manhã, na Bahia, recebi de Margarida a notícia da morte de Neiva, que ela acabara de ouvir na TV.

“A política brasileira perdeu hoje um de seus mais expressivos líderes. Neiva Moreira, fundador do PDT junto com Leonel Brizola, lançou raízes do trabalhismo no Brasil e em vários outros países latino-americanos. Como estudioso, ativista e escritor, sempre esteve ao lado dos povos oprimidos da região. Viveu intensamente a luta pelas liberdades no Brasil e, após retornar do exílio, ampliou sua trajetória política a partir do seu amado Maranhão. Em nome de todas as brasileiras e de todos os brasileiros, cumprimento familiares e amigos, neste momento de dor.

Particularmente, guardarei sempre comigo as boas lembranças de minha convivência com Neiva Moreira”, dizia a nota de pesar da presidente Dilma.

Eu também!

Vitor Hugo Soares, jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

Be Sociable, Share!

Comentários

Mariana Soares on 12 Maio, 2012 at 8:37 #

Artigo de primeira linha, meu irmão, tanto na emoção nele contida, quanto na bela e dignificante história que conta. Gostaria, apenas, de acrescentar que a semana que se aproxima também deverá marcar a nossa história de um maneira especial e decisiva, pois a partir do dia 16 de maio entra em vigor a Lei de Acesso a Informação, que concede o direito a todo cidadão obter acesso a todo e qualquer documento público, sem que para tanto tenha que apresentar qualquer justificativa. A regra, agora, é a publicidade e a exceção será o sigilo. Apesar de romântica, sei que esta mudança não vira apenas com a vigência da lei, afinal, uma cultura de segredos mantida por tantos e por tanto tempo não se dissipa da noite para o dia. Mas, reconhecer este fato como histórico e alvissareiro é dever e grande alegria. Participar deste momento da história tem me trazido, como cidadã e servidora pública orgulhosa da minha função, indizível realização profissional e pessoal. Que chegue este novo dia!


Carlos Volney on 12 Maio, 2012 at 21:22 #

Caro Vitor Hugo, não é só belíssimo o seu artigo – isso é sua marca registrada e você sempre se supera em cada escrito.
Mais que tudo, é confortante que surja alguém para homenagear uma figura ímpar como foi Neiva Moreira.
Para os velhos como eu uma bôa e revigorante “sacudida”. Para os jovens que não tiveram a ventura de conhecer sua trajetória, um chamado à consciência. Seu texto é, enfim, mais uma aula de jornalismo e nos alenta a todos.
De resto, há o consolo de que se Neiva nos deixa aínda temos por aqui – e haveremos de ter aínda muito e muito – figuras da estirpe de VITOR HUGO SOARES.
Uma pena que cada vez mais raras…


Memélia Moreira on 12 Maio, 2012 at 21:27 #

Caro Vítor Hugo Soares,
obrigada por esse momento de emoção que você me fez viver falando de meu Tio. Foi das homenagens mais bonitas dessas que tenho lido nos últimos dois dias. Ele me ensinou o que significa Honra. E, principalmente, o respeito à diversidade. Mas também me ensinou os combates. Estava com o rosto sreno dentro daquele espaço que será sua casa pela eternidade.
Queria lhe dar um abraço de agadecimento. Um dia, quem sabe.
Saudações,
Memélia Moreira


vitor on 13 Maio, 2012 at 10:51 #

Memélia

Suas palavras me comoveram com a força e o sentimento de mil abraços. Ainda assim espero que o abraço pessoal aconteça (não de agradecimento, porque a memória de Neiva merece muito mais) mas para celebrar o nascimento de nova amizade.
Um grande abraço de conforto e de agradecimento pelas palavras generosas.

Vitor Hugo

Em tempo:

Gostaria de publicar no Bahia em Pauta, se vc autorizar, alguns textos do seu Mosaico., ou outros que vc produzir. Espero que siga presente no BP.

Grande abraço

Vitor Hugo


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos