Água do programa do governo baiano falta para muitos

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OPINIÃO POLÍTICA

Um socorro tardio

Ivan de Carvalho

Em abril, o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, anunciou que o governo federal vai “disponibilizar” R$ 2,723 bilhões para “ações emergenciais” de combate à seca. Os recursos, se e quando liberados, serão repartidos entre todos os estados do Nordeste atingidos pela estiagem e Minas Gerais.

Mas este anúncio foi feito em abril. A seca é muito mais antiga. O socorro vem, se vier, incrivelmente atrasado. Não me refiro à seca em geral, pois este fenômeno na região é, no mínimo, secular, mas à atual seca. Para confirmar isso sem precisar percorrer o semiárido ou conversar com as pessoas que o fazem habitualmente, basta atentar para informações que prestou o secretário estadual Rui Costa, chefe da Casa Civil do governo do Estado.

Ele disse que esta é a seca mais intensa dos últimos 47 anos na Bahia. Este número foi citado porque em 1965 houve outra seca tão devastadora quanto esta, com uma agravante e uma atenuante.

A agravante foi a de que naquele tempo a estrutura de armazenamento de água e de socorro quando esta faltava (carros pipas) era muito mais precária que a atual.

A atenuante é que naquele tempo existiam menos pessoas, menos animais de criação e menos cultivos agrícolas dependendo de água. E o governo ainda não havia inventado coisas como a merenda escolar (meio inútil onde há greve de professores), a bolsa família e a bolsa seca, um penduricalho que pintou agora (sem esse nome, claro) na bolsa família.

Em compensação, como favorecimento àquela seca de 1965, a destruição da vegetação nativa não estava avançada como está hoje, quando já destruiu a maior parte das fontes de água (minações) e a população, bem menor, ainda não contaminara muitos dos mananciais hoje inutilizáveis. Assim, a água existente abastecia, ainda que em nível crítico, uma população muito menor. Hoje, com o crescimento da população, dos rebanhos e da agricultura irrigada, os espasmódicos esforços oficiais para obter e armazenar água não evitam que a situação seja tão precária quanto a da seca de 47 anos atrás.

Quase meio século e o Estado brasileiro foi incapaz de minorar o problema, muito menos resolver. Em abril, 220 municípios já haviam decretado situação de emergência e o Estado havia homologado esta situação em 209 deles.
O grande problema da seca no semiárido brasileiro é a teimosia negligente e inaceitável do Estado de ver o fenômeno como algo casual, eventual, não como um fenômeno recorrente, que vai continuar acontecendo a intervalos nada generosos. Entre a seca de 1965 e a de agora, muitas outras, menos intensas, mas desastrosas, aconteceram. E a seca de 1965, a que se refere o secretário Rui Costa, tem precedente à altura em 1933.

Duas observações para fazer justiça. Primeira, e mais importante sob o aspecto da água, o trabalho intenso realizado pelo governador João Durval na preparação do semi-árido baiano para as estiagens e secas. Segunda, e mais importante sob o aspecto econômico, a iniciativa do governador César Borges, que criou o Programa de Desenvolvimento Sustentável do Semi-Árido – mais conhecido como Sertão Forte – e entregou sua coordenação à competência e disposição do então vice-governador, Otto Alencar. O atual governo, de Jaques Wagner, está aí com o Programa Água para Todos, mas por enquanto essa água está faltando para muitos.

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