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DEU EM A TARDE E O GLOBO ESTE DOMINGO (6)

SONHOS

Caetano Veloso

Não me senti bem ao ver a foto de um policial armado no corredor de uma escola do Rio, na frente de um grupo de adolescentes. Parece-me que trazer o conflito entre a violência (legítima) do Estado e a violência marginal para dentro do ambiente da educação não pode prometer boa coisa. É um evidente exemplo de falta de sensibilidade para o sentido da educação.

Os policiais vão proteger quem exatamente, aliás? E como se indicarão os suspeitos? Os esboços de respostas a perguntas como essas que li no jornal me pareceram desalentadores. Pesadelo.

A impressão mais forte que fica, no entanto, é a de descuido com as imagens sociais a que crianças devem ficar expostas dentro dos edifícios aonde são levadas para aprender a ler, escrever, calcular, tomar consciência da formação da sociedade em que vivem, do mundo em que nasceram, das leis que regem a matéria, e, sobretudo, a conviver.

Li os artigos de Zé Miguel Wisnik e Francisco Bosco sobre o ensaio de Roberto Schwarz a respeito de “Verdade tropical”. Li também o de Nelson Ascher na “Veja”. Naturalmente tenho interesse na discussão. E, também naturalmente, me sinto mais próximo de Wisnik e Bosco do que de Ascher, embora tenha grande respeito pela produção poética e crítica deste último. É que sou mesmo mais chegado aos meus dois colegas de espaço aqui no GLOBO do que ao bissexto articulista da revista da Abril.

Contrariando o que Schwarz levou um jovem esquerdista a dizer de mim (que eu me situo, no espectro político, na centro-direita), a primeira reação que tive ao ler o texto de Ascher foi – confirmando o que Schwarz sugere sobre minha personalidade, isto é, que sou afeito a suspeitos arranjos harmonizadores entre forças antagônicas – pensar: se eu fosse escrever um artigo para a “Veja”, procuraria me colocar um pouco mais à esquerda. Mas o fato é que a conclusão final do poeta – de que o ensaio de Schwarz, apesar dos elogios (que eu, de minha parte, e em discordância do que ele diz, não considero superficiais), resulta numa reprovação política que se transformaria em condenação policial caso não vivêssemos numa democracia liberal e sim num país comunista de partido único.

Me reconheço nos textos de Bosco e Wisnik. E na foto escolhida pela “Veja” (nunca apareço tão bonito naquela publicação).
Insistindo em Martinha, Lucrécia e “Verdade tropical”, acho que eu deveria parar para escrever algo meditado sobre o caso. No momento estou escrevendo apenas canções (é como se isto aqui não fosse escrever). Mas se eu achar o tempo e conseguir reter na mente o que me parece que poderia ser útil e relevante para a discussão, farei. Não sei se neste espaço, que é grande demais para o que em geral tenho para dizer, mas demasiado pequeno para o que passa pela minha cabeça quando penso nas questões levantadas por Schwarz.

Revi “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios” em Salvador – e gostei ainda mais. Parte do entusiasmo pode se dever a eu ter ido assistir ao filme no Cine Glauber Rocha, uma das coisas que mais amo nesse Brasil. A entrada, que já era assim – com os elegantes índios de Caribé nas paredes – quando eu me mudei para Salvador, em 1960, a praça Castro Alves na frente, a baía atrás da estátua do poeta. Mas acredito que a maior parte da responsabilidade pelo meu entusiasmo é do próprio filme, digam o que disserem. José Eduardo Agualusa, o escritor angolano que tanto admiro (e cujos romances “Nação crioula”, “O ano em que Zumbi tomou o Rio” e “O vendedor de passados” – pelo menos esses – deveriam ser lidos por todos os brasileiros alfabetizados), me disse, na noite da pré-estreia do filme no Rio, que o romance de Marçal Aquino em que ele se baseia (tendo o próprio Aquino participado da adaptação do livro para o cinema) é muito bom. Fui à Livraria da Travessa e comprei um exemplar para levar para a Bahia. Claro que Agualusa não poderia estar errado.

O livro é mesmo bom (a moça da livraria me disse que uma pá de gente sabe muito bem disso, já que o romance vende muito e os vendedores ouvem elogios de seus fregueses). E tem todas as vantagens que a literatura pode ter sobre o cinema. Mesmo assim, vejo algo nesse filme (e não é só a Camila Pitanga) que vai além das qualidades do livro, que o filme apenas em parte reafirma. Suponho que ter de viajar ao Pará para realizá-lo, e lá encontrar aquela gente (mulheres, homens adultos, crianças de 8 anos, velhinhos de ambos os sexos) que canta tão divinamente bem os refrãos religiosos que o pastor (no filme tão poeticamente sincrético, com estrutura básica de pastor evangélico mas com elementos de padres católicos da teologia da libertação e gurus do Santo Daime) puxa a palo seco. E – talvez mais intensamente ainda – o grupo de cantora, músicos e plateia de um show de carimbó ao ar livre (como parte de uma manifestação política): é o Brasil dos sonhos explodindo (bastam alguns segundos) em generosidade inédita no concerto das nações. Kitsch? Who cares…

Não sei como a Bahia consegue ainda parecer bonita. Mas acontece. Apesar dos prédios que parecem feitos de plástico – e que têm triângulos vasados sobre os pórticos -, o mar encontra espaços elegantes para insinuar seus azuis e verdes, num final de abril que desmente o ditado (“abril, chuvas mil”) mas se torna começo de maio com direito ao tradicional “veranico”, expressão que menciono com um aceno a Fernando Barros, que, entre alguns outros, me compreenderá.

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Comentários

vangelis on 7 Maio, 2012 at 10:28 #

A Bahia de Todos os Santos continua bela, a Soterópolis é que está sendo enfeiada, maltratada pelos homens públicos, “pela força da grana que ergue e destrói coisas belas”, uma desconstrução executada por uma gente que recebeu um legado dos seus antepassados e renega esse patrimônio para o futuro.
Hoje numa vista aérea, o conjunto de edifícios que formam essa urbe se parece mais com um paliteiro, sem nenhuma harmonia na integração da paisagem em oposto ao que foi deixado como legado arquitetônico.
Para que não haja mais destruição… Só muita Fé no Senhor do Bonfim.


Lúcio Jr on 7 Maio, 2012 at 11:42 #

O jovem esquerdista de que Caetano fala sou eu. Vejam no meu blog o post da jovem guarda à guarda de ferro.


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