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Postado em 14-04-2012
Arquivado em (Artigos, Vitor) por vitor em 14-04-2012 01:17


Demostenes na Comissao de Etica: mudança de tom

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ARTIGO DA SEMANA

VERDADE OU ENGANO (MAIS UM)?

Vitor Hugo Soares

O mais novo escândalo do Brasil começa a descambar rapidamente e a olhos vistos para as velhas zonas de sombras, confusão e cumplicidades de sempre, em situações do tipo, por estas bandas abaixo da Linha do Equador. Mal comparando, temos no país uma espécie de repetição cabocla do filme italiano “Cidadão Acima de Qualquer Suspeita”, magistral alegoria dos anos 70 sobre investigações policiais, acobertamento e impunidade, quando o crime, corruptos e corruptores se misturam nos plenários e nos gabinetes dos mais altos escalões da política e do poder.

O espanto e a indignação, quase generalizada, dos primeiros dias depois da divulgação, no Jornal Nacional, dos grampos da Polícia Federal que flagram o contraventor Carlinhos Cachoeira em tenebrosas transações com amplo espectro de políticos, negociantes e donos do poder na República – do ex-líder do DEM no Senado e arauto-mor do moralismo da direita nacional, Demóstenes Torres, ao governador da esquerda petista Agnelo Queiroz, encrencado governador do Distrito Federal – muda paulatinamente de tom e cor.

Devagar e sempre, o que deveria se constituir uma questão de interesse público (ver apurado e esclarecido com isenção e devida brevidade os feitos e malfeitos denunciados, para punição exemplar e inflexível de autores e cúmplices em um dos maiores escândalos nacionais na escandalosa história do país), vai-se transformando em desalentador cabo- de -guerra ideológico.

Pior e mais deprimente ainda: este rumoroso caso Cachoeira parece cada vez mais encaminhar-se para uma batalha encarniçada, perniciosa e de resultados ainda imprevisíveis, mas seguramente alheios ao verdadeiro interesse público e ao que de fato espera e cobra a sociedade em casos como este.

De repente, como ficou patente no show deprimente de complacência e “jeitinho brasileiro”, quando da sessão para compor o novo Conselho de Ética do Congresso, na quinta-feira(12), que marcou o reaparecimento público do moralmente devastado Demóstenes Torres. Ele jurou inocência e reivindicou o justo direito de defesa, “no mérito”.

Tudo mais ou menos como de praxe, no filme italiano citado no começo destas linhas, ou nos repetidos escândalos reais por estas bandas. Imagem e semelhança perfeitas, por exemplo, aos acusados políticos e governamentais do antigo e rumoroso escândalo do Mensalão. Este, prestes já a prescrever para efeito de punições judiciais dos culpados, ou absolvição dos inocentes, mas ainda sem data marcada para julgamento, embora o futuro presidente do STF, o jurista e poeta sergipano Carlos Ayres Brito garanta, na entrevista que deu a revista Veja, que o realizará, como questão de honra, nos exíguos sete meses que terá no comando do Supremo.

Verdade, como a sociedade deseja? Mais um sonho de poeta romântico, simplesmente, como alguns proclamam? Ou puro engano? (mais um!), como muitos temem, incluindo o jornalista que assina este artigo. Responda quem souber.

Enquanto isso, o mais constrangedor é verificar como o andamento do caso Cachoeira caminha celeremente para virar uma perversa e devastadora oportunidade de “acerto de contas” político, ideológico e intelectual entre grupos de interesses em litígio, alguns deles, os mais escusos e enviesados possíveis. E a chamada “grande imprensa” e muitos de seus profissionais no meio. “Tudo de bom” e, com certeza, dentro da expectativa de corrupto e corruptores em fuga, a caminho de novo escândalo.

No meio da fumaça que se espalha, resta a esperança da imagem nítida e marcante desta semana, embora praticamente ignorada e descartada como informação relevante pela mídia nacional. O senador gaúcho Pedro Simon (raro exemplar do antigo MDB de Ulysses Guimarães (figura lembrada também por Ayres Brito, na Veja), pregando e dando avisos essenciais, como um Dom Quixote bradando de lança em punho, para um meio cego e desinteressado plenário do Senado brasileiro .

“Disse e repito: não me lembro de uma ocasião em que o Senado Federal esteve tão desgastado, tão no chão, tão humilhado, tão espezinhado pela opinião pública como agora”, alertou. Simon lembrou a Ficha Limpa e a imprensa na época: “Ontem, ela dizia que não ia acontecer nada, que havia um complô, uma movimentação, que o Senado estava tão comprometido que não ia acontecer nada. Aconteceu”. E concluiu com a memoria do escândalo Waldomiro, há sete anos.

“Vim (à época) a esta tribuna e disse: vou sair daqui e vou falar com o governo para ele demitir ainda hoje esse Waldomiro e iniciar o processo contra Cachoeira. Lamentavelmente, Lula não fez isso. Não se movimentou com relação a Cachoeira, não demitiu Waldomiro e as coisas continuaram. Hoje, sete anos depois, o mesmo Cachoeira que iniciou esse escândalo todo, volta. E o então ministro da Justiça de Lula (jurista Márcio Tomas Bastos) é agora e advogado de defesa de Cachoeira”, lamentou o senador gaúcho.

Merece aplausos o senador Simon! O resto, a conferir.

Vitor Hugo Soares, jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

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luiz alfredo motta fontana on 14 Abril, 2012 at 10:24 #

Caro VHS

Tua mira é certeira, Guilerme Tell concordaria…

Tal qual nos morros do Rio, facções criminosas se digladiam, lutando pelo contrôle setorial.

Tal qual no Rio, o cidadão comum fica à mercê do vazamento do dia.

E só então, uma ou outra medida repressiva é tomada.

No Rio, algum traficante conhecido, é detido, nunca em lugar incerto, sempre frequentando o mesmo e “manjado” covil, porém, sem o alarde midiático, as autoridades não atuam, celebridade é celebridade, necessitam a presença de holofotes, manchetes, e ensaiadas cenas de ação.

No cenário político, a mesma vertente, após o “vazamento”, sempre surgirá um inquérito novo, ou até mesmo requentado, que simulará o combate ao “malfeito”.

Ao mesmo tempo, com a prestimosa e tradicional morosidade dos vetustos tribunais, os antigos escândalos caminham para prescrição, esta, sem dúvida, a generosa avalista da impunidade.

Enquanto nos divertimos com Demóstenes, os componentes da facção do “Mensalão” comemoram, prestes que estão a investirem na dita prescrição.

Aqui, merece um adendo, o tal Ministro Joaquim Barbosa, aquele que dividiu seu tempo de relator, entre licenças e adiamentos, sai de cena, temporariamente, cedendo lugar ao revisor Lewandowski, que face ao número espetacular de laudas, dormita em prazos.

Dizem que a fé remove montanhas, pode até ser, mas certamente sucumbe face ao descaso traduzido pela morosidade togada.

Mas…

Como as facções digladiam, sempre teremos o “vazamento” do dia.

Tim Tim!


regina on 14 Abril, 2012 at 13:12 #

Caro Fontana
Aproveitando a brecha, já que vc trouxe à pauta o nome do Rio de Janeiro, a capital da república de 1889 a 1960, onde também surgiu e floresce o jogo do bicho, para salvar um zoológico e tornando-se “coisa nossa”, um jogo popular em toda a nação, apesar de ainda ilegal, ou talvez, por isso mesmo. Em “Ordem e Progresso” (1959), Gilberto Freyre descreveu o jogo do bicho como uma das poucas atividades sem discriminação de classes no início da república. O historiador José Murilo de Carvalho demonstrou em “Os bestializados: Rio de Janeiro e a república que não foi” que a sociedade carioca difundia a crença na sorte como uma forma de ganhar a vida sem trabalhar. Apesar de sua imensa popularidade e de ser tolerado por muitas autoridades corruptas, a experiência policial demonstra que se trata de uma atividade organizada que está na origem de uma série de crimes ainda mais graves e lucrativos, como formação de quadrilha, corrupção, diferentes tipos de fraude, tráfico de influência, além de lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Por traz dos políticos, a droga, a mentira, a farça, os negócios sujos, e a bicharada……


regina on 15 Abril, 2012 at 0:00 #

correção:
farsa em vez de farça,
e o jogo da bicharada em vez de e a bicharada.


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