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Opinião ao Politica

Três coisas mais uma

Ivan de Carvalho

O caso Carlinhos Cachoeira, aberto com a Operação Monte Carlo da Polícia Federal, está ganhando a cada dia novas facetas, adquirindo rapidamente uma multiplicidade enorme de aspectos, de modo que vai tornando-se um labirinto do qual é possível que as instituições competentes não encontrem a saída que lhes cumpre achar para fixar criminal, civil e politicamente as responsabilidades de cada um dos envolvidos.
Importam, acima de tudo, três coisas.

Primeira, que o caso seja levado a sério, sob estreita vigilância da sociedade, de modo a não serem permitidos desvios na investigação policial e nos processos que acabem inutilizando todo o esforço para que se obtenha neste caso exemplar – assim como no caso ainda mais exemplar do Mensalão, o maior escândalo de corrupção da história brasileira – o resultado que é devido à sociedade e que satisfaça a Justiça.

Segunda, importa à nação (e esta é uma tarefa dela, de toda a nação) não permitir que o caso Cachoeira esconda e deixe sair pelo ralo o escândalo do Mensalão, cujo julgamento pelo STF está exclusivamente na dependência da disposição para o trabalho e da boa vontade do ministro revisor Ricardo Lewandowski, que vem tendo tempo de sobra para fazer o que até já podia ter feito, a revisão do processo.

Terceira coisa que importa acima de tudo: que se chegue ao resultado respeitável por intermédio dos meios válidos, sem agressão às leis e à Constituição, inclusive quanto à produção de provas que sustentem a correta administração da justiça. É que, se para conseguir as provas, repelem-se as leis e a Constituição – como há séria e aparentemente fundada suspeita de que já aconteceu em parte das escutas telefônicas autorizadas por autoridade que não tinha competência para isso ou, quem sabe, até sem autorização específica, como exige a Lei Maior –, convida-se a insegurança jurídica e o arbítrio, ante-sala da ditadura.

Isto posto, abordo uma questão que não está no núcleo dessa temática, mas a integra em lugar de muito relevo. Há uma polêmica sobre o fato de que o empresário do jogo Carlinhos Cachoeira e o senador Demóstenes Torres abasteciam alguns setores da imprensa (o mais importante e declarado, a revista Veja) com informações. Em princípio, não haveria problema aí, como, aliás, assinalou a Veja em nota editorial. Mas, se veículos de divulgação ou jornalistas levaram com isto vantagens que não as de produzir notícias sérias, há problemas, sim. Que sejam, veículos ou jornalistas, investigados dentro da lei e punidos se judicialmente comprovada a prática de crime. Se houver responsabilidade civil, que seja determinada e cobrada.

Isto e só isto. Não mais. Não o oportunismo revelado ontem pela Comissão Executiva Nacional do PT ao aprovar documento em que pega carona no caso Cachoeira para cobrar a fixação de um “marco regulatório” para os meios de comunicação, vale dizer, a censura, que o PT até recentemente chamava de “controle social da mídia” e agora chama de “democratização da mídia” – esta, a última e mais soft denominação que o PT atribuiu à sua meta de acabar com a liberdade de expressão, enquanto fala em preservá-la com “ampliação do direito social à informação”. Trata-se, evidentemente, de uma linguagem deliberadamente cifrada, para que os muito tolos não a decodifiquem.
Pois as intenções que o PT, institucionalmente, tem revelado ou deixado transparecer em relação aos meios de comunicação social só são mesmo aceitáveis pelos muito tolos.

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Comentários

rosane santana on 13 Abril, 2012 at 8:44 #

Ou os muitos tolos, permita-me acrescentar, caro Ivan, ou o “jornalismo de esquerda” regiamente pago e a desfrutar de benesses de instituições como a CEF, para defender os interesses do partido.


danilo on 13 Abril, 2012 at 9:16 #

o PT é a ARENA destes novos tempos.

não tem muita diferença entre as carrancas de Garrastazu Médico, Octavio Medeiros, Silvio Frota e as de Zé Mensalão Dirceu, Rui Falcão, Ricardo Berzoini.

ok, tem os execessos cometidos pelo primeiro gripo citado acima. mas se possível fosse, o segundo grupo também faria as mesmas coisas.


rosane santana on 13 Abril, 2012 at 9:44 #

Danilo, está a caminho de fazê-lo na tão sonhada ditadura do partido único. Pra frente Brasil!


danilo on 13 Abril, 2012 at 10:08 #

mas meu caro Ivan, as intenções excusas do PT não iludem apenas os “muito tolos”.

alimentam o rancor dos também “muito espertos”. espertos sem o significado lúdico da esperteza, do jocoso. mas a esperteza do arbítrio e da truculência, mesmo.

truculência esta, aqui muito bem exposta através das opiniões de figuras como Jader e o desaparecido Marcus Lino.


Graça Azevedo on 13 Abril, 2012 at 10:31 #

Eu queria era que o cidadão comum pudesse se defender quando atacado por um órgão de imprensa. Lembro dos donos de um colégio em SP que foram crucificados como pedófilos. Destruiram a vida desta família. Depois ficou provado que era mentira. Aí, não tinha mais remédio. Como ficam as pessoas sem poder e sem dinheiro quando são caluniadas? Só para refletir, SEM pedir censura, mas pedindo espaço para quem não é “do meio”


rosane santana on 13 Abril, 2012 at 11:03 #

Cara Graça, permita-me uma opinião: duas coisas fundamentais defendem o CIDADÃO dos excessos da imprensa: EDUCAÇÃO, que forma pensamento crítico e dá discernimento, e um JUDICIÁRIO funcionando a pleno vapor. Mas, um Judiciário funcionando, depende de cidadãos bem informados, bem educados, com massa crítica para fazer valer os seus direitos civis e políticos. Aí, ao invés de maciço investimento em educação superior, como faz este governo, é preciso investir na escola pública fundamental de qualidade, inclusive nela acompanhar os gênios, como ocorre, por exemplo, nos EUA, onde os alunos superdotados são identificados e acompanhados cuidadosamente pelo governo, seja de que nacionalidade for. Digo isso, porque tive a oportunidade de, quando lá estive, ver uma adolescente brasileira gênio de matemática, química, física e biologia ser agraciada com um Green Card por determinação do Senado americano. A carta de recomendação do colégio dela para os senadores, que eu li, dizia mais ou menos o seguinte: “Débora representa tudo aquilo que aspiramos para os nossos jovens: inteligência, dinamismo e liderança”. Pois bem, essa moça, filha de uma amiga minha lá radicada, está concluindo o curso de engenharia civil na WPI (Worcester Polytechnic Institute ), uma das melhores escolas de engenharia dos EUA e já está empregada na área. Nossos gênios se perdem no crack e, na melhor das hipóteses, viram jogadores de futebol. Mas, voltando ao assunto objeto do artigo de Ivan, o que não se pode fazer é coibir o exagero da imprensa com um controle feito por meia dúzia de “Iluminados”. Isso é ditadura e é o que o PT deseja e, não tenho dúvida, caminha para obtê-lo, porque a sociedade brasileira é totalmente desmobilizada.


Graça Azevedo on 13 Abril, 2012 at 13:04 #

Eu até concordo com a explicação no que concerne à educação. Mas, como quero ser objetiva, volto a perguntar: o que fazer quando se tem a honra maculada por uma mentira? Onde fica a ética, ou não é necessária, no exercício da profissão? Eu sou a favor que se tenha toda a liberdade do mundo para dizer o que quiser, abomino a censura de qualquer tipo, mas tem que ter responsabilidade com as consequências. Denegrir pessoas sem provas, acabar com a vida de outras não pode ficar por isso mesmo. E isso me mobiliza.


rosane santana on 13 Abril, 2012 at 13:29 #

Com o Judiciário funcionando, em caso de dolo, a resposta vem rapidamente, além do direito de resposta, no mesmo espaço e proporção. Isso inibe, naturalmente, a tentativa de manipulação.


luiz alfredo motta fontana on 13 Abril, 2012 at 13:30 #

Caro Ivan

Teu artigo traz à tona temas caros.

Democracia, por certo, pressupõe imprensa livre, essa quimera que sonhamos, buscamos, mas, a temos como utopia, pelo menos por hora, nesta pátria mãe gentil.

Mal saímos da noite escura da ditadura, e já caminhamos para outra, mais cruel, mais dissimulada, travestida de partido único, ou, como queiram, de base aliada ampla e faminta de benesses.

FHC, Lula, agora Dona Dilma, professaram e professam a alienação em nome de um dinheiro forte, a tal estabilidade monetária, o obscurantismo em nome do que chamam de governabilidade, essa jabuticaba tão cara ao Sarney e quejandos.

Quanto à imprensa, cada dia mais dependente de financiamentos, de subsídios, de isenções de impostos, e sobretudo do bálsamo da publicidade oficial.

Dirão alguns, que ela, a imprensa, tem sido rígida com o legislativo, transformando o desfile de nulidades no congresso em tragicomédia cotidiana. Dirão, também, que na medida do possível, e como é escasso este possível, aponta-se a ira das manchetes, aqui e acolá, aos ditos “malfeitos” do excutivo.

Quanto ao judiciário, é fácil perceber, inexiste a imprensa opinativa, o que se tem são loas e silêncios, numa monótona repetição de mesuras oriundas de um tal temor reverencial. Afinal, qual empresa é livre de figurar como parte interessada em algum conflito tutelado por este judiciário? O que dizer então dos jornalistas, na condição de indivíduos comuns face a este poder?

Assim, ficamos nós, os leitores, buscando em entrelinhas, alguma luz, agum sinal, alguma chave misteriosa que abra as caixas pretas que tomaram conta das instituições.

Caro Ivan!

Que a imprensa não seja utopicamente livre, aceita-se, é deplorável, mas compreensível, entretanto que ela seja ao menos plural, isto é fundamental, neste estágio tão empobrecido de informação e credibilidade que nos abate desde os idos de 64.

Abraços!


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