Dia de queixas em debate na ABI

Claudio Leal

No debate “A liberdade nos 200 anos da imprensa brasileira”, realizado na Associação Bahiana de Imprensa (ABI), na Praça da Sé, nesta sexta-feira (13), o jornalista e conselheiro do Tribunal de Contas dos Municípios, Paolo Marconi, fez uma palestra polêmica e repleta de análises ferinas sobre os jornais baianos, constrangendo alguns dos veteranos presentes à celebração do Dia do Jornalista.

De saída, Paolo criticou a subserviência dos periódicos ao governo do Estado e à prefeitura de Salvador, “como se estivesse tudo normal”. “Sou daquela época em que o jornalismo tinha uma função social”,afirmou, lembrando o exemplo dos irmãos Millôr e Hélio Fernandes, dois dos jornalistas mais atuantes na abertura política do País, no final dos anos 70. Segundo o palestrante, falava-se que antes havia um “tiranete” (Antonio Carlos Magalhães) no poder, mas agora o clima é de alinhamento total ao governador e ao prefeito. “Fico irritado por nada poder fazer com o que está acontecendo com a cidade no PDDU (Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano”. “Benefício da dúvida: é por incompetência”, ironizou.

Com ceticismo quanto ao impacto da internet nesse cenário, o jornalista questionou a postura da maioria dos blogs baianos, que aceitam banners do governo do Estado e dos municípios e, gradualmente, se omitem da cobertura crítica dos governantes. “Para quem põe o banner, é: eu comprei o silêncio, não comprei a proteção”. Paolo Marconi, autor de pioneiro estudo sobre a censura à imprensa na ditadura militar, referiu-se à “censura do dia-a-dia”, contraposta ou associada à “censura do cacete”, existente em regimes autoritários. A partir da ausência de notas a respeito dos julgamentos do Tribunal de Contas, ele concluiu que os blogs com anúncios das prefeituras não noticiam a reprovação das contas.

“Nos blogs que têm propaganda desses municípios, a notícia não sai. Se a prefeitura não anuncia, a notícia sai”, atacou. “Pra ficar bem com fulano, eu silencio. É isso.” Insistindo no relato das “mazelas”, Paolo brincou com a história de um amigo que decidiu “fazer um blog independente” com publicidade da Secom (Secretaria de Comunicação). Na Bahia, acrescentou, “só se publica a verdade oficial”. Para acompanhar o que ocorre em Salvador, os leitores precisariam estar atentos aos meios de comunicação do Rio de Janeiro e de São Paulo.

O clima de censura empresarial entrou na pauta. Segundo Paolo, que já assessorou o ex-governador ACM na área de comunicação, há “uma submissão total dos jornais aos anunciantes. Uma promiscuidade, uma imposição do departamento comercial”. Ele diagnostica o poder da “indústria do espetáculo” – leia-se Axé e congêneres: “Alguns jornalistas são sócios dessa indústria do entretenimento!”. “Mesmo com os blogs, os anunciantes exercem controle total”.

Depois de perguntas e desabafos de jornalistas da plateia do Edifício Ranulpho Oliveira, Paolo Marconi desejou melhoras à gestão do jornal A Tarde, em constante crise financeira e administrativa, com perda de influência no Estado. “Agora publicam caderno de tudo que é picaretagem, coisa que eu não pensava que existisse mais”. O ex-repórter da revista Veja ressaltou que suas restrições não se dirigem, especificamente, aos operários das redações. “Não é falta de jornalista, é desinteresse empresarial”.

Na primeira fila, o ex-presidente da ABI Samuel Celestino, blogueiro e colunista do jornal A Tarde, levantou-se para fazer uma intervenção. Veladamente, rebateu os pontos criticados por Paolo Marconi, principalmente aqueles relacionados aos blogs. Celestino afirmou que não tem “patrocinadores” e, portanto, faz um jornalismo “limpo”. Marconi entrou com um breve aparte: “Mesmo porque, Samuel, jornalista que se vende dá um tiro no próprio pé”. Celestino concordou.

O debate logo virou uma sessão de queixas e desabafos sobre o jornal A Tarde. A presidente do Sindicato dos Jornalistas (Sinjorba), Marjorie Moura, confirmou uma história contada pelo jornalista Nestor Mendes Júnior – sentado ao lado do amigo e ex-redator-chefe do jornal da família Simões, o poeta Florisvaldo Mattos -, de que haveria uma lista com temas proibidos no jornal. Entre os assuntos proibidos, estaria a construção civil; e, brincou Nestor, a direção do Esporte Clube Bahia. Marjorie garante que o sindicato e os repórteres têm se posicionado contra as censuras internas. E não se esqueceu de revelar um dos absurdos profissionais: um repórter chegou a ouvir de uma fonte: “Não foi isso que eu acertei com o editor-chefe”.

O professor Sérgio Mattos, o segundo palestrante, pouco abordou os temas polêmicos levantados pela plateia e preferiu se concentrar na história da censura no Brasil e no mundo. Indignada, a historiadora Consuelo Pondé de Sena, ex-colunista de A Tarde, denunciou a omissão do jornal diante da destruição da cidade histórica e do arruinamento do velho Arcesbipado, na Praça da Sé. Consuelo propõe que o espaço se torne um centro cultural.

A cerimônia da ABI conferiu a medalha Ranulpho Oliveira aos jornalistas João Falcão (post-mortem), Luis Henrique Dias Tavares, Florisvaldo Mattos, João Carlos Teixeira Gomes, o Joca, e à editora Flávia Garcia Rosa, pelas contribuições à história da imprensa baiana. Num discurso em defesa do jornalismo impresso, Joca avaliou que os jornais estão em crise não apenas por fatores externos, mas porque não se renovaram e deixaram de atingir o espírito do leitorado.

Claudio Leal é jornalista, colaborador do Bahia em Pauta

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Comentários

vangelis on 13 Abril, 2012 at 23:57 #

PÔ CLAUDIO!!! Quem deu esse emprego vitalício de conselheiro ao jornalista crítico? E outros que sempre estão na sinecura, na boquita do erário público? Isso me lembra a piada do maluco que tinha o apelido de garapa, quando a gurizada falava: Água, açucar…e o maluco gritava: “Mustura fela da pu…”

Boato
http://www.youtube.com/watch?v=fVVwiyRqatQ


rosane santana on 14 Abril, 2012 at 12:15 #

Taí, Cláudio, pelo menos o ambiente não foi de confraternização e comes e bebes…Até quando ficará por aí?


Tony Pacheco on 17 Abril, 2012 at 9:01 #

Por favor, esqueçam o denunciante e se atenham APENAS E TÃO SOMENTE às palavras dele, que merecem reflexão, sim.


vitor on 17 Abril, 2012 at 10:17 #

Na mosca, Tony! Exatamente isso, quanto ao denuciante e suas palavras.

No mas, vale destacar o texto de Claudio Leal sobre o evento na ABI: agil, inteligente, critico, perspicaz e bem humorado – tudo com extremo bom gosto e respeito aos fatos. Coisas cada vez mais raras no jornalismo que se pratica na terrinha.

Por fim, quero destacar a presença de um dos mais brilhantes inimigos do rei – ao lado de Alex Ferraz, que citamos sempre por aqui – pelas bandas do BP. Chega mais!

Margarida, revisora deste site blog, tb manda um forte abraço para vc.

Vitor Hugo


[…] na ABI, uma palestra do jornalista Paolo Marconi e um artigo muito bom de Claudio Leal no Bahia em Pauta. A repercussão nas redes sociais foi pequena, mas, pra quem sabe ler as entrelinhas, há razões […]


Ricardo Luedy de Lima Araujo Luedy on 19 Abril, 2012 at 11:08 #

“O sujo falando do mal lavado”
Isso dito,fica o espanto pela auto indulgencia.


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