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CLAUDIO LEAL

Direto de Salvador

Em fim de mandato, o prefeito de Salvador, João Henrique Carneiro (PP), assumiu uma persona de homem renovado e passou a ostentar a conquista de um amor “no tempo de madureza”. Mas o cotidiano da capital baiana contraria esse discurso cordato e reafirma que a mistura obscura de política e religião permanece como uma das marcas mais danosas de sua passagem pelo Palácio Thomé de Souza.

Seu governo já é considerado o mais impopular das principais capitais brasileiras, com taxa de reprovação de 50%, segundo a pesquisa Datafolha divulgada em março. E é injusto que não figure entre as gestões que descumprem a laicidade da Constituição Federal, cujo artigo 19 estabelece que “é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios”, entre outros pontos, “estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público”.

Num rápido passeio de ônibus, em Salvador, esse preceito se esfarela. Nesta segunda-feira, 9 de abril, no trajeto Avenida Juracy Magalhães-Barra, a televisão do coletivo exibia sucessivos espetáculos de artistas evangélicos, impondo seus cânticos e dogmas aos usuários (indicava-se a BusTV como produtora). Não se tratava de um canto bossanovístico. A “adoração ao Senhor” ultrapassava o limite do berro e seria reprovada em qualquer coral gospel dos Estados Unidos (as igrejas americanas têm a tradição de revelar grandes talentos do jazz).

O desrespeito começa no plano municipal. A Câmara de Vereadores de Salvador aprovou uma lei que proíbe o uso de aparelhos de som com autofalantes e similares no transporte público. Isso vale para os cantores peruanos e também para os pastores evangélicos. Estranhamente, a TV exibia ainda a programação da Record, uma emissora de notória vinculação religiosa. Era visível o logotipo da concorrente da Rede Globo.

No site da BusTV, cujo endereço é divulgado na telinha, a Record não está incluída entre suas parcerias. Convém ler um trecho: “Além da produção própria de programas, a Produtora BusTV desenvolve parcerias com empresas jornalísticas, universidades e órgão públicos para produção e compartilhamento de conteúdo. Entre os parceiros de conteúdo atuais da BusTV estão:”… Segue-se a lista: UOL, Lance!, Fox Films, Woohoo, Catraca Livre e Fiscais da Natureza.

Onde está a Record?

A Prefeitura de Salvador e o Setps precisam oferecer respostas para esse ataque à Constituição. Além de enfrentar um ônibus apinhado, os usuários não precisam ouvir os pregadores da orientação religiosa de João Henrique. O caso exige a atenção do arcebispo Dom Murilo Krieger e de Mãe Stella de Oxóssi, reconhecidos líderes de religiões excluídas desse show de calouros.

Claudio Leal é jornalista.

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Comentários

Mariana Soares on 9 Abril, 2012 at 17:44 #

Ê Claudinho, você é fera, até mesmo quando fala de assuntos tão desagradáveis e espinhosos!
Salvador merecia coisa melhor!
É preciso que os soterapolitanos votem melhor na proxima eleição, não há mais espaço e tempo para novos erros.
Acorda Salvador!


Claudio on 10 Abril, 2012 at 12:46 #

Mariana, obrigado pelos comentários. Por este e aquele do post sobre Gal. É como dizem os gregos e baianos: “Você é massa!”.
Beijão da evangelholândia.


Carlos on 12 Abril, 2012 at 0:53 #

o velho preconceito da provincia, a as grandes coladoração para empurrar o catolicismo e o candobléguela a baixo do povo dada pelo gorverno? ah isso é cultura!
reporte preconceituosa e não merece minha credibilidade!


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