João Carlos Teixeira Gomes:o pena de aço da Bahia
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Opinião

O futuro de Salvador

JC Teixeira Gomes*

Dediquei meus últimos artigos a uma análise da situação de Salvador e pretendia hoje trocar o disco, mas duas entrevistas recentes me fizeram mudar de ideia: a primeira do ex-governador e ex-ministro Waldir Pires e a segunda do prefeito João Henrique.

Com sua larga carreira política, Waldir Pires anunciou algo que não deixa de ser surpreendente: vai candidatar-se a uma vaga na Câmara de Vereadores de Salvador. Na opinião dos rígidos defensores de uma estrita hierarquia na vida pública, uma diminuição de status político, para quem já foi governador e ministro. Para este articulista, e certamente para a grande legião de admiradores e correligionários de Waldir Pires, mais uma experiência positiva em uma rica trajetória, que vai contribuir para dignificar o exercício da vereança em nossa capital.

Waldir Pires é basicamente um parlamentar, um tipo de político raro no Brasil, um articulador, um agenciador da discussão política e da circulação das ideias. Sem dúvida, o seu papel como homem público destoa, em nosso País, da velha tradição da política paroquial e eleitoreira, que tantos males tem causado à sociedade brasileira. Um dos momentos relevantes da sua entrevista à jornalista Patrícia França, de A Tarde, em 23 de março último, está no seguinte trecho, quando perguntado sobre o que achava da atual administração de Salvador. Disse: “Acho que a cidade vive um instante dificílimo. Está uma desarrumação em todos os setores básicos da vida das pessoas”.

Foi certamente a resposta de um gentleman da política, pois, em vez de “desarrumação”, poderia ter usado simplesmente “desagregação”, “devastação”, palavras que bem mais se aplicam ao estado atual da nossa capital. Quando o ex–governador fala das privações de “todos os setores básicos da vida das pessoas”, obviamente o que temos é uma clara referência à substancial perda da qualidade de vida dos baianos ocorrida nos últimos anos, em consequência da “desarrumação” que ele aponta.

“A complexidade da tarefa de administrar uma cidade com as características da capital baiana. Uma joia que merece sempre o mais capacitado do ourives”.

O trecho acima da entrevista de Waldir Pires logo nos remete a este outro, da entrevista do prefeito João Henrique e publicada também em A Tarde, cinco dias após a anterior. Disse o prefeito, ao ser indagado sobre como avaliava sua experiência, após sete anos de gestão: “Quando cheguei na (sic) prefeitura eu não tinha a noção da complexidade da cidade, da complexidade da administração pública, desta parceria com os órgãos do controle externo”.

A sinceridade dessas palavras não suaviza a gravidade do seu conteúdo. Pois posso afirmar convictamente que o “estado de desarrumação” de Salvador, para usarmos o eufemismo de Waldir Pires, decorre, precisamente, da falta de noção do prefeito sobre a complexidade da tarefa de administrar uma cidade com as características topográficas, históricas e urbanas da capital baiana. Uma joia que merece sempre o mais capacitado dos ourives. A propósito não posso deixar de mencionar a extraordinária charge de Simanca, em A Tarde de 31 de março último. Recordem-se: um turista português conversa com um capoeirista baiano numa área da cidade repleta de prédios caindo aos pedaços e sustentados por armações metálicas. O turista português, perplexo, diz: “Este centro histórico parece muito com Lisboa, pá”. E responde o baiano: “Só se for depois do terremoto de 1755”. Se me fosse possível, eu colocaria a charge de Simanca numa moldura e a introduzia na sala de todos os prefeitos de Salvador, o atual e os futuros.

Em suma, talvez se compreenda melhor a minha insistência, nos últimos artigos, para que os eleitores possam avaliar melhor a capacitação cultural dos seus homens públicos, pois a Bahia, pelo conjunto das suas particularidades únicas no País, precisa ser administrada com vocação política e informação cultural. Os candidatos ao cargo já enxameiam no noticiário dos jornais baianos. Que a sociedade saiba usar a arma do voto para pinçar o mais capacitado, a fim de que nenhum prefeito, no futuro, possa repetir que desconhecia a complexidade de Salvador para melhor administrá-la, nem que negligenciou as parcerias indispensáveis para fazê-lo.


*João Carlos Teixeira Gomes é jornalista, membro da Academia de Letras da Bahia. Foi editor do Jornal da Bahia. Texto publicado originalmente no jornal A Tarde.

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Comentários

rosane santana on 9 Abril, 2012 at 8:49 #

Querido Joca, destes uma aula de interpretação dos fatos, aula de política, aula de uma inteligência arguta, perspicaz e soberana, aula de um mestre, enfim. Escreva mais sobre tua cidade.beijos


Olivia on 9 Abril, 2012 at 10:48 #

Nosso ‘pena de aço’ botando pra quebrar, como sempre. Grande Joca, a cada dia, melhor.


Eduardo Queiroz Setúbal on 10 setembro, 2012 at 12:28 #

O entusiasmo, a coragem do abnegado professor João Carlos Teixeira Gomes (JOCA) na Escola de Biblioteconomia da UFBA, sempre, foi cativante… A sua disposição em defender o seu Jornal – Jornal da Bahia – fazia renascer vultos históricos baianos de consagrada estirpe a exemplo do poeta da liberdade Castro Alves e do Boca de Brasa ou Boca do Inferno, magistral Gregório de Matos. A luta foi árdua, eu sei, mas, imperou, prevaleceu a lei do mais forte… Aquele semanário sucumbiu às perseguições e imposições politicas, mas, a Bahia ganhou e, definitivamente, conheceu um outro grande poeta de notável conhecimento, destemor e inteligencia rara. Com Joca, um amigo professor, ministrando “Literatura Brasileira”, aprendi a respeitar e gostar do legado deixado pelo poeta da liberdade e pelo Boca de Brasa ou Boca do Inferno, mas, também, fiz-me cativo do douto magistério do dedicado mestre e maior poeta do Brasil contemporaneo JOÃO CARLOS TEIXEIRA GOMES.
Pois, é professor, por opção e por apego à boa leitura, tantos anos passados, na Escola de Biblioteconomia da UFBA, ainda, “me encontro” naquela mesma sala de aula, aprendiz confesso do criador da obra, e fã incondicional do domador de gafanhotos.

SONETO DA PERDIÇÃO

Deu-me um deus de legado o tempo escasso

e o anseio de retê-lo em urdiduras.

Murcham flores nos campos por que passo

exilado em angústias já maduras.

0 que sou não sei bem, nem o que faço.

Débil luz entrevejo nas clausuras

das fatais emoções em que desfaço

a antiga vocação das coisas puras.

Viajante que perdeu os seus roteiros

por querê-los é que ando em desatino

sob o cerco de demônios traiçoeiros.

Nau fendida que busca o porto vasto,

quanto mais de meus rumos me aproximo

mais sinto que de mim próprio me afasto.


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