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Torres: De estrela do Congresso a zumbi

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ARTIGO DA SEMANA

SENADOR DEMÓSTENES: “FORA DE CONTROLE”

Vitor Hugo Soares

Na despedida – quando da sua segunda passagem profissional pela Bahia, desta vez na condição de editor-chefe do jornal A Tarde – recebi do jornalista Ricardo Noblat o livro “Fora de Controle”, de Eric Durschmied. A robusta edição ilustrada mostra, com fartura de personagens e casos exemplares, “como o acaso e a estupidez mudaram a história do mundo”, virando de cabeça para baixo o rumo da vida e biografia de inúmeros líderes e figuras tidas como exemplares.

Um presente simples, mas precioso, afetiva e profissionalmente. Guardo-o sempre ao alcance dos olhos e das mãos. Retomo sua leitura toda vez que me vejo diante de fatos e situações difíceis de entender ou explicar. Em geral, envolvendo a política e os políticos brasileiros. A exemplo deste caso do senador e ex-lider do DEM, Demóstenes Torres, em suas transações submersas, trocas de favores, informações e presentes com o contraventor, de quilométrica ficha suja, Carlinhos Cachoeira, que aparentemente mal começam a ser desenterradas para a opinião pública.

Um exemplo factual definitivo para contextualizar a notícia ou a opinião, como recomendava Juarez Bahia, repórter premiado com seis “Esso”, mestre saudoso da teoria, da prática e da ética no jornalismo, que comandava a Editoria Nacional do Jornal do Brasil (edição impressa) no tempo em que o autor destas linhas e Noblat andavam por lá.
Este episódio dos “grampos” – produzidos com autorização da Justiça, em investigação da máfia dos jogos de azar em Goiás, pela Polícia Federal – de lances cada vez mais cavernosos, exibidos no Jornal Nacional, é emblemático e assustador, se alguma coisa ainda pode assustar por estas bandas debaixo do Equador.

Principalmente, na medida em que flagram um dos mais implacáveis moralistas do Senado da República e da política brasileira, desde os áureos tempos da UDN, em pleno exercício dos torpes ensinamentos do ditado popular, provavelmente inventado por um daqueles farsantes trazidos nas galeras de Pedro Álvares Cabral: “façam o que eu digo, não façam o que eu faço”

O jornalista e historiador Eric Durschmied, um vienense que emigrou para o Canadá depois da II Guerra Mundial, mostra em “Fora de Controle” como pequenos detalhes, absurdos até, “capitaneados pelo principal ingrediente, a estupidez, (e doses cavalares de arrogância e auto-suficiência) levariam a resultados cômicos…se não fossem trágicos”.

Neste caso do senador Demóstenes, o cômico e o incrível está em verificar agora, em perspectiva de passado recente, a sua “fulgurante” figura de peça de campanha de marketing, sabe-se lá com quais propósitos, embora, a partir do revelado nestes últimos dias, já seja possível imaginar. Os movimentos sempre rígidos e ameaçadores, o dedo em riste do jornalista, ex-secretário de segurança pública, promotor, líder político e, ultimamente, guru e um dos principais “pensadores” da direita no Brasil. E, principalmente, as palavras de Demóstenes Torres.

Vale reler agora, como informação e refresco da memória, a bombástica entrevista do senador por Goiás publicada nas seletas Páginas Amarelas da revista VEJA. “Por uma direita democrática, por mais rigor penal, contra as cotas raciais e ‘NÃO’ à descriminação das drogas”, como resumiu então o jornalista Reinaldo Azevedo, no comentário com o título “A coragem de Demóstenes”.

Um trecho sobre Congresso e Democracia, da entrevista que merece ser relida agora, mesmo como exercício de humor:

“É porque realmente os congressistas não querem apurar a conduta de nenhum colega e não querem fiscalizar o governo. Vivemos um momento crítico, de total submissão. De um lado, temos o Executivo mandando por meio de medidas provisórias e, de outro, o Congresso sem cumprir sua obrigação, a ponto de a quase totalidade das leis aprovadas ter origem no Palácio do Planalto. No fim das contas, o Congresso se comporta bovinamente”.

E chegamos, neste ponto, ao trágico desta história e seu personagem, dignos de figurar no “Fora de Controle”: a imagem de zumbi do senador zanzando no plenário sem ter um abraço ou em quem se agarrar, a foto do ex-todo poderoso do DEM acuado em seu gabinete, a apavorante possibilidade de ser expulso de seu partido na reunião do comando, marcada para terça-feira, a possibilidade cada vez maior de julgamento pelo Supremo, a suprema vergonha somada pelo senador de Goiás à já desgastada imagem da política e dos políticos do País.

E lá vem o senador Demóstenes Torres, sem controle.

Vitor Hugo Soares e jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 31 Março, 2012 at 11:03 #

Como pode sobreviver até agora?

Não fora o vazamento do conteúdo das gravações havidas em, pasmem, 2009, e Demóstenes estaria ainda posando de vestal no senado.

As tais gravações foram executadas, espera-se, com a necessária anuência de um magistrado.

Presente a “notitia criminis” com envolvimento do senador, deveriam as autoridades comunicarem de imediato o STF para as providências devidas.

Lembrando que “notitia criminis” é por definição o conhecimento, espontâneo ou provocado, pela autoridade policial de um fato aparentemente criminoso.

E Demóstenes continuou, impávido e faceiro, na tribuna do senado e nas páginas políticas.

Até que…

Ela, sempre ela, a imprensa, reproduziu o vazamento.

Agora sim, com pauta nos principais meios de comunicação, o tal poder judiciário anda, ou simula andar, afinal Demóstenes poderá ser premiado, com uma nada inédita prescrição. Os envolvidos no mensalão que o digam.

Nota irônica:

Coube ao ministro Ricardo Lewandowski a decisão sobre a abertura de inquérito contra Demóstenes, este mesmo ministro que foi ironizado pelo senador por ocasião do julgamento do pedido de registro do PSD de Gilberto Kassab. Demóstenes cunhou a seguinte frase:

“Todo mundo que assitiu pela TV Justiça teve a oportunidade de ver o Lewandowski dançando na boquinha da garrafa e o Marco Aurélio se esforçando para segurar o Tchan.”(Blog do Josias, 23 de setembro de 2011)

Referia-se ao debate que opôs Lewandowski a Marco Aurélio. O primeiro tentando apressar o registro do PSD. O outro defendendo o respeito ao rito processual do TSE.

Vida que segue, agora é Demóstenes quem tenta sobreviver na boquinha da garrafa.

Por certo o ministro Ricardo Lewandowski, aquele que segundo reza a lenda só é ministro graças a amizade de sua mãe, com Dona Marisa, a esposa de Lula, por certo estara saboreando o tal prato frio da vingança..


vitor on 31 Março, 2012 at 11:22 #

Na mosca, poeta!!!

Posso reproduzir mais tarde na primeira pagina do BP?

Tim Tim!!!

Vitor Hugo


luiz alfredo motta fontana on 31 Março, 2012 at 11:27 #

Grato!!!

Confesso, seria uma honra, entretanto, não mereço.

Tim tim!


Graça Azevedo on 31 Março, 2012 at 11:33 #

Parabéns grande Vitor Hugo pela precisão cirúrgica do texto. Sempre é fundamental para nossa boa informação ler o bahiaem pauta, hoje é obrigatório.


rosane santana on 31 Março, 2012 at 18:13 #

Há certas coisas que a minha inteligência não alcança. Por que fatos conhecidos desde 2009 são revelados somente agora? A culpa é mesmo do Procurador Geral da República? Por que as denúncias são seletivas atingindo gente do partido que o chefe Lula disse, em 2010, que precisava ser eliminado? O Stepan Necerssian entra no caso para confundir, para despistar o verdadeiro alvo? Por que se a faxina é pra valer a Polícia Federal (A Polícia Política!) não revela a lista completa, a bem do interesse público e fica só ameaçando, quando há tantos outros de outros partidos? Por quê? Que papo, que pao é esse? Que circo, que circo é esse? Que país é esse?


danilo on 1 Abril, 2012 at 12:28 #

que país é este, Rosane? a resposta é dada pela platéua, quando nos shows se toca aquela música do Legião Urbana, “Que país é este?”.

o cantor puxa o refrão: “Que país é este?”. e o público, uníssono, responde: “é a porra do Brasil!!”.

desce o pano.


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