======================================================

Opinião Política

Mais uma batalha perdida

Ivan de Carvalho

O caso das gravações ou supostas gravações da Polícia Federal na Operação Monte Carlo e que envolvem o senador Demóstenes Torres, democrata de Goiás e um dos mais competentes parlamentares da oposição ao governo Dilma Rousseff – da mesma forma que foi oposição ao governo Lula – expõem um aspecto que diz respeito à cidadania, independentemente de quais sejam ou hajam sido as relações entre Torres e o empresário e investigado Carlos Augusto Ramos, mais conhecido como Carlinhos Cachoeira.

O senador Demóstenes Torres Torres afirma que suas relações com Carlinhos Cachoeira são exclusivamente de amizade, não tendo jamais envolvido qualquer comportamento que constitua infração à lei penal ou outra qualquer. É o que ele disse. Quanto à Polícia Federal, não disse nada.

Mas a Polícia Federal, não pela primeira vez e com toda a certeza não pela última vez, mas como há muito já se tornou rotina, está fazendo vazar frases ou pequenos trechos de conversas telefônicas havidas entre o senador e o investigado Carlinhos Cachoeira. Descontextualizadas, as frases ou trechos de conversas podem dar margem a suspeitas e até acusações informações, sejam da mídia, sejam de políticos adversários e não há garantia de que tais acusações ou suspeitas sejam verdadeiras, assim como não se pode ter certeza de que sejam falsas.

Mas é para obter esse resultado, exatamente, que se prestam e geralmente objetivam esses vazamentos pinçados, seletivos. O senador Demóstenes Torres, por seu advogado, já requereu acesso a todo o material que o envolve e que haja sido colhido pela Polícia Federal, não tendo até ontem obtido esse acesso.
]
No entanto, tudo indica que ele não figura como investigado na investigação, como mostra, com evidente razão, seu advogado. É que o senador tem foro privilegiado, que é o Supremo Tribunal Federal. No momento em que o juiz da 11ª Vara Federal de Goiânia chegasse à conclusão que o senador deveria ser investigado, ele estaria obrigado a declinar de sua competência, passando o caso à esfera do STF.

Se não o fez é porque o senador Demóstenes Torres não figura como investigado na Operação Monte Carlo. Se figurasse, a investigação estaria sendo clandestina, ao arrepio da Constituição. E estaria sendo assim em uma situação jurídica tão clara que é inadmissível que um juiz estivesse aceitando e dando condições para tal absurdo.

Chega-se assim, até prova em contrário, à conclusão de que o senador Torres não está sendo investigado. Ora, aí é que as coisas ficam mais estranhas. Entende-se que o juiz da 11ª Vara Federal de Goiânia haja autorizado à PF empreender a escuta das conversas de Carlinhos Cachoeira, que é investigado na Operação Monte Carlo. Então, quando este fala com o senador ou vice-versa, a PF escuta e grava o que diz o senador.

Isto já leva a uma situação esquisita, jurídica e politicamente, mas sobretudo do ponto de vista da cidadania. É uma pessoa que só pode ser alvo de escuta eletrônica pela Polícia Federal com autorização de ministro do Supremo Tribunal Federal sendo escutado e gravado sem essa autorização. Dirão que é por acaso, que o alvo era Carlinhos Cachoeira, e que essas gravações não valem como prova judicial contra o senador. E realmente não valem. Mas valem como arma política, forma pela qual já estão sendo usadas, já que para isso mesmo a PF providencia seus vazamentos seletivos.

Seja o que for que aconteça com o senador Demóstenes Torres, tenha ele se comportado mal ou não – e essa dúvida estabelecida com base em comportamentos indevidos do Estado já é má em si mesma – a cidadania e o respeito à lei já perderam mais uma batalha.

Be Sociable, Share!

Comentários

jader on 27 Março, 2012 at 7:09 #

Outro ponto de vista :

Autor:
Rádio do Moreno – Blog de Jorge Bastos Moreno

Por implacavel

De: THEÓFILO SILVA

Confesso que o envolvimento do senador Demóstenes Torres com o mafioso Carlinhos Cachoeira foi uma surpresa para mim, um choque, na verdade. E sei que milhões de brasileiros estão tão chocados quanto eu. Sabemos que não existem santos em política, mas ninguém esperava que esse promotor de justiça, secretário de segurança de Goiás, paladino da ética pública, fosse apanhado pela justiça federal em conversas com Cachoeira, numa operação em que 80 pessoas – vários delegados e policiais – foram indiciadas e outras presas, por formação de quadrilha e outros crimes graves. Descobriu-se que Demóstenes fez 300 ligações telefônicas para Cachoeira, num prazo de sete meses, e detinha um telefone exclusivo para falar com o criminoso.

Foi triste ver Demóstenes Torres ser defendido por dezenas de senadores enquanto fazia seu tosco discurso de defesa no senado. Ele, que parecia desprezar os colegas, como se fosse uma rosa em uma floresta de espinhos! Foi deprimente ver Demóstenes, um advogado, procurador de justiça, diante das câmeras de televisão, consultando um advogado criminalista, e se negando a responder uma simples pergunta sobre o uso de um telefone. Demóstenes morreu ali, naquele momento. Terminava naquela entrevista a carreira da Vestal da política brasileira.
Deixem-me dizer o que é uma vestal. Na Roma antiga, antes da chegada de Cristo, Vesta era a deusa mais importante dos romanos, detentora de um belíssimo templo consagrado a ela. O santuário era guardado pelas vestais, jovens escolhidas aos dez anos de idade, que ficavam encarregadas, durante 30 anos, de zelar para que o fogo sagrado nunca apagasse. Durante esse tempo, elas deveriam permanecer virgens, e levar uma vida de castidade e pureza. Se uma delas quebrasse os votos, o crimen incesti, era condenada a morte por decapitação ou tapocrifação (enterrada viva).
Nem Gilberto Kassab ao construir o PSD atingiu tão mortalmente o Democratas como Demóstenes. A reserva moral do DEM, o homem que partiu para cima de Roberto Arruda, por muito menos do que é agora acusado, foi flagrado em uma relação estreitíssima com um notório criminoso. Um senador moralista, draconiano, competente, rigoroso receber presentes, e falar diariamente com um sujeito desse tipo, e dizer que era conselheiro sentimental… Nem criancinhas acreditam em Demóstenes.
Demóstenes acabou-se. Virou um Zumbi no Senado, e seus colegas senadores estão felizes com isso. Ele agora vai dizer amém pra todo mundo, vai votar todos os projetos, irá a todas as reuniões de comissões, fará tudo para salvar seu mandato. Aquela voz que fazia tremer os corruptos do Brasil calou-se. Virou um cordeirinho! Demóstenes Torres agora vai andar com Gim Argello, Ivo Cassol, Jáder Barbalho, os “queimados” do Senado. Se não fosse senador da república, estaria preso ao lado de Carlinhos Cachoeira e sua quadrilha. Tentar anular as provas contra ele, junto ao STF, como está fazendo, só piora sua situação. A sociedade já entendeu tudo.
Demóstenes é o maior exemplo de que a sociedade precisa desconfiar de homens públicos que se dizem imaculados – Vestais – principalmente, se esse homem é pago pelo estado para promover justiça. O fato de Demóstenes Torres ser promotor de justiça agrava ainda mais sua situação. Ela agora junta-se a Leonardo Bandarra e Débora Guerner, como mais um membro defenestrado do MP.
Dizem os brasileiros: “Desgraçado Demóstenes, que as vestais romanas rezem por ti, tu apagaste o fogo sagrado e, para a sociedade, cometeste o crimen incesti! E se não vivêsseis no século XXI, serias condenado a tapocrifação”!

Theófilo Silva é articulista colaborador da Rádio do Moreno.


Claudio Carvalho on 27 Março, 2012 at 8:07 #

Pelas mesmas razões apresentadas por Ivan Carvalho, fico com a versão do THEÓFILO SILVA!
Demóstenes Torres já tem guardiões e defensores em excesso.
Buscar em entrelinhas o subentendido e interpretações obscuras para justificar o injustificável
é, no mínimo, triste. Muito triste!


luiz alfredo motta fontana on 27 Março, 2012 at 11:40 #

Caro Ivan de Carvalho

O estado de direito me é caro, a tese da proteção do cidadão comum, face ao poder excessivo do estado, me é simpática.

Mas… que fique claro, de um lado o estado todo poderoso, de outro o cidadão comum. Entendendo-se por cidadão comum o que não goza de poderes e privilégios junto ao mesmo estado. Aqui incluo, mesmo que sob vaias, até mesmo o Daniel Dantas.

Agora, o que dizer de Demóstenes?

Exerceu, a função de promotor de justiça, foi Secretário de Segurança Pública, e está em pleno exercício parlamentar como Senador da República.

Certamente não é um cidadão comum.

Mereceria ele, tal qual o cidadão comum, na mesma intensidade a presunção de inocência?

Ou, o servidor/agente público, eleito, nomeado ou concursadado deve ter minorada esta presunção, em contrapeso às suas regalias e poderes?

Não cabe a ele, especialmente a ele, que se fez à custa da imagem de “paladino da justiça”, de “campeão da moralidade”, de “arauto da ética pública”, uma responsabilidade maior, com a consequente diminuição da presunção de inocência?

Afinal, é princípio de direito o tratamento desigual aos desiguais!

Ou, caetanamente, não?


Graça Azevedo on 27 Março, 2012 at 12:47 #

Fico com um “pé atrás” quando vejo uma figura tão bem definida no poema de Fernando Pessoa: “são todos o Ideal, se os oiço e me falam” O senador se encaixa no perfil. Perfeitamente. Até que, parafraseando o poeta, “toma uma porrada” e aí se revela.


luiz alfredo motta fontana on 27 Março, 2012 at 14:34 #

Caro Ivan

As instiuições democráticas precisam ser preservadas, até mesmo, e principalmente dos que as ocupam, para que não sejam corroídas no cotidiano.

A banalização de conceitos, sobretudo a rotineira reverência com que os ditos formadores de opinião dedicam aos que ocupam cargos ou funções que contenham, em qualquer grau, o dito e louvado poder está contaminando a nossa capacidade de reação.

Que as autoridades sofram o “minus” público no que diz respeito à necessária prestação de contas por gerirem e representarem interesses e bens alheios.


Olivia on 27 Março, 2012 at 15:22 #

Nada como um dia após o outro dia, não é senador Demóstenes e rancho? O grampo agora tem áudio.


João on 28 Março, 2012 at 7:25 #

Agora so falta o Alvaro Dias, que já foi salvo antes, quando escondeu seu saldo bancário de 6 milhões de sua DR.


Luisa on 29 Março, 2012 at 17:23 #

O DEM, partido reacionário por natureza, preconceituoso, paladino da moral parva, se já estava mais sujo do que detrino de maré baixa, agora, o senador Catão está apenas mostrando quem ele é. Tem mais coisa a ser esclarecida aí.

E o que dizer do Clube dos Quinze? Um Nextel para a Veja piguenta e outro para Demóstenes, a pergunta que não quer calar: quem são os que estão com os outros 13?

Por que o silêncio obsequioso do PIG com a Veja? Se fosse o PT já teriam condenado e julgado, agora lê-se firulas como esta aí. E se Cachoeiro armou o mensalão com Veja/PIG, Demóstenes e gente da Justiça, como o grampo seu áudio para derrubarem o Lula? São perguntas que precisam de resposta.


Luana on 30 Março, 2012 at 11:22 #

Eu gostaria de ouvir o nobre deputado baiano, arauto e paladino da moral como o nobre senador Demóstenes Torres, ACM Neto, o que ele pensa sobre tudo isto.

Quando do episódio do mensalão, o nobre deputado foi à tribuna em parceria com o então senador Arthur Virgílio e disse que dariam uma surra no presidente.

E agora, cadê a indignação, deputado? O que o senhor tem a dizer, com o senador Demóstenes Torres sendo o coordenador da campanha de Serra em Goiás e, segundo o relatório da PF, é uma quadrilha que tem sustentação em todos os segmentos dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário e que, ultrapassam as fronteiras do estado de Goiás?

Deputado, o povo baiano quer ouvi=lo, assim como quer ouvir o ex-deputado Aleluia e atual presidente do DEM-BA. Como explicar o financiamento de campanha do DEM e do PSDB, que ultrapassa as fronteiras goianos, nobre deputado?

Para vossa excelência, este financiamento é caixa dois ou recursos não contabilizados?

Ah, deputado, tem um outro detalhe que, se não maioria, mas parte significativa do povo baiano, dentro os quais, eu me incluo, queremos saber: por que a emissora de TV à qual o senhor é herdeiro não tem programções que gerem produção no estado e que deem empregos à população?

Outra pergunta, por que a referida emissora não tem negros como apresentadores, numa cidade com mais de 70% da população formada de negro e o negro empregado na referida emissora, está em sua maioria, limpando o chão para os outros pisarem?

Deputado, voltando à questão Cachoeira, o que o senhor tem a dizer sobre a ligação do Partido o qual o seu tem aliança, ou seja, PSDB, especificamente José Serra, o qual o senhor costura um acordo para se lançar à prefeitura de SSA, o que o senhor tem a dizer sobre as ligações de Serra com as indústrias farmacêuticas de Anápolis, que segundo a Operação MOnte Carlo, são empresas de fachada para lavagem de dinheiro?

O que o senhor tem a dizer sobre isto ao povo baiano? A Bahia costuma vê-lo vociferando diante das câmeras globais sobre os desvios do governo petista, mas o que o senhor tem a dizer sobre a atitude do DEM e do PSDB mesmo, hein?

E aí, não me diga que o gato comeu a língua!!!! Sério, comeu?!!!!!


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos