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ARTIGO DA SEMANA

Sagração de Aguinaldo e Griselda

Vitor Hugo Soares

Escrevo estas linhas antes de ver o capítulo final de “Fina Estampa”, a novela das nove da TV Globo. Desde já, qualquer que seja o desfecho, um marco. Sucesso de audiência e de crítica merecido, apesar dos insatisfeitos de sempre, ou quase. Afinal, “malhar” também é coisa nossa e sem isso, como sem novela, o Brasil ficaria sem graça demais.

O gol de placa representado pelo folhetim que ontem terminou merece ser festejado. Não apenas entre os muros dourados da emissora do Jardim Botânico, do Rio de Janeiro, mas pela teledramaturgia brasileira em geral (autores, diretores, atores, técnicos). Principalmente no campo da qualidade artística de seus intérpretes e conteúdo de sua narrativa exemplar, inovadora e com doses generosas de arte, criatividade e bom humor como o País está precisando cada dia mais.

Diga-se a bem da justiça e da verdade factual (este é um texto jornalístico, mesmo que possa parecer estranho à muita gente), que há uma vitoria pessoal e intransferível nisso tudo: a do escritor e jornalista Aguinaldo Silva, autor do enredo de “Fina Estampa”, o pernambucano de Carpina que, assim como a Rádio Jornal do Comércio, da minha juventude de estudante secundarista em Petrolina (PE), hoje “fala para o mundo” através de seus notáveis textos dramatizados na TV.

De minha parte devo confessar: fui “pescado” por Fina Estampa desde a emblemática escolha do título. A compositora peruana Chabuca Granda – já escrevi sobre isso outras vezes – sempre foi uma de minhas maiores admirações musicais desde a juventude, assim como os escritos de Aguinaldo Silva e Nelson Rodrigues (outro pernambucano de nascimento) no jornalismo.

Chabuca eu descobri por acaso, nos anos 70, já repórter da sucursal do Jornal do Brasil na Bahia, ao entrar em uma loja de disco de Buenos Aires, na companhia de dois queridos amigos de Recife (Samuel e Veraci), e ser apresentado por uma entusiasmada vendedora ao disco vinil “Chabuca, A Grande de America”. Injeção de adrenalina na veia e paixão ao primeiro canto. Saí tonto da loja na Corrientes e precisei de algumas taças de vinho no bar da esquina com a Calle Esmeralda para me recuperar.

Na época (e não é muito diferente hoje), a mundialmente consagrada compositora e intérprete limenha era uma desconhecida quase completa no Brasil. Salvo, diga-se honrosamente, para Caetano Veloso, baiano de Santo Amaro da Purificação. Este sabia tudo sobre Chabuca Granda e sempre falou maravilhas da artista, além de gravar três de suas obras primas – La flor de La Canela, Zeñô Manuel e Fina Estampa, esta também título de seu disco antológico de músicas da America Latina, sucesso completo no Brasil e no continente.

Canto definitivo ao belo e profundo na música. Exaltação musical e poetica da elegância e dignidade no comportamento e nas relações com a vida e com as pessoas. Título mais que perfeito, portanto, para mais esta novela de sucesso de Aguinaldo na TV, por mais que possam protestar os “politicamente corretos” sempre de plantão em cada esquina. E sempre.

Repito: não importa, aqui e agora, o final do folhetim, embora pessoalmente morra de curiosidade (igual a qualquer viciado em novela) sobre o fim de Teresa Cristina (rico e impagável desempenho de Cristiane Torloni) e o futuro de Griselda, Pereirão (na pele da fabulosa Lília Cabral). Sagração merecida de uma de nossas mais completas atrizes.

Para esta, torço por bela e prolongada união, de cama e afetos, com direito a gloriosa lua de mel, com seu Guaracy – este incrível e seguramente inesquecível português com nome de índio vivido pelo ator luso Paulo Rocha – na querida cidade de Lisboa.

Não importam os detalhes sobre o destino reservado pelo autor aos principais personagens desta história que mexeu, durante nove meses, em nervos expostos, consciências quase desenganadas e corações em desalinho. O relevante – estou convencido – deve ser observado no que Fina Estampa representou nestes meses de duração, ao propor ao debate nacional temas cruciais: Ética nas relações, valorização do trabalho (qualquer que seja ele), respeito às mulheres, aos gays, às crianças, aos credos, e mesmo assuntos que poderiam parecer complicados e áridos demais para o grande público, mas que o autor encarou com a audácia e inventividade dos grades criadores. E que seus intérpretes e diretores ajudaram (e muito) a tirar de letra neste historico enredo da televisão (palmas especiais, neste caso, para Wolf Maia).

Um fato existe e ninguém pode negar: Fina Estampa emocionou, fez um país sorrir e chorar, bater palmas ou ficar indignado (algo cada vez mais raro neste tempo de estranhas transações, louvação de inutilidades, mutretas e mutreteiros, de celebridades de uma semana, do mau-caratismo explícito, de jovens mimados e arrogantes que têm tudo e se orgulham de nunca ter lido um livro completo na vida.

Bravo! Valeu o tempo diante da telinha nestes nove meses. Fica o gosto de “quero mais”. E a esperança de que em breve Aguinaldo e Griselda estarão de volta, ao lado dos incríveis personagens de Fina Estampa.

A conferir.

Vitor Hugo Soares, jornalista. E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

anders on 24 Março, 2012 at 10:46 #

O último capítulo foi horrível,rebaixando a tal nível que palavrões,frases chulas e lógica no texto não faltaram nesse capítulo.Como explicar Pereirinha surtar daquele jeito no barco?Tinha “pacto” com Poseidon???Antenor dizendo…”Não vai matar pôrra nenhuma”!-quando ele encontra a mãe.”Tô “cagando” pra que você !!-disse Griselda na hora de implorar pela vida e não mais,o Baltazar diz “O mundo é triste com você aqui fora!” sendo que Crô estava dentro do armário.São as novelas não é,o “alto nível de dramaturgia e direção de diretores!!!T.Cristina chamando a filha de “cagona” é o fim e mostra o quanto essas merdas de novelas são boas e agregam alguma coisa pra nossas vidas!!!Hipocrisia,cultura inútil pra mim é pouco.E antes Willian Bonner anunciara a morte de C. Anysio normalmente mas a do Roberto Marinho,faltou palavras mostrando que estava emocionado sendo que no Faustão disse que nunca o havia conhecido pessoalmente.Fez aquilo de puro “puxa saco”.Continue assim Globo,com BBB e outras porcarias quetais,Record e Band vão lhes passar a perna,se não é que ja passou!!!!!!


rosane santana on 24 Março, 2012 at 10:59 #

Caro Vitor,
Embora discorde da análise sobre a atuação da atriz Cristiane Torloni, em minha opinião, um tanto linear, acho que a trama de Aguinaldo teve alguns méritos. Podemos citar, entre eles, o valor social do trabalho, o respeito à diversidade e a mudança comportamental dos personagens tanto para o bem quanto para o mal contra a ideia equivocada de que as pessoas ou são boas ou são más e que já nascem assim ou assado.
Tereza Cristina, por exemplo, evoluiu para o mal, mas note-se que a Griselda, com seu exemplo, foi provocando uma mudança para melhor nos personagens que gravitavam em torno dela, como o filho formado em medicina, a nora e o genro, vizinhos, amigos etc.
No que diz respeito à diversidade diria que o texto foi quase perfeito. Os homossexuais, como em várias novelas da Globo ultimamente, foram bem representados pelos tipos criados pelo autor. Crô, o gay pintoso que até os homossexuais rejeitam, como fez questão de enfatizar o autor; o casal de mulheres, com o desempenho magistral de Eva Vilma, quebrando o velho preconceito de que mulheres homossexuais são masculinizadas; os rapazes de praia que transam numa boa com homens e mulheres e o misterioso amante de Crô, nunca revelado porque poderia ser qualquer um. Isso me fez lembrar do travesti Valéria que, de passagem por Salvador, para uma temporada no Teatro XVIII, há oito anos, em conversa na casa de uma amiga comum, fez revelações bombásticas sobre seus clientes, entre os quais políticos famosos e insuspeitáveis.
E por que isso é importante? Diria que não é importante, mas fundamental, quando a gente vê, no século XXI, em plena avenida Paulista e imediações, como a Frei Caneca, que é um reduto de homossexuais, no centro de São Paulo, muitos deles serem assassinados e espancados brutalmente.
Por essas e outras (você e Margarida sabem) do choque que levei ao desembarcar em São Paulo em fevereiro de 2010, recém-chegada de uma temporada de três anos de estudos nos EUA, para participar da cobertura das eleições presidenciais, ao lado do nosso querido Cláudio Leal. Como São Paulo (perdão Gracinha) é em tudo um blefe sem tamanho, especialmente a imprensa, o que me fez, você é testemunha, desembarcar de uma vez por todas do jornalismo. Uma cidade com uma megalomania enorme, mas onde nada funciona, do transporte ao mais comezinho serviço público ou privado. E onde o velho ranço, a velha pretensão a centro civilizatório brasileiro persiste, apesar das evidências em contrário.


Mariana Soares on 24 Março, 2012 at 11:11 #

Belo artigo, meu irmão! Não acompanhei muito de perto a novela, mas compartilho da opinião de que é preciso ressaltar e mostrar quão bem faz ser uma pessoa de e do bem e que desta forma se vence, sim, na vida, tanto profissional, como afetivamente.


luiz alfredo motta fontana on 24 Março, 2012 at 11:51 #

Caro VHS

Sábado é dia do “ARTIGO DA SEMANA”, e estamos conversados!

Não importa o tema, não importa o mote, o artigo estará eivado de tua generosidade, de teu olhar diferenciado, recheado aqui e acolá de impressões colhidas ao longo de uma vida prenhe de colóquios poéticos estabelecidos com teus leitores.

Viciei em manhãs de sábados!

O dia “toma tento” após a leitura do “ARTIGO DA SEMANA”.

Quanto à novela, tudo cabe e nada é imprescindível, afinal é o nosso folhetim, esta “jabuticaba” tão grata ao nosso imaginário.

Desta, a “Fina Estampa” restará a Torloni e sua magistral vilã de quadrinhos, essa Dick Vigarista de saias, e também o Crô, este, por certo, merecedor de um seriado, pela leveza e comicidade.

Mas. sempre o mas, como em novela tudo cabe, até mesmo deslizes, será inevitável a presença de fraturas expostas, com revelações explícitas de frustações pessoais, do tipo não fui aceito portanto odeio.

Este o universo das novelas, e dos que as acompanham, dá de tudo!

Abraços paulistas!!!

Tim Tim!!!


vitor on 24 Março, 2012 at 12:10 #

Valeu, poeta!!!

Tim Tim!!!

(o editor)


vitor on 24 Março, 2012 at 12:12 #

Valeu, poeta!!!

Elegancia e generosidade a toda prova.

Tim Tim!!!

(o editor)


rosane santana on 24 Março, 2012 at 13:04 #

“Um fato existe e ninguém pode negar: Fina Estampa emocionou, fez um país sorrir e chorar, bater palmas ou ficar indignado (algo cada vez mais raro neste tempo de estranhas transações, louvação de inutilidades, mutretas e mutreteiros, de celebridades de uma semana, do mau-caratismo explícito, de jovens mimados e arrogantes que têm tudo e se orgulham de nunca ter lido um livro completo na vida.”
Pois é, amigo Vitor, e quem se nega ao jogo e, soberanamente, digo soberanamente, procura trilhar o caminho que lhe convém é atacado. É assim que agem os que matam e esfolam gays na Paulista.


regina on 24 Março, 2012 at 14:56 #

Querido Hugo: Entre a “Fina Estampa” de Aguinaldo Silva e a de Chabuca Granda existe uma grande diferença, na minha opinião, mas, só o fato desta magnífica canção peruana te-lo levado a assistir, desfrutar e ainda escrever sobre o folhetim já vale a coincidência…

A elegância e a dignidade da canção refletem-se no comentário do poeta Fontana, a quem peço licença pra assinar embaixo.

Tim Tim, pelo fim da novela…. UFA!!!!


rubens on 24 Março, 2012 at 17:08 #

Infelizmente, apesar do enriquecedor conteúdo, o artigo não reflete a opinião dos mortais que recebem um salário de merda, apesar do elogio aos pernambucanos, que, como muitos brasileiros também são ótimos, porém a apologia ao crime e falta de condenação deveria sim ser ressaltada! Ver comentários em site de relacionamento!


vitor on 24 Março, 2012 at 17:59 #

Chabuca é incomparavel, mana.I N C O M P A R A V E L.

TIM TIM !!!

HUGO


Gracinha on 24 Março, 2012 at 21:26 #

Novela é novela, na minha opinião seria p divertir e neste particular Fina Estampa conseguiu c seu maravilhoso Crô ( so assistia a novela para ve-lo). No mais o de sempre: muito merchandisign, “encheção” de linguiça , final q estimula o mau caratismo – no caso, absurdo Tereza Cristina n responder por seus crimes…


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