http://youtu.be/OLF5J9TxBTs
———————————————————————


TEXTO PUBLICADO ORIGINALMENTE NA REVISTA DIGITAL TERRA MAGAZINE.

———————————————————————————-

Disco de Gal Costa aprofunda ciclo poético de Caetano Veloso

Claudio Leal

“Nascemos escuro.”
(Drummond, “O medo”)

Cantar era um destino quando Maria da Graça implorou ao colunista social Sylvio Lamenha para conhecer João Gilberto, no início da década de 60, em Salvador. “Me leva. É o meu ídolo!”, exigiu Gracinha – ou Gal, apelido de fornada baiana. “Já ouvi falar de você. Tem um violão?”, indagou o cantor, depois da apresentação feita por Lamenha, ave corpulenta e extraordinário imitador dos erres de Dalva de Oliveira. Liberada pela mãe, a menina da Barra Avenida correu para o encontro, instrumento à mão, e gramou a noite a acompanhá-lo. “Gracinha, você é a maior cantora do Brasil!”. O mestre parecia ver no ifá.

Esse destino artístico se cumpriria nas quatro décadas seguintes. Mesmo nos períodos de silêncio. Ou de acomodamentos. Na história da canção brasileira, Gal Costa se afirmou tão reluzente que suas ausências fonográficas instilam um sentimento aflitivo, uma angústia com seus intervalos criativos. O longo recato de seis anos, iniciado após o disco “Hoje” (2005), é agora desfeito com “Recanto” (Universal Music). Reinvenção não apenas dela, mas de Caetano Veloso, que aprofunda um ciclo poético despontado no LP “Domingo” (1967) e construído permanentemente sem definições formais, nem unidade, pois a inquietação já se converteu em um programa estético.

Em 1992, na crônica “O poeta do encontro”, o escritor Otto Lara Resende expôs a impossibilidade de reduzir Caetano ao nicho da música, e conclui por considerá-lo “legítimo poeta do Brasil”: “Indiferente à palha seca da controvérsia, a arte segue o seu caminho. A vertente é uma só e é nela que se dá o encontro das águas. Pouco importam as fontes de onde procedem. Purificadoras e purificadas, seu caráter lustral as universaliza. Caetano Veloso, por exemplo? Quem ousaria classificá-lo?”.

No álbum “Recanto”, a influência da poesia de João Cabral de Melo Neto, reiterada pelo compositor desde a Tropicália, na aspereza e no rijo ofício dos versos (“sem perfumar sua flor,/ sem poetizar seu poema”, como ensinava o pernambucano), conflui para o legado de Carlos Drummond de Andrade. O conjunto de letras consolida as subversões antiestilísticas de Caetano – soturno, impuro, atômico – e se vincula a nossa tradição poética como raras vezes acontece, com essa presteza, na música brasileira. E registre-se: em boa parte das revoluções anteriores, lá estava o mesmo trovador.

“Madre Deus”, composta originalmente para o balé Onqotô, do Grupo Corpo, é de aberta intertextualidade, por dialogar com o poema “Memória”, do Drummond de “Claro enigma”: “E as coisas findas/ Muito mais que lindas/ Essas ficarão/ Dizia/ A poesia/ E agora nada/ Não mais nada, não”. Esse complemento cético à poesia original esbarra na promessa de “uma certa felicidade” sustentada pela música popular, como definiu Drummond numa conversa com o compositor, no final dos anos 70. Ironicamente, a justificativa para a descrença talvez esteja em outro comentário do poeta de Itabira, desta vez sobre a tranquilidade de Caymmi: “E nós, Caetano, que só pensamos em coisas ruins?”.

“Recanto escuro” resulta quase num desespero drummondiano de definir-se enquanto se confronta o mundo. Caetano funde a voz poética aos lampejos biográficos de Gal Costa, num desnudamento que não ignora a força da grana: “O chão da prisão militar/ Meu coração um fogareiro/ Foi só fazer pose e cantar/ Presa ao dinheiro”. Com pulsante programação eletrônica de Kassin, conferindo arranhões e temporalidade à voz de Gal, a canção ilumina os dois artistas interligados na origem; e cúmplices no desvio. O fluxo autoral de Caetano não “carrega” sua maior intérprete. O canto é a síntese: “Espírito é o que enfim resulta/ De corpo, alma, feitos: cantar”.

Em 1964, estavam irmanados nos shows “Nós, por exemplo” e, passados três anos, no LP “Domingo”. Durante o exílio de Gil e Caetano, no pós-AI-5, a baiana segura o projeto tropicalista, radicaliza as experimentações musicais e valoriza compositores da linhagem de Jards Macalé, Waly Salomão e Luiz Melodia. Em 1974, reencontram-se em “Cantar”, essencial para ressaltar a força de Gal em sons mais pacíficos. Distanciam-se na fase “Tropical”, mas permanecem alinhados a um objeto não-identificado, como comprovará “Minha voz, minha vida” (1982) em sua íntima harmonia: “Vida que não é menos minha que da canção”. De novo umbilicais em “Recanto”.

O músico Paquito encontrou o diabo no meio do redemoinho. “Gal e Caetano se reconhecem, transformam-se no que cantam, se amalgamam: cara de um, focinho de outro, máscaras do mundo. Em comparação com a perspectiva mais individual do Cê, o olhar em torno”, decifra. Apesar de ousado, o predomínio dos sons eletrônicos não é novidadeiro para Gal, uma das personalidades instauradoras da diversidade do Tropicalismo. “Recanto” a devolve à grande arte e ao plano merecido de artista fundamental para ler e reler o Brasil. Até os méritos do álbum anterior, “Hoje”, aberto a compositores jovens, não disfarçavam essa necessidade de recriar-se.

O desassossego de “Recanto” provoca estranhamentos, bem verdade. E não saímos deles, a não ser pelas janelas de “Cara do Mundo” e de “Mansidão”, as canções mais solares. “Autotune Autoerótico”, referência ao recurso que corrige deslizes na voz, o qual “não basta para fazer o canto andar”, exerce a crítica dentro da experimentação. Os produtores Caetano e Moreno Veloso adequaram a base eletrônica de Kassin aos graves da cantora de 66 anos. “Neguinho”, com sintetizadores de Zeca Lavigne Veloso, ressoa como a mais provocativa.

O Caetano discursivo, afeito a polêmicas públicas, manifesta-se na representação do consumismo sem lastro moral; sim, rejeita mas se reconhece no Brasil que emerge nos anos dos governos Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. O indefinido “neguinho” somos nós: “Se o nego acha que é difícil, fácil, tocar bem esse país/ Só pensa em se dar bem – neguinho também se acha/ Neguinho compra 3 TVs de plasma, um carro GPS e acha que é feliz/ Neguinho também só quer saber de filme em shopping”. O contraponto aparece na faixa “Sexo e dinheiro”, num arranjo religioso, capaz de preencher catedrais: “Dinheiro é uma abstração/ Sexo é uma concreção: luz”.

Não haverá danos maiores se ajustarmos a busca por instabilidade de “Recanto” ao trecho de uma velha crônica de Caetano, publicada no “Pasquim”, em 1970, a respeito da sede de transição dos músicos inovadores nos anos 60: “ninguém está à vontade no papel de figura definitiva de uma bela história”. Na última década, a obra de Caetano aparenta uma insurgência contra si própria, relutante em assumir o papel confortável que a história já lhe confere. Gal Costa não serve de puro instrumento. Protagoniza. A Caetanave é errância, mas a poesia e o recanto, claridade.

***

Show “Recanto”
Datas: 23, 24, 29, 30 e 31 de março
Horário: 22h
Casa Miranda (http://mirandabrasil.com.br)
Avenida Borges de Medeiros, 1424 – Piso 2 – Lagoa – Rio de Janeiro

Be Sociable, Share!

Comentários

Mariana Soares on 23 Março, 2012 at 12:45 #

Claudinho, como sempre, você brilha e ilumina com as letras. Alguém já disse por aqui (não lembro quem, mas acho que foi nossa querida amiga Gal) que você faz parecer facil. Não é, com certeza. Precisa saber das coisas, ler muito, ter sentimento pulsando forte na veia, enfim, precisa comer muito arroz com feijão para fazer com as letras o que você vem fazendo.
Há algum tempo, tenho o inenarrável privilégio da sua amizade e, de ponga, beber da sua inteligência, sensibilidade, humor e vasto conhecimento de cultura, politica, historia…da vida, apesar de tão novo ainda.
Sou, verdadeiramente, sua fã e amiga orgulhosa.
Seu texto, mais uma vez, é pura delícia! E olhe que eu, como já lhe disse, não gostei deste CD de Gal (sou antiga e não gosto muito dessas modernidades), prefiro a Gal romantica, de outros tempos.
Não obstante, o poder do seu texto é tão devastador que me vi cantando baixinho as letras nele tão belamente descritas, quase entoadas.
Claudinho, você é uma das pessoas mais legais que eu já encontrei na minha vida! Gosto pra caramba de você! Parabéns pelo texto e pela pessoa indescritível que é você!
Da amiga orgulhosa, Mariana


rosane santana on 23 Março, 2012 at 12:56 #

Grande Cláudio, mais uma das suas fora de série. Semeie em outras plataformas, meu querido, porque o jornalismo que se pratica hoje no Brasil é pequeno pra você. beijos.


Graça Azevedo on 23 Março, 2012 at 13:00 #

No TT comentei que ele me fez desejar o CD. Sou meio saudosista e tive certa resistência quando, en passant, ouvi parte de duas músicas. Este fim de semana vou ouví-lo com as palavras de Claudinho em off. Concordo, o texto tem poder devastador!
Mariana, este rapaz é um presente para nós que temos a sorte de tê-lo como amigo.


rosane santana on 23 Março, 2012 at 13:13 #

No meu tempo de jornal, há 30 anos, caro Cláudio, quando aparecia alguém com sua envergadura, os jornalistas, escritores e intelectuais que frequentavam as redações acolhiam e logo apadrinhavam o novo talento. Era gente como Rui Espinheira Filho, Guido Guerra, Armando Oliveira, João Carlos Teixeira Gomes, João Santana Filho, Antônio dos Santos, Átila de Albuquerque, Antônio Risério, Tito Celestino, Ana Maria Pedreira Franco de Castro, Gustavo Falcon, Vitor Hugo Soares e tantos outros. Hoje, as mediocridades que inundam as redações na imprensa brasileira, especialmente no sul maravilha, se encarregam de sabotar os talentosos, os que pensam. É proibido pensar. É proibido ser nota dissonante. É crime confessar posições discordantes politicamente, culturalmente etc. A ordem é pensar pequeno e de maneira linear. É preciso, é obrigatório aderir as frases de efeito e sob encomenda, às pautas oficiais. Pensamento crítico é crime. E surge, então, um time de colunistas como se vê hoje na Folha de São Paulo, de segunda classe, com honrosas exceções, etc e tal, que em nenhuma época foi superior a velha turma do JBa ou da TB, sequer do Diário de Notícias. Gente do velho partidão, gente criada nas melhores tradições do debate e formação cultural.Por isso, sou chata, mas sempre lhe digo, caia fora. beijo.


danilo on 23 Março, 2012 at 17:46 #

perfeito, Rosane. mas por falar em boicote, não existe apenas boicote na mídia do sul maravilha. aqui em Salvador Shitty, também, e MUITO!

observe-se o exemplo do filme sobre o gênio chamado Raul Seixas. enquanto a midia do sul do país e os principais sites, blogs e informativos eletrônicos do Brasil dão grande destaque à Raul, os meios baianos pouco falam. o Terra Magazine, então, nada de Raul.

apenas notinhas com visível contragosto, cumprindo tabela de pauta, redigida por meninos amarelos lullo-petistas, que preferem endeusar uma porcaria como Criolo, e sobrevalorizar Chico Science, enfiando o pé no mangue beat, do que refletir ao rock and roll de Raul.


rosane santana on 23 Março, 2012 at 18:29 #

É isso aí, Danilo. Amo o Raul, até já integrei um conjunto musical, como cantora, cujo repertório preferido era o de Raulzito. “Ouro de Tolo”, “Metamorfose Ambulante”, “Al Capone” , “A Mosca” e por aí vai…


luiz alfredo motta fontana on 23 Março, 2012 at 18:38 #

Grande Danilo

Esse paulista agradece

E lembra; Caetano, Gal, Gil, Tom Zé, entre tantos, tropicalizaram a partir de “Sampa”, a mesma “Sampa” que acolhera Bethânia quando esta substituiu Nara Leão no Show Opinião.

Aqui Raul Seixas é cultuado.

Nana Caymmi posa de diva.

Essa bandeira usada e esfarrapada de barreiras no sul maravilha apenas veste a falta de talento.

Foi na Record, que Gal, Caetano, Gil e Tom Zé viraram ídolos nacionais, na mesma “Sampa” que abrigava a turma da MPB, de Chico, Edu, Sidney Miller, etc.

Ao menos na noite paulistana era possível frequentar, alternadamente, o Bar Redondo (Consolação com Ipiranga) da turma da MPB, e o Bar Riviera (Consolação com Paulista) território tropicalista, quem viveu, e bebeu, naquelas mesas, sabe do que falo.

O resto é lamúria…

Como dizia Raul Seixas:

“Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador…”


Pedro on 7 agosto, 2012 at 1:19 #

Gal esta cada vez mais linda e o tempo tem sido seu amigo no seu amadurecimento musical,e o resultado só pode ser essa riqueza que podemos desfrutar de sus obra em uma bela e muito bem sucedida carreira


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos