DEU NO JORNAL A TARDE ( reproduzido no site Conteudo Livre)

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Só na base da amizade

Antonio Risério

Nunca me esqueço da comparação direta de William Blake, nos “provérbios and Hell: “O pássaro – ninho; a aranha – teia; o homem – amizade”. Amigos homens, amigas mulheres (apesar da filósofa francesa que afirma ser impossível a existência de amizade genuína entre um homem e uma mulher, que ainda em termos blakianos, encontram, no sexo, um espaço de perdão mútuo, de mutual forgiveness, entre eternal enemies, inimigos eternos). Mas, enfim, amizade.

É o que cultivo (já que gosto – e muito – de conversa e de carinho). É uma das fontes mais claras de prazer e alegria que encontrei na vida, desde que me entendo por gente. Daí, talvez, que as minhas amizades mais novas, salvo raríssimas exceções, pareçam tão antigas a olhos desatentos ou distantes de suas verdadeiras notas e nuances, de sua verdadeira e encantadora novidade diária, ou de sua capacidade de renovação permanente. Minhas amizades mais novas, por exemplo, plantam- se, em sua grande maioria, aí na faixa dos 40 anos. Formaram-se entre as décadas de 1960-1970 e se desdobram, enriquecendo-se, até aos dias de hoje. Por exemplo: fiquei amigo do sociólogo Gustavo Falcón em 1967; de João Santana, em 1968; de Caetano Veloso, em 1972; de Augusto de Campos e Roberto Pinho, em 1973. Há algumas amizades – poucas – mais antigas. E outras, também poucas, mais recentes. Posso dizer, assim, que formamos mesmo a nossa tribo.

Além disso, costumo herdar amizades (de pai para filho ou filha desde…), em diversas situações. Da troca de informações ao engajamento comum em empreitadas profissionais, crianças que vão crescendo e ficando próximas, a exemplo dos criativos e “multiuso” Aylê Axé, Marcelo (hoje, um dos mais completos publicitários brasileiros) e Chico Kertész, dos diretores Aza Pinho e Peu Lima (filho do psicanalista Luiz Tenório e da educadora Zélia Cavalcanti, que implantou, com tremendo êxito, a Escola da Vila, em São Paulo), do jovem historiador Amon Pinho, do Artista Omar Salomão (filho de Martha e Wally, que acaba de lançar o livro O Impreciso), etc. E cito esses poucos nomes apenas para que se tenha uma ideia da rede cultural multigeracional que se vai configurando e expandindo.

E é claro que adoro coisas que acontecem mais ou menos de improviso, de modo espontâneo, só na base da amizade .Como dizia um amigo meu: tudo com muita boa vizinhança – e sem nada de política. Papos rolando á vontade, sem rumo definido, seguindo antes ao sabor das brisas e das ondinas. Como o que pintou recentemente lá em casa. Eu e Caetano já tínhamos nos falado sobre a gente se encontrar, matar saudade, botar a conversa em dia. Marcamos, então, para um sábado, no final da tarde (horário civilizado para quem, como nós, acorda post meridiem). Pouco depois, minha amiga Ana (nossa ministra Ana de Holanda) disse que viria à Bahia e queria conversar comigo. Marquei para o mesmo horário, final de tarde, na varanda lá de casa.

Sara Victoria resolveu cozinhar. Moqueca de maturi – e comida árabe, para quem não quisesse dendê. E foi muito, muito bom. Muito gostoso. Só na base da amizade. Caetano, na intimidade, chama a ministra por seu apelido familiar – curiosamente, Baía.
Falou-se de tudo. Da São Paulo da Galeria Metrópole na década de 1960, quando os jovens Caetano (que ainda bebia, e muito, nessa época) e Chico atravessavam a noite, em farras espetaculares; histórias do pai (Sérgio Buarque) e do padrinho (Antonio Cândido) de Ana; de fofocas antigas e recentes (motoristas de táxi, no Recife, juram com maior orgulho que é verdadeira a conversa absurda de que Chico é pai do governador Eduardo Campos, por exemplo); Caetano algo orgulhoso porque eu acabava de ser citado no novo número de “The Economist”; etc. E assim fomos entrando pela noite, que trazia estrelas e brisas. Tudo no melhor tom do sabor. Noite amiga, é claro – para quem não queria mais do que ficar ali, sem contrato ou compromisso.

Apenas charlando. Charlando e sorrindo, como às vezes fazem os amigos

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Comentários

danilo on 20 Março, 2012 at 17:59 #

colé, Risério? deixe de guéri guéri, e não cite o nome de Blake em vão.

este seu arrazoado está mais é para um regabofe da cultura oficial, a ser noticiada na coluna de July.

bem distante, portanto, do universo blakeano.

encurtando o papo, Risório, você está mais para Moraes e Galvão e para a cultura do axé babá (você é um dos mentores desta desgraça!), do que para Wlliam Blake.


Janio on 20 Março, 2012 at 19:14 #

Esse Danilo é danado!


luiz alfredo motta fontana on 20 Março, 2012 at 20:58 #

Adoro coincidências

Risério, que segundo o Publifolha “Integrou os núcleos de estratégia e criação das duas campanhas de Lula à presidência da República.

Ana de Hollanda, a irmã de Chico que arde na frigideira de ministros, todas as redações aguardam o desfecho.

E o bom Caetano, irmão de Bethânia, alguém se lembra da verba do ministério?

Um belo encontro de amigos, sem pauta, sem agenda, pura coincidência.

Alguém estranha?

Qual o quê!!!

A Bahia prima pela magia!


luiz alfredo motta fontana on 20 Março, 2012 at 21:10 #

Em tempo:

Não esqueçamos sua participação na campanha de Dona Dilma.


luiz alfredo motta fontana on 20 Março, 2012 at 21:25 #

Por fim, a pergunta necessária:

Ana de Holanda desdenhou o dendê?


vangelis on 20 Março, 2012 at 21:40 #

Danilo pegou pesado, The speech producer está convalescendo em um hospital nesta Soterópolis, possível resultado de um avc. Desejamos-lhes melhoras e que Deus lhe dê muita saúde.


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