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Opinião Política

A Bahia e o governo Dilma

Ivan de Carvalho

O governador Jaques Wagner está reclamando, em linguagem moderada e de correligionário e amigo da presidente Dilma Rousseff, contra o expurgo sofrido pela Bahia nas mais altas esferas do Executivo federal. No rastro da atitude do governador, a bancada do PT no Congresso – ou parlamentares que integram essa bancada – começaram a se mover e a protestar na quarta-feira e continuaram ontem.

No princípio, o governador fez pouco mais que um lamento pela saída de Afonso Florence do Ministério do Desenvolvimento Agrário, ao que acrescentou a sua ressalva explícita de que não deixará que o fato abale sua relação com a presidente da República, que o tem distinguido ultimamente com amáveis e vistosos convites para acompanhá-la em viagens a Cuba e Haiti e à Alemanha.

O lamento foi feito longe da capital, numa cidade do interior. Deu, pouco depois, uma entrevista a jornal de Salvador, A Tarde, em que transforma o lamento numa reclamação, ao tempo em que ensaia uma análise ou avaliação dos fatos. Claro que essas reações acabam repercutindo na mídia nacional, pelo destaque político que tem o próprio Wagner.

Entre a declaração no interior e a entrevista na capital, o governador foi alvo das oposições, que o acusaram – sintetizando – de omissão, de não ir à luta contra esse expurgo dos baianos na alta administração federal. Por motivos diversos – cada um com os seus – foram afastados os ex-ministros dos Esportes, Orlando Silva (PC do B), das Cidades, Mário Negromonte (PP) e do Desenvolvimento Agrário, Afonso Florence (PT), além do presidente da Petrobrás, Sérgio Gabrielli (PT).

Mas o governador, pelo que disse até ontem, não está reclamando em nome de todos os aliados, somente do PT baiano ou nordestino. E, até mesmo por isto, seu alvo de reclamação, ao invés de ser a presidente da República e a cúpula do governo, é a direção nacional do PT. Ao contrário do que ocorre em partidos aliados, o comando nacional petista tem privilegiado o Sul e Sudeste e esquece o Nordeste, que tem feito a diferença eleitoral a favor do partido nas eleições presidenciais. E na região, a Bahia desempenhou nisso um papel de importância inigualada.

O governador explica que a geografia não tem sido levada em conta na distribuição de posições na administração federal. O critério é, segundo disse, considerar os partidos. Esse critério – ele não explicitou, mas é óbvio – leva a que, se a um partido, a exemplo do PT, cabem 50 por cento dos ministérios (não sei se é só isso, o percentual foi posto apenas para facilitar o raciocínio), pouco importa que o PT ganhe ministérios aos montes no Rio Grande do Sul, São Paulo e fique de mãos abanando na Bahia. Como está, já que “não tem nada”, o que sugere que o governador esqueceu ou não está contando Luiza Bairros, da Promoção da Igualdade, que saiu daqui, mas é gaúcha. E tem um ministério de grande valor imaterial, que não fura poço, como diria Severino Cavalcanti, trabalhando mais com ideias que com obras ou serviços.

Vale notar, no entanto, que, ressalvado o caso de Afonso Florence, indicado pela tendência petista Democracia Socialista, apoiado pelo governador e aceito sem restrições por Dilma, os demais expurgados baianos contavam com a má vontade presidencial. Orlando Silva, indicado pelo PC do B, foi uma herança maldita – do ponto de vista da presidente – do governo anterior. Negromonte, indicado pelo PP, foi nomeado com grande má vontade e, quanto a Gabrielli, ficou na presidência da Petrobrás até recentemente – mas com prazo certo para sair – apenas graças a um pedido de seu grande amigo Lula.

Enquanto reclama do PT baiano fora de posições importantes no governo federal e com isto dá até certo ponto uma resposta às críticas oposicionistas de omissão na luta pela “representação da Bahia” na administração federal, Jaques Wagner parece, no momento, lutando mesmo, no que diz respeito a postos na administração federal, é pelo comando da Codevasf.

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Comentários

luiz alfredo motta fontana on 16 Março, 2012 at 9:19 #

Caro Ivan

Aqui o artigo de Pedro Couto, na Tribuna da internet sobre Gabrielli:
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Sexta-feira, 16 de março de 2012 | 04:34

Dirceu usa Gabrielli para confrontar liderança de Dilma Rousseff

Pedro do Coutto

A matéria de Graciliano Rocha, com foto espetacular de Lúcio Távora, primeira página da Folha de São Paulo de sábado 10, sobre um momento da posse de Sérgio Gabrielli como secretário de Planejamento da Bahia, ao centralizar a cena na figura de José Dirceu, destaca um lance político da maior importância. Acentua a divisão do PT em duas correntes. A que, como não poderia deixar de ser, obedece ao comando de Dilma Rousseff, e aquela que, articulada pelo ex-ministro da Casa Civil de Lula, empenha-se em contestar esse comando absoluto.

Basta ver a foto. Impressionista e impressionante. José Dirceu aparece como o dono da bola, procurando demonstrar que a nomeação de Sérgio Gabrielli pelo governador Jacques Wagner decorreu de seu prestígio pessoal. O chefe do Executivo baiano também não ficou bem no episódio junto à presidente da República.

Afinal de contas, Dilma demitiu Gabrielli sem maiores explicações pouco depois de a revista Veja ter publicado a visita do ex-presidente da Petrobrás ao mesmo José Dirceu no escritório político que este mantinha (ou mantém?) no Hotel Naoum, em Brasília. Ficou claro, para os que conhecem um mínimo de política, que Gabrielli foi ao encontro de Dirceu tentar um apoio que lhe estava faltando no Palácio do Planalto. Nada conseguiu, como os fatos comprovam. A audiência somente apressou sua demissão do cargo.
Maria das Graças Foster deve dar graças à Veja por tê-la colocado no posto em curto espaço de tempo. Entre a foto da revista e sua posse transcorreu apenas um mês. José Dirceu manobra nas sombras, deve portanto possuir bom cacife para atuar. Mas não o suficiente para disputar um lance de poder. O poder – me disse um dia o presidente JK – não se divide.

O projeto José Dirceu desmoronou como um castelo de cartas. Petrobrás, adeus. Mas o horizonte foi novamente aberto para o deputado que teve o mandato cassado, por intermédio do governador Jacques Wagner. O ex-presidente Lula enviou carta a Sergio Gabrielli, cumprimentando-o pela nomeação. Mas todos nós sabemos como são as cartas de apoio. Não funcionam. Se Gabrielli tivesse mesmo prestígio com Lula, claro, não teria sido demitido por Dilma.

Vejam o caso Antonio Palocci. No dia da vitória, segundo turno, a presidente eleita fez questão de se dirigir para a primeira entrevista coletiva à imprensa nacional e estrangeira, ao lado de Palocci. Inclusive era o único que a acompanhava no automóvel que conduziu a ambos. Seis meses depois estava demitido. E agora, quando seu nome foi indicado, não sei por quem, para tesoureiro da campanha de Fernando Haddad à Prefeitura de São Paulo, na mesma edição de sábado a FSP revela que o Palácio do Planalto mandou avisar à regional paulista que não está de acordo com a escolha. Ora, quem pode o mais, pode o menos. Se o convite a Palocci desagradou, imaginem os leitores a nomeação de Sérgio Gabrielli.

A matéria sobre o veto a Antonio Palocci é da repórter Cátia Seabra. A política é uma atividade aberta (para citar o filme de Rosselini sobre Roma no final da guerra), como a arte, o futebol e o jornalismo. Todo mundo se julga em condições de participar e até de dirigir. Iludem, no início, afundam os próprios projetos pouco depois.

Testemunhei tantos casos de incompetência no Correio da Manhã que perdi a conta. No antigo jornal só, não. Em outros jornais também.É preciso ter cuidado com esse tipo de gente. Inclusive há os que se esforçam para aparentar poder e não possuem nenhum. O famoso coronel Newton Leitão foi um exemplo emblemático. Era considerado forte nos bastidores. Foi até assessor do jornalista Roberto Marinho. Mas quando Roberto Marinho verificou que ele não tinha prestígio algum, demitiu-o imediatamente.

Newton Leitão pertence a uma espécie em extinção. Mas há sobreviventes por aí.


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