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Opinião Política

O governo, a base e as baratas

Ivan de Carvalho

A presidente Dilma Rousseff designou o deputado Arlindo Chinaglia, do PT, para líder do governo no Senado Federal. Pelo menos foi isto o que o Diário Oficial da União publicou. Mas ela designou também o senador Eduardo Braga, do PMDB, para líder do governo no Senado Federal.

Claro que essa foi apenas mais uma trapalhada, quase se poderia dizer um descuido. Tem importância? Tem, como sinal. Trata-se de um ato formal da presidente da República que, pretendendo designar um deputado para a importante função de líder do governo na Câmara, o faz para a liderança do governo no Senado, para a qual havia sido designado logo antes, e neste caso sem trapalhada, um senador. Também é claro que o erro na publicação ocorreu em nível de assessoria, mas é desconcertante que ninguém acima haja notado o descuido a tempo de corrigi-lo. Uma gestão muito distraída. Ou atrapalhada.

A impressão que se tem é que o ambiente no Palácio do Planalto, pelo menos no que diz respeito às relações do governo com o Congresso Nacional, melhor dizendo, com sua base de sustentação no Congresso, é de “barata voa”. Uma coisa mais ou menos assim: o predador pretende matar as baratas da crise na base governista, mas elas voam, assustando o predador e levando-o a reagir no susto, que o baratina.

E susto grande houve quando o Senado Federal, onde a base governista representa mais de 70 por cento da Casa, rejeitou uma indicação pessoal da presidente Dilma Rousseff para o comando da Agência Nacional de Transportes Terrestres, exatamente o homem enfronhado nos trilhos do absurdo projeto do trem bala, que tem a estima da presidente. A rejeição, em voto secreto, resultou de uma rebelião liderada por peemedebistas para pressionar o governo.

Mas tem sido susto atrás de susto. Enquanto o novo líder do governo no Senado dizia ontem que sua missão é de “unificar e pacificar o PMDB” e “ampliar a interlocução da base com o governo” – esta expressão está na moda – um outro foco de crise que vinha se manifestando informalmente tornou-se ostensivo, declarado e formal: os senadores do PR, partido que tem sete das 81 cadeiras do Senado, decidiram encerrar as negociações com o Palácio do Planalto para indicar o ministro dos Transportes e imediatamente romperam com o governo, passando a oposição. O PR era governo e tinha nos Transportes o ministro Alfredo Nascimento, alvo de denúncias e por isto exonerado em julho.

O PR queria voltar ao ministério dos Transportes, mas as negociações não progrediam. O senador Blairo Maggi, do Mato Grosso, principal negociador pelo lado do PR, chegou a ser convidado para o cargo, mas não aceitou. Havia uma expectativa de que o PR indicasse e a presidente nomeasse o ex-senador César Borges, presidente do PR na Bahia, contra o qual não existem denúncias de improbidade ou quaisquer outros “malfeitos”, como diz Dilma Rousseff.

Uma eventual nomeação de César Borges seria até uma espécie de compensação para a Bahia, que perdeu importantes postos – ministérios dos Esportes, das Cidades, do Desenvolvimento Agrário e presidência da Petrobrás –, mas havia um obstáculo a superar, o fato de Borges e o governador Jaques Wagner estarem em campos políticos diferentes, adversários nas eleições de 2010.

O senador Blairo Maggi explicou as coisas de forma lapidar, após a reunião da bancada do PR que tomou as decisões já descritas: “Fui lá hoje. Não tinha definição. Eu não quero mais negociar porque o negócio não desenvolve. Então, resolvemos (os senadores do PR) que estamos fora da discussão e isso significa que estamos na oposição”.

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