Houaiss:a guerra da língua sem ele
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ARTIGO / LINGUA

Chumbo em Houaiss

Washington de Souza Filho* – Direto

Direto de Covilhã (Portugal) para o BP

O filólogo brasileiro Antônio Houaiss, morto em 1999, aos 83 anos, enfrenta, sem que possa combater, um inferno astral, ainda que o problema de maior repercussão respingue no governo brasileiro, fiador do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, em tese, vigente desde janeiro. Em Portugal, apenas com a reação de intelectuais que compreendem a dimensão da unificação da forma escrita do idioma português, uma série de atos e manifestações renega o acordo, sem que o governo do primeiro-ministro Passos Coelho se manifeste,como se não tivesse havido uma negociação para a sua vigência.

O vínculo de Houaiss à questão é o fato de que ele simbolizou a proposta de unificação da língua portuguesa, distinguida, na grafia, principalmente, entre o Brasil e os outros países, sob a influência de Portugal. A ideia do acordo começou a ganhar a forma em 1994, através da CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), mas sempre dependeu de uma concordância unânime. O último acordo, com o início em 2012,depois de uma transição, salvo engano, a partir de 2009, não teve a concordância de Angola e Moçambique.

De qualquer forma, o apoio não parecia impossível, em particular pela força do Brasil em relação a esses dois países, ex-colônias portuguesas, que sempre reverenciaram a posição brasileira, ainda sob o regime militar, de reconhecer a independência deles, em 1975. Na prática, o mais difícil, em relação ao histórico das outras tentativas, era o apoio de Portugal. O que tinha sido conquistado.

A questão, porém, era a conjuntura deste acordo. Lula e José Sócrates, do Partido Socialista, estavam à frente de Brasil e Portugal, respectivamente. A influência de Lula sobre Angola e Moçambique, beneficiados com acordos diversos, principalmente na área da saúde, era discutível. A mudança, com a eleição de Dilma Roussef, não é em relação à posição brasileira. Em Angola, o principal jornal do país – Jornal de Angola – anunciou que não iria aderir ao acordo e publica os textos de acordo com a grafia de sempre. A surpresa é imaginar que em um país em que os meios de comunicação são propriedades e controlados pelo governo, uma decisão desta possa ser tomada sem o conhecimento das autoridades.

A realidade é outra em Portugal, com um governo mais à direita, depois da saída de José Sócrates. A reação ao acordo é manifestada em artigos e atos, como a de um dirigente de um centro cultural – parlamentar contrário ao acordo, quando tinha mandato – que estabeleceu o descumprimento do estabelecido, sem receber qualquer crítica – a não ser de intelectuais, estudiosos e dos leitores, em manifestações nos sites (aliás, sítios para os portugueses) dos jornais. É comum, em jornais e revistas portugueses, a publicação de textos, com a observação de que o autor não respeita as normas do acordo.

Houaiss não viveu para acompanhar, pelo menos, a possibilidade do acordo virar realidade. A pressão contra o acordo tem o acréscimo de uma polêmica, depois da decisão de um procurador do Ministério Público Federal, em Uberlândia, Minas Gerais, de ordenar a apreensão do dicionário que tem o nome do filólogo. A queixa é a de usar expressões pejorativas para a palavra cigano.

A questão parece ser uma letra morta, termo da área de Direito quando o assunto já não tem mais sentido. A editora do dicionário esclareceu que a edição que tinha a conotação criticada está esgotada desde 2009 e está fora das mais recentes, da forma considerada pejorativa.

A questão do acordo é diferente. A tendência é que vire letra morta, mesmo com a adesão, principalmente, em muitas universidades portuguesas e a incorporação à rotina dos meios de comunicação, exceto pelo desejo dos mais puristas, que defendem a ideia de “uma língua portuguesa europeia”. A tendência é que o acordo ortográfico acabe levando chumbo – palavra usada em Portugal com o sentido de reprovação. Salvo outra ação, o que não é mais possível para Houaiss.

*Jornalista, Professor da Faculdade de Comunicação da UFBA, vive em Covilhã, Norte de Portugal, onde cursa Doutorado em Comunicação. Escreve conforme o acordo, naturalmente, com o uso de corretor ortográfico

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