O Paço Arquiepiscopal e a Baia de Todos os Santos
Foto:Ernesto Marques

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A BELA E A RUÍNA QUE ENXERGO DAS JANELAS DA ABI

Luis Guilherme Pontes Tavares*

Do alto do Ranulpho Oliveira, edifício construído na década de 1950 para ser a sede da Associação Bahiana de Imprensa, localizado na esquina da Guedes de Brito com a Praça da Sé, vê-se muito bem, sobretudo se o observador estiver na varanda do oitavo andar, a bela Baía de Todos os Santos. Há problemas naquele azul encantador… Antes do olhar alcançar o mar, há, no trajeto, o Paço ou Palácio Arquiepiscopal. Ali o problema é mais gritante. Sua imponência não disfarça a ruína que pouco a pouco abate os quatro andares do prédio.

Valho-me do precioso volume 1, dedicado aos monumentos de Salvador, do Inventário de Proteção do Acervo Cultural (Salvador: SIC, 1975), pesquisa e publicação coordenadas pelo arquiteto Paulo Ormindo Azevedo, professor da Faculdade de Arquitetura da UFBA e membro da Academia de Letras da Bahia (ALB) para transcrever alguns dos dados sobre o Paço que estão nas páginas 209-2011 da obra: trata-se de imóvel da primeira metade do século XVIII, tombado pelo Iphan sob o número 124 do Livro de Belas Artes, folhas 22, desde 17 de junho de 1938.

A publicação de 1975 informa que as últimas obras de conservação do Paço foram realizadas na década de 1960 e relata que o Paço foi concluído em 1715 – caminha para completar 300 anos; que em 1855 foi restaurado e pintado; que na primeira metade da década de 1940, o Paço foi objeto de algumas obras, inclusive no telhado, e que isso voltou a acontecer em 1958. Em 1962 houve início de incêndio e a instalação elétrica foi revista. Em 1964 houve “caiação externa, pintura de esquadrias e limpeza de cantaria”. Em 1974, quando o imóvel foi vistoriado pela equipe do arquiteto Paulo Ormindo de Azevedo, a cobertura (telhado) apresentava-se num estado de preservação satisfatório.

Quem esteve no interior do prédio nos últimos dias pode constatar que o telhado está reclamando reparos e há sérios problemas de infiltração atingindo paredes e assoalhos (de madeira nobre e rara). O imóvel está fechado e descuidado há tempo. Ali funcionava as repartições da Secretaria Eclesiástica, incluindo o grande e precioso Arquivo da Cúria, que foi transferido para a Universidade Católica de Salvador sob o argumento de que os livros de registro careciam de restauração. Pesquisei neles quando ainda estavam no Paço Arquiepiscopal. Desde que foram dali retirados, não os consultei mais.

Logo após a saída do Arquivo da Cúria, foram-se as demais repartições para prédios construídos pela Arquidiocese no amplo terreno das Doroteias, no Garcia. Os antigos ocupantes do Paço não mais contemplam dali o mar. Relembro-lhes, conforme o volume 1 do Inventário, o que perderam: “Dos seus salões, domina-se grande extensão da Baía de Todos os Santos”. O texto esclarece que “o edifício foi desambientado com a demolição da antiga Sé, com a qual se ligava por passadiço elevado, e quarteirões que deram lugar à Praça da Sé em 1933”. Apesar dessas considerações, o Paço integra o conjunto sob tombamento da Unesco. É Patrimônio Mundial.

O Inventário descreve o Paço assim: “ “Edifício de notável mérito arquitetônico. Construído em torno de um pátio, (…) possui um sub-solo e três pavimentos sobre a rua. O 2º andar, pavimento nobre, possui janelas de púlpito com balcões de ferro e forros em caixotões do tipo que foi comum até a primeira metade do século XVIII. Em dois lados do pátio no 1º e no 2º andares existem galerias envidraçadas que deveriam ser, originalmente, simples varandas. O edifício possui belo portal de mármore português culminado por brasão com armas de D. Sebastião Monteiro de Vide, quando Cônego. Possui telas, dentre as quais se destacam os retratos de Pedro I e II (adolescente), D. Maria Cristina e vários pontífices romanos e arcebispos da Bahia”. É natural que questione: como estarão esses quadros? E os móveis de época? Onde estão?
Enquanto olho o Paço, descuidado, com suas janelas semi-abertas, com a vegetação crescendo em torno e nas paredes seculares, lembro do desapego da nossa Igreja quando não vacilou no negócio que fez há alguns anos com a residência do arcebispo no Campo Grande, hoje Mansão dos Cardeais. Os cardeais moram em outro lugar. Moram no Condomínio Pedra da Marca. Longe de fazer qualquer reparo, mas as providências sugerem que houve mais uma opção por César do que por Deus, sobretudo numa ora tão difícil para a Igreja Católica Apostólica no Brasil. Que outro examine melhor a questão patrimonial da Igreja Romana na terra do velho Cosme de Farias.
Para encerrar e voltando o olhar desde a Baía e o Paço para o interior da Associação Bahiana de Imprensa, impossível esquecer a ajuizada ponderação do 1º vice-presidente desta instituição, jornalista Ernesto Marques, quando pondera que a preocupação da ABI com relação ao Centro Antigo e seus monumentos deve priorizar o Edifício Ranulpho Oliveira, cinquentão que reclama cuidados com as redes hidráulica e de energia e outros. Que assim seja. Aceitemos, no entanto, que das janelas da ABI e, sobretudo, da varanda do oitavo andar, só o bruto e o cego não enxergam o azul da Baía e somente os olhos deles não marejam com o triste quadro do Paço Arquiepiscopal.
Que tal restaurá-lo e transferir para lá o Arquivo Público do Estado da Bahia?

* Jornalista, produtor editorial e professor universitário. É diretor de Cultura da ABI.

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