http://youtu.be/XDtAUiTRzac

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DEU NA FOLHA DE S. PAULO

Em nome de Amélia

Joao Santana

Amélia é uma injustiçada; há algo mais ‘feminista’ e poético do que uma mulher preferir fazer amor com o seu marido do que gastar o dinheiro dele?

Na história das sociedades, sempre existiram personagens injustiçados. A injustiça é uma coisa às vezes misteriosa de produzir e nem sempre fácil de explicar.

A pior das injustiças é a que petrifica uma personagem em um bloco de gelo histórico que nunca derrete. Isso acontece quando um equívoco é tão fortemente construído que não só congela a vítima como qualquer voz que se levante em sua defesa.

Nessa moldura, a mulher mais injustiçada da nossa história é, sem dúvida, Amélia. Sim, ela mesmo, a mulher de verdade.

Essa genial criação de Mario Lago, maquiada com maestria por Ataulfo Alves, transformou-se, por força de uma leitura equivocada, no símbolo mais popular da mulher burra e submissa.

Difícil saber quem produziu esse monstruoso equívoco. Impossível continuar repetindo este absurdo.
Basta ouvir a canção, sem preconceito, para ver que Amélia é exatamente o contrário do que falam. Ela é vítima de uma campanha negativa que precisa ser destruída. Trata-se de um bom tema para ser discutido na semana do Dia Internacional da Mulher.

Quem, em sã consciência, pode encontrar na letra de “Ai, que saudades da Amélia” a descrição de uma deusa estúpida e cativa?

A canção começa com o amado ressentido, dizendo, em tom quase pungente : “Nunca vi fazer tanta exigência/ nem fazer o que você me faz/ você não sabe o que é consciência/ nem vê que eu sou um pobre rapaz”.

As duas palavras-chaves (exigência e consciência) e a expressão humilde e igualitária (pobre rapaz) já insinuam o sentido verdadeiro da queixa-revelação.

Segue adiante: “Você só pensa em luxo e riqueza/ tudo que você vê você quer/ ai, meus Deus, que saudades da Amélia/ aquilo sim é que era mulher”.

Peraí. Não estaria o amado a criticar, com toda a razão, a sua mulher atual, que é frívola, dependente e consumista?

Não estaria criticando, sem nenhum sotaque machista, uma mulher que poderia, hoje, “brilhar” no reality show “Mulheres Ricas”?

Como essa mulher frívola e bizarra venceu, no imaginário brasileiro, a figura solidária, carinhosa e sensual de Amélia?

Amélia “às vezes passava fome ao meu lado/ e achava bonito não ter o que comer” e “quando me via contrariado, dizia ‘meu filho, o que se há de fazer?'”.

O que é mais “feminista” e maravilhosamente poético? Passar fome, lutando de forma solidária e independente ao lado do amado, sendo seduzida e sedutora, sempre capaz de convidá-lo, sutilmente, para saciar no sexo a fome do estômago (é isso que está embutido no verso “o que se há de fazer?”) ou, ao contrário, fazer compras com o dinheiro do marido, em vez de fazer amor, com muito gosto e prazer, com ele?

O que é mais “moderno” e mais pop? Ser naturalmente bela, sem a “menor vaidade”, ou ser uma megera neurótica, opressora, perdulária e exigente?

Já está na hora de as mulheres e de os homens brasileiros recolocarem a maravilhosa Amélia no seu devido lugar: o nosso panteão de musas. Vamos erguer, hoje, um brinde a esta mulher de verdade e pedir perdão pelo que fizeram, injustamente, com sua memória.

JOÃO SANTANA, 59, é consultor político. Foi coordenador de marketing das campanhas de Lula (2006) e Dilma (2010), entre outras. É também compositor popular

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Comentários

Cida Torneros on 6 Março, 2012 at 11:17 #

Ahhhhhhhhhhh, João…
tudo bem que a canção é linda e antológica..marcante, até…mas….. passar fome por amor? Amélia era uma mulher que se submetia a um tempo que não voltará jamais..queridoooooo…rs
mesmo com todo amor, o mundo moderno é de mulheres que correm atrás da grana e do sustento… vaidade é até dispensável, mas amor próprio, hummmm…e amor ao seu homem, claro, mas tudo com a devida cautela de se colocar pingos nos is e amores nos corações emancipados, lúcidos, dadivosos porém conscientes da abolição do machismo..rs.. amor de Amélia é bom, sim, mas amor de mulher livre e segura é melhor, creia! não dói no bolso e nem na cabeça…rs
é amor fiel a si mesmo… mulher que ama de verdade, divide conta, nem se importa, mas respeita e é respeitada, tem projeto de vida, ancora, ampara, se apoia e se aconchega, tudo no seu momento exato, viu? um abraço !


luiz alfredo motta fontana on 6 Março, 2012 at 11:25 #

E por falar em amor sustentável…

Aqui minha interpretação dos fatos:

Sambinha politizado (De como João perdeu Maria)

(luiz alfredo motta fontana)

E aí João?

– O que manda irmão?

Maria te deixou?

– Na mão, de vez…

– e sem violão.

Como pode acontecer?

– Tinha de ser

– Maria era politizada.

Traduz prá mim!

– só acreditava em amor

– com cláusula expressa

– de sustentabilidade

E agora João?

– Vida segue José!

– Perdi o mandato

– mas não perdi a fé!

Perdeu de fato

mas não se abalou

buscou no refrão

o que lhe faltou

– Amor assim

– requer menos paixão

– Amor sustentável

– Social e acabado

– Não foi feito prá mim!


vangelis on 6 Março, 2012 at 12:43 #

Patinhas é o cara que deve mesmo entender de mulheres, afinal, já se casou com umas dez…


Mariana Soares on 6 Março, 2012 at 19:26 #

Cida querida, concordo total e absolutamente com você! Amélia só é bela mesmo na música! As mulheres do nosso tempo são companheiras, amigas, amantes, namoradas, mas cada uma tem a sua propria profissão, luta diariamente pelo seu sustento e conforto, não há nada de submissão nas nossas relações amorosas – independencia é o nosso nome. E quando nos encontramos com o nosso amado é pura delicia porque cada o que nos une a ele é o amor, o desejo e a alegria de estarmos juntos, e não contas a pagar ou dever. Os homens que tem mulheres independentes ao seu lado, e vice-versa, tem muito mais a comemorar e ser feliz.


regina on 6 Março, 2012 at 20:50 #

De 1942 pra cá, muita agua já rolou por debaixo da ponte… As “Amélia” ainda existem, mas são poucas… Nós mulheres queremos ser parceiras, cúmplice, em tudo… Sabemos que não podemos ficar lamentando o amor que não vem, partimos pra luta, fomos conquista-lo assim como o pão de cada dia. Qual o homem que não se sente feliz ao lado de uma companheira que é plena na entrega como no recebimento? Na cumplicidade não existe medo, apenas confiança e entrega, pois ser cúmplice de uma pessoa é ser amiga, companheira, complemento. Queremos harmonia, na cama, mesa e chão…


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