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Caetano Veloso: “Mesmo que fosse preciso abrir um processo judicial – e que esse processo obrigasse a empresa a pagar indenização – eu não ia querer ficar com um só centavo que viesse daí”/ Terra Magazine

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DEU NA REVISTA DIGITAL TERRA MAGAZINE

Claudio Leal

Em entrevista exclusiva a Terra Magazine, o compositor Caetano Veloso se manifesta sobre o uso do nome e das canções da Tropicália num condomínio de luxo da construtora Norberto Odebrecht, no bairro de Patamares, litoral de Salvador. Além de Caetano, Tom Zé, Gilberto Gil e os herdeiros de Hélio Oiticica avisaram à empreiteira baiana, parte de uma das maiores holdings do Brasil, que não aceitam a homenagem.

– Nunca fiz anúncio de artigo comercial. E me chocou que houvesse esse empreendimento da Odebrecht, usando o nome Tropicália. Fui olhar no site deles e lá estava meu nome e o de Tom Zé como líderes do movimento que o condomínio supostamente homenageava – diz o artista, por e-mail.

A Odebrecht é acusada de fazer “uso comercial” do ideário do movimento artístico irrompido nos anos 60. Após uma notificação de Caetano, a empresa respondeu que o nome “não deixará de ser utilizado, ficando V.Sa. devidamente notificado que será responsável por todos os danos, materiais e morais, que possam vir a ser causados por ação judicial indevidamente proposta”.

O tom intimidatório estimulou o surgimento de outras notificações de tropicalistas. Sem acordo, a questão deve parar na Justiça. Em entrevista a Terra Magazine, o músico Gilberto Gil reafirmou sua solidariedade ao companheiro geracional: “Caetano tem toda razão. Há essa volúpia da apropriação, da agregação de valor indiscriminada, utilizando tudo que possa estar à mão, sem nenhum critério de respeito”. Caetano ressalta que não quer ser indenizado pela Odebrecht:

– Prefiro apelar para o bom senso de executivos da Odebrecht, uma empresa baiana, pedindo que retirem os nomes do movimento e das canções a ele ligadas. Não quero dinheiro nenhum deles.

Segundo a assessoria da empresa, “o objetivo da Odebrecht Realizações Imobiliárias foi o de referendar um importante movimento artístico, de grande representatividade na Bahia e no Brasil”. Para isso, “foram feitas as devidas consultas prévias ao INPI, órgão competente, e ficou constatado que não há impedimento para o uso do nome ‘Tropicália’ em um empreendimento imobiliário”.

– Se a construtora queria de fato referendar o movimento tropicalista deveria começar por respeitar a vontade de seus criadores – reage Caetano Veloso, que também é crítico do modelo de expansão urbana de Salvador.

Terra Magazine – Depois de sua notificação contra a Odebrecht, Tom Zé e Gilberto Gil decidiram tomar o mesmo caminho e afirmar à empreiteira que não consideram como “homenagem” o uso do nome “Tropicália” num condomínio de luxo. Qual a essência de sua crítica ao empreendimento?

Caetano Veloso – Os herdeiros de Hélio Oiticia também se manifestaram, notificando a empresa. Eu não tinha nenhum conhecimento da existência de tal projeto até que recebi proposta de uma agência de publicidade para usar “Alegria alegria” num anúncio do condomínio. Nunca fiz anúncio de artigo comercial. E me chocou que houvesse esse empreendimento da Odebrecht, usando o nome Tropicália. Fui olhar no site deles e lá estava meu nome e o de Tom Zé como líderes do movimento que o condomínio supostamente homenageava. Além disso, as palavras “Alegria”, “Divino”, “Maravilhoso” nomeavam prédios e áreas do empreendimento. Assim, minha crítica inicial era à atitude da empresa, que tinha tocado um projeto todo fincado nos elementos do nosso trabalho. Não sou crítico de arquitetura nem de urbanismo. Mas todos nós, moradores de cidades, temos o direito – e até o dever – de comentar o que se constrói na área urbana. Não simpatizo com condomínios fechados. Sei que questões de segurança e mesmo do espírito do tempo (em que se tende a imitar cidades americanas com seus “subúrbios” exclusivos) levam as construções urbanas a tomarem certas orientações. Nada me levaria a reclamar de público contra esse exemplo baiano, de que sei tão pouco, se não fosse um uso comercial de referências diretas a trabalhos meus e de meus companheiros da Tropicália.

A empreiteira afirma que desejou “referendar um importante movimento artístico” e que “não utilizou, tampouco sugeriu nem autorizou o uso dos nomes dos integrantes do movimento para promover o empreendimento”. Como você avalia essa tentativa de referendar o tropicalismo? Alguém lhe procurou antes da homenagem?

Ninguém me procurou. E o fato é que meu nome, juntamente com o de Tom Zé, estava no site do condomínio. Se a construtora queria de fato referendar o movimento tropicalista deveria começar por respeitar a vontade de seus criadores. Já dissemos, de público e em notificações enviadas a ela, que não queremos os nomes de nossas obras vinculadas a um mega empreendimento comercial.

A questão de fundo é a explosão imobiliária em Salvador, inclusive sobre áreas verdes da cidade. Como você vê essa explosão urbana descontrolada?

Vejo com preocupação a irracionalidade do crescimento de Salvador. No verão, o prefeito assinou lei liberando gabarito na Orla. Me coloquei claramente contra. Sei que o condomínio que querem batizar de Tropicália está sendo construído junto ao parque de Pituaçu, uma reserva florestal bonita e importante. Não sei se isso põe a reserva em risco. Mas minha reação ao empreendimento nasceu da total desatenção dos seus responsáveis para com os artistas cujo trabalho vem sendo usado para promovê-lo.

Na internet, os habituais ataques de anônimos, que tentam estigmatizar os tropicalistas, dizem que o que se quer é dinheiro da construtora. Por causa desse tipo de leitura, você decidiu não pedir indenização da Odebrecht, apenas exigir a retirada do nome antes de recorrer à Justiça?

Prefiro apelar para o bom senso de executivos da Odebrecht, uma empresa baiana, pedindo que retirem os nomes do movimento e das canções a ele ligadas. Não quero dinheiro nenhum deles. Mesmo que fosse preciso abrir um processo judicial – e que esse processo obrigasse a empresa a pagar indenização – eu não ia querer ficar com um só centavo que viesse daí. Se a solução do problema passasse por dinheiro seria fácil solucionar: dinheiro é o que não falta à Odebrecht. Mas não quero dinheiro para autorizar o uso de minha obra.


( Leia mais sobre o assunto da revista digital Terra Magazine –

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