Tropicalia:nome de empreendimento da Odebrecht…


…reune Tom Ze e Caetano Veloso em protesto

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DEU NA REVISTA DIGITAL TERRA MAGAZINE

Claudio Leal

Os tropicalistas voltaram a se reunir num enfrentamento com a construtora baiana Norberto Odebrecht, que decidiu “homenagear” a Tropicália no batismo de um condomínio de luxo em Patamares, no litoral de Salvador, próximo ao parque ecológico de Pituaçu. A Odebrecht é acusada de fazer “uso comercial” do ideário do movimento artístico irrompido nos anos 60, associando-o à explosão imobiliária que muda o perfil da orla atlântica e que atinge áreas verdes da primeira capital do País.

Depois de Caetano Veloso, crítico do crescimento desregulado de Salvador e primeiro a reagir à Odebrecht, o compositor Tom Zé emitiu uma notificação, avisando à empreiteira que não aceita a homenagem. Os nomes dos idealizadores da Tropicália chegaram a ser usados para promover a venda dos espigões.

– …Manifesto-me aqui, como membro do movimento tropicalista e artista da música brasileira, para requerer aos senhores que cessem o uso indevido dos nomes das obras artísticas que foram e são referência no cenário artístico nacional e internacional, posto que tal uso, além de não autorizado, vai contra toda a filosofia desse movimento, cujos participantes jamais autorizariam vincular sua obra a um empreendimento imobiliário desse porte – reagiu Tom Zé, na carta.

Tom Zé é contrário à especulação imobiliária na Bahia e já criticou as mudanças no PDDU (Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano), promovidas pelo prefeito João Henrique Carneiro e pela Câmara de Vereadores.

O próximo a entrar com uma notificação é Gilberto Gil. Em entrevista a Terra Magazine, o ex-ministro da Cultura declarou apoio ao companheiro geracional:

– Caetano tem toda razão. Há essa volúpia da apropriação, da agregação de valor indiscriminada, utilizando tudo que possa estar à mão, sem nenhum critério de respeito.

As famílias de Nara Leão, Hélio Oiticica e Torquato Neto já foram procuradas por Caetano Veloso, que também falaria com Rita Lee. A reação dos tropicalistas à Odebrecht deve se desdobrar na Justiça.

Em nota enviada às 19h17 desta segunda-feira, a Odebrecht se pronunciou sobre a polêmica:

“Nota de esclarecimento

O objetivo da Odebrecht Realizações Imobiliárias foi o de referendar um importante movimento artístico, de grande representatividade na Bahia e no Brasil. Foram feitas as devidas consultas prévias ao INPI, órgão competente, e ficou constatado que não há impedimento para o uso do nome ‘Tropicália’ em um empreendimento imobiliário. Vale destacar ainda que o termo Tropicália figura como nome de vários produtos, serviços e estabelecimentos no pais. Por fim, é importante ressaltar que a OR não utilizou, tampouco sugeriu nem autorizou o uso dos nomes dos integrantes do movimento para promover o empreendimento.”

Terra Magazine apurou que Caetano soube da homenagem através de e-mails enviados por amigos, que brincavam com o uso da música “Tropicália” num empreendimento da Odebrecht. O compositor não permite a manipulação de sua obra para fins comerciais.

O empreendimento de luxo oferece vista para o mar e para a lagoa do Parque de Pituaçu. As coberturas das torres, com 305,96 m², contam com quatro suítes, gabinete e quarto de empregada, além de vagas para veículos. “Se este lugar fosse uma canção, o refrão seria: Viver, Viver, Viver”, diziam os folhetos promocionais. Ou: “Onde o Divino encontra o Maravilhoso”.

Em seguida à primeira notificação extrajudicial de Caetano, a construtora respondeu que manteria o nome, originário de uma obra de Helio Oiticica, e que estava amparada numa consulta ao Inpi, órgão responsável por marcas e patentes. Caetano se indignou com o tom do documento, que não deixava de ameaçá-lo de processo, caso insistisse na querela. Terra Magazine obteve uma cópia da contra-notificação da Odebrecht:

“Desta forma, a Notificada esclarece não existir qualquer uso da imagem de V.Sa., ou de título de obra de sua titularidade protegido nos termos da legislação autoral (ou de propriedade industrial) e, consequentemente, inexistir qualquer indenização devida. Com relação ao uso da expressão ‘Tropicália’, pelos motivos apontados, o mesmo não deixará de ser utilizado, ficando V.Sa. devidamente notificado que será responsável por todos os danos, materiais e morais, que possam vir a ser causados por ação judicial indevidamente proposta”, avisaram os advogados da empreiteira.

Incomodado com o tom intimidatório, Caetano está decidido a ir até o fim na Justiça, sem exigir qualquer indenização, apenas a retirada da “homenagem” ao movimento tropicalista.

Em sua coluna no jornal “O Globo”, o autor da canção “Tropicália” afirmou que, em respeito à memória de Nara Leão, tentará dissuadir a Odebrecht de recorrer à imagem do movimento de contracultura no batismo dos oito prédios luxuosos. “Um condomínio fechado, como parte do modo desregulado como vem se dando o crescimento da Cidade do Salvador, não condiz com nosso trabalho: nem o meu, nem o de Tom Zé, nem o de Gil, nem o de Rita, nem o dos irmãos Baptista, nem o de Duprat – nem o de Nara”, sustentou o tropicalista.

“Salvador, que teria tudo para ser uma joia, deve ao menos poder manter suas praias ao sol”, acrescentou Caetano, que também denunciou o risco de os espigões projetarem sombra na areia.

LEIA MAIS SOBRE O ASSUNTO NA REVISTA DIGITAL TERRA MAGAZINE

http://terramagazine.terra.com.br

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Comentários

vangelis on 28 Fevereiro, 2012 at 9:22 #

Aí Danilo, sua marca “Salvador Shitty”, Soterópolis já é um grande favelão, numa vista aérea os edifícios se parecem mais com um verdadeiro paliteiro cercado de barracos de tijolos sem rebocos. Um dia não sobrará nem os terreiros de candomblé, tudo virará edifício. No Terra Magazine há um artigo do gigante Antonio Risério chamado Reflexões sobre a cidade, sobre um livro do jovem Professor de Economia de Harvard Edward Glaeser, que serve um pouco para entender porque as cidades se transformam, como a força da grana interfere no bem estar de uma província. Pessoalmente não tenho nenhuma simpatia pela tese do Prof.Glaeser que é eminentemente econômica pelo adensamento das cidades, mas, o artigo do gigante Risério serve para trazer aos leitores reflexões.
A propósito, fico com o mano Caetano que já cantava:
“Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas.
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas…”
Por isso, menos economistas e mais poetas!!!


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