fev
27


“O Artista”: Jean Dujardin, grande vencedor, beija estatueta do Oscar
================================================

DEU NO JORNAL PUBLICO (LISBOA)

Por Luís Miguel Oliveira

Com “O Artista” e “A Invenção de Hugo” entre os favoritos, a noite da festa de entrega das estatuetas do Oscar abriu o caminho para uma viagem ao passado. “O Artista”, mistura de filme mudo em homenagem a Hollywood dos anos 20 e a época do cinema propriamente mudo, e “A Invenção de Hugo”, evocação “high-tech”, CGI & 3D daquele, Georges Méliès de seu nome, que com os irmãos Lumière foi o mais importante pioneiro da história do cinema, davam a senha da noite do cinema: “nostalgia”.

Os orientadores e demais pensadores da cerimónia de entrega das estatuetas desperdiçaram a oportunidae, e usaram-na até para os pormenores – por exemplo na maneira de anunciar os nomes e os títulos indicados para cada premio, em “lettering” ao estilo de um intertítulo de cinema mudo. Certo: a “nostalgia” marca presença em todas as cerimónias do Oscar, periodo em que Hollywood se sente na obrigação de reconhecer a sua própria, e riquíssima, história. Desta vez, ainda mais do que noutros anos, contudo, ficou a sensação de que essa história é um fardo, de evocação até algo desadequado numa cerimónia que tem por objetivo a promoção de filmes novos de qualidade frequentemente duvidosa.

Os “clips” da praxe, e uns bailaricos vagamente alusivos a uns quantos filmes de outras eras – coisa que estava para esses mesmos filmes assim como, sei lá, os “naperons” com A Última Ceia bordada estão para o quadro de Leonardo da Vinci. É “kitsch”, é folclórico – mas Hollywood tem este drama de não encontrar outra maneira de olhar para o seu passado, a que de resto a aclamação de “O Artista” não é fenómeno totalmente alheio.

Também por isso, pareceu uma cerimónia longa e, no entanto, apressada, tendência que todos os anos se acentua e resulta de um esforço frenético para manter os espectadores agarrados ao canal emissor – mas se a cerimónia, como espetáculo televisivo que é, se transformou numa batalha audiométrica (Oprah Winfrey, que fez filmes mas é uma figura da televisão, teve porventura a mais sonora ovação da noite…), não estará aí uma boa razão para repensar aquilo tudo de alto a baixo? É que precisava, e já nem Billy Crystal, de regresso à condução da cerimónia após oito anos de ausência, safa aquilo sozinho. Passaram por ele, pelo seu texto e pelos seus ad-libs, no entanto, as mais curiosas alusões a uma série de contradições do momento presente, espelhadas também no registo evocativo dos filmes de Hazanavicius e Scorsese. Mormente a transformação tecnológica em curso (ou já praticamente terminada), a passagem da “idade da película”, que se manteve relativamente estável por mais de um século, à “idade do digital”, transformação que é por certo a mais significativa desde, justamente, a chegada do sonoro. Uma alusão à falência da Kodak (“o auditório ‘Chapter Eleven’), e mais tarde, depois de um clip de um dos filmes mais famosos de Crystal (o “When Harry Met Sally” de Rob Reiner), esta frase que soou mesmo como uma “bucha”: “you know, that movie was actually shot in film”. A sala não tugiu nem mugiu, e o pobre Billy, por segundos, pareceu um homem completamente sozinho.

E os prémios? Bom, os prémios foram, de um modo geral, repartidos entre “O Artista” e “A Invenção de Hugo”, que levaram cinco estatuetas cada um. O filme de Scorsese arrancou melhor, porque ganhou sobretudo nas discutivelmente chamadas “categorias técnicas” – mistura de som, efeitos visuais, montagem, direção artística e fotografia (ou “cinematografia”, na expressão inglesa, em qualquer caso designação que devia ser revista, chamar-lhe “imagem” por exemplo, porque o cinema resulta cada vez menos de um processo fotográfico).

“O Artista” não perdeu com a espera: estavam-lhe reservados três dos mais nobres óscares, melhor filme, melhor realizador, melhor ator (Jean Dujardin), a que se juntaram os prémios para guarda-roupa e partitura original. Foi, portanto, o “triunfador” da noite. A estatística diz que foi o segundo filme mudo a ganhar um óscar de melhor filme, depois do “Wings” de William Wellman na inaugural cerimonia de 1927. Mas a estatística é incapaz de perceber a diferença entre um filme mudo e um filme que finge que é mudo (e nem finge até ao fim).

Be Sociable, Share!
Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • Fevereiro 2012
    S T Q Q S S D
    « jan   mar »
     12345
    6789101112
    13141516171819
    20212223242526
    272829