Estacion Once: o socorro às vitimas…

..depois da tragédia no centro de Buenos Aires
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ARTIGO DA SEMANA

ONCE: ENCANTO E DOR EM BUENOS AIRES

Vitor Hugo Soares

“Estacion Once”. A placa em azul e branco identifica o local da maior tragédia ferroviária dos últimos 80 anos na capital da Argentina – 50 mortos, mais de 700 feridos e inúmeros desaparecidos, quando escrevo este artigo. Este é o detalhe primeiro a me chamar a atenção no meio das imagens transmitidas para o mundo, direto do cenário de espanto, dor, negligência e indignação na cidade amada da América do Sul.

Em tantas passagens por Buenos Aires, desde o começo dos anos 70, não preciso puxar muito pela memória e sentimentos para descobrir razões. Não é esta a primeira vez que vejo a placa da estação ou que ouço falar no “Once”, bairro frenético e original, do centro comercial da capital portenha, onde o trem do sistema de transportes urbanos saiu dos trilhos e chocou-se contra a plataforma de passageiros na quarta-feira(22) .

A partir do Once – em um hotel (Monumental) do bairro, próximo da estação, fiquei hospedado na viagem de descoberta de Buenos Aires – em companhia do querido amigo e compadre Pedro Milton de Brito (advogado precocemente falecido) caí de amores pela cidade à beira do Rio da Prata. Devo lembrar que o famoso e movimentado bairro de maioria judaica então – hoje também ocupado por grandes comunidades peruanas e coreanas – é o território de outra grande tragédia na Argentina: o atentado contra a sede da AMIA, que destruiu um quarteirão inteiro do bairro e deixou mais de 90 mortos e um rastro de omissão e impunidade que atravessa o tempo desde a manhã de 18 de julho de 1994.

No caso do trem esta semana, no começo da manhã de quarta-feira, não se conhecem ainda causas ou motivos do desastre, mas já é claramente possível perceber a movimentação frenética e troca de farpas de governos (federal e provincial), burocratas, políticos e poderosos empresários argentinos, vinculados ao setor de transportes e ao poder. Motivo: Jogar a culpa de tudo sobre os ombros do maquinista da locomotiva.

Em situações assim, Argentina e Brasil se parecem muito. Buenos Aires destes dias finais de fevereiro é muito semelhante, por exemplo, com o Rio de Janeiro dos desabamentos de prédios do centro da Cidade Maravilhosa nos primeiros dias deste ano. Quando a questão é fugir das respectivas responsabilidades e apontar culpados do lado mais frágil da corda, todos se assemelham. É só comparar.

Diana Cohen Agrest, uma respeitada filósofa e ensaísta que escreve, semanalmente, na página de Opinião do Jornal La Nacion, lembra de uma peça publicitária oficial recente na Argentina. A propaganda assinala, a propósito de outro desastre ferroviário recente: “Se é possível evitar não é um acidente”.

É evidente que o horror desta semana na Estacion Once poderia ter sido evitado. Para ser conseqüente com a advertência em pauta, então não foi “um acidente” o que aconteceu em Buenos Aires. E se não foi um acidente se deve buscar a causa de tanta dor e punir exemplarmente quem tem culpa no caso. A partir desta constatação, a ensaísta de La Nacion mete o dedo no tumor:

“Nesse horror inefável e em um instantâneo reflexo condicionado autoprotetor, se invocaram os fatores humanos, chamem-se “imperícia”, “imprudência”, “negligencia”. Em qualquer caso, a figura legal pretendeu condensar o erro em quem costuma ser o elo mais débil da cadeia de responsabilidades”, escreveu Diana Cohen.

Na Argentina e no Brasil, vê-se, é tudo igual ou bem parecido, não? Em outros lugares também, mas isso não dá para resumir nestas linhas. Importa aqui e agora denunciar a tentativa de, a título de responsabilidade individual, jogar toda culpa nos ombros do maquinista portenho, que ontem seguia hospitalizado. De novo é preciso reproduzir as palavras lúcidas da comentarista do importante jornal argentino, que tem denunciado ser vítima de perseguições políticas e financeiras por parte do governo justicialista de Cristina Kirchner:

“Invocar a responsabilidade individual – a que caberia ao condutor do trem – resultou claramente em um ato de injustiça. Mais ainda quando se teve em conta um único fim: desconhecer a série de falhas estruturais de todo um sistema diluindo a responsabilidade empresarial ante os danos causados por uma multiplicidade de fatores que dificilmente poderiam ser reduzidos a um ato pessoal. Porque é sabido que a noção de responsabilidade individual se dilui no contexto das ações coletivas ou, neste caso, onde se jogam interesses empresariais: cumprir com os compromissos contratuais de investir, renovar, controlar e manter as unidades (do sistema de transportes), dispara Diana para acertar bem no alvo.

O governo de Cristina Kirchner reage e afirma através de seu ministro dos Transportes: “Não haverá proteção para ninguém”. Vamos esperar e conferir depois, quando amainar a dor e passar o horror de mais esta tragédia portenha. Enquanto isso reservo minhas últimas palavras do texto para recordar com emoção e saudade de meu primeiro território de paixão por Buenos Aires e a gente que habita essa cidade que tanto quero: O bairro Once.

O mais movimentado e popular distrito comercial no centro da capital portenha, que deve seu nome à monumental estação ferroviária 11 (Once) de Septiembre, que vi pela primeira vez nos anos 70 de plena liberdade política e cultural por lá e de ditadura braba nas bandas de cá. Dava gosto ver, andar e comprar, que ninguém é de ferro, nas ruas do Once.

Agora revejo a “Estacion Once” na imagem da placa mostrada na televisão, no noticiário sobre o desastre, e sinto tristeza, indignação… e muita saudade.

“Vida que segue”, diria João Saldanha,

Vitor Hugo Soaresé jornalista – E-mail: vitor_soares1@terra.com.br

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