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DEU NA REVISTA DIGITAL TERRA MAGAZINE

AS CORDAS E O CARNAVAL

Paulo Miguez

De Salvador (BA)

As cordas não são uma invenção recente do carnaval baiano. Existem, por aqui, desde muito tempo. Eram usadas por praticamente todas as entidades carnavalescas, ao menos por aquelas que participavam dos concursos que premiavam os melhores do carnaval. Por um lado, garantiam uma certa uniformidade durante o percurso pela Avenida, por outro, sinalizavam algum grau de organização da entidade.

As cordas não só eram utilizadas por blocos, batucadas e afoxés como chegaram a batizar um tipo de grupo carnavalesco, os “cordões”, nome dado a grandes batucadas e blocos, uma categoria que fazia parte, inclusive, do concurso de entidades carnavalescas. Desapareceram por volta da metade dos anos 1970, quando a juventude negromestiça que “saía” nos “cordões” migrou em peso para os Blocos Afro que acabavam de criar. Lembro do “Cordão Carnavalesco Vai Levando”, imenso, uma potente orquestra de percussão e sopro, os homens trajando bermudas e camisas coloridas, com toalhas de rosto penduradas no pescoço, agitando pequenas sombrinhas, também coloridas, daquelas com que se dança o frevo no carnaval pernambucano.

Sem cordas, só o Bloco do Jacu. Criado ainda na década de 1960 por jovens das classes médias de Salvador, tornou-se famoso pelo seu slogan: “Não tem corda porque tem coração”. Um slogan que, pela diferença que celebrava, confirma a existência das cordas na cena carnavalesca já lá atrás.

Mas as cordas, agora, são outras. Mudaram radicalmente o seu sentido original. Já não são utilizadas para juntar os que desfilam; servem para separar os que pagaram dos que não pagaram pelo direito de “sair” no bloco. Foram, portanto, reinventadas como negócio.

É que no carnaval afro-elétrico-empresarial que se desenvolveu a partir dos anos 1980, as cordas passaram a compor a equação mercantil da festa, aí ocupando um lugar de proa. Mais que tudo, as cordas, desde então, garantem a “segurança” dos participantes dos blocos, item que rivaliza com a “alegria” na composição do produto-bloco.

Sua importância, das “cordas” e da “segurança”, no negócio dos blocos é de tal ordem que acabaram inventando outra novidade no carnaval: os “cordeiros” – antes, segurar as cordas era uma responsabilidade, regra geral compartilhada pelos membros das próprias entidades -, um exército de algumas boas dezenas de milhares de homens e mulheres pobres e desempregados que, recrutados por empresas que oferecem este serviço aos blocos, seguem, desfile afora, como um paredão humano a separar os foliões-consumidores, os dos blocos (apenas 15,5%), dos foliões-pipoca (62%, a maioria, portanto).

Uma ocupação, a dos “cordeiros”, que exercida de forma tão precária (remuneração, alimentação, equipamentos de segurança etc) acabou por levar à constituição de sindicato próprio, o Sindicorda, que atua na tentativa de garantir o mínimo de direitos a quase-escravos fantasiados de trabalhadores – lembram os escravos que durante o Entrudo carregavam em cestos e gamelas os limões-de-cheiro que serviam de munição aos “combates” travados entre si pelos seus senhores.

Pois bem, o carnaval que começou nesta quinta-feira em Salvador promete a apresentação de várias das grandes estrelas da música carnavalesca, artistas que são “puxadores” de grandes blocos, em trios elétricos fora das cordas. Generoso, Saulo Fernandes, cantor do Bloco Eva e que arriou as cordas no carnaval passado para comemorar os trinta anos de desfiles do bloco; generosos, também, os que este ano resolveram seguir o seu exemplo.

Mas, se Momo agradece tamanha generosidade, também adverte que o carnaval não pode e não quer depender de generosidades individuais para enfrentar os seus desafios, para resolver os seus problemas. A festa, como patrimônio cultural da Bahia, exige, isto sim, políticas, políticas públicas de cultura, coisa que não existe no carnaval baiano – exceção feita a alguns programas da Secretaria Estadual de Cultura, cujo melhor exemplo é o “Carnaval Ouro Negro”, programa destinado a apoiar a participação de entidades afro-carnavalescas na festa.

É óbvio que a decisão de arriar as cordas, bem-vinda, claro, nem de longe enfrenta o desafio de equacionar a questão do espaço público no carnaval. Aqui, trata-se, evidentemente, de uma mudança radical da lógica que orienta, hoje, a organização da festa. Sem que seja reformulado inteiramente o Conselho Municipal do Carnaval, hegemonizado que está pelos grandes grupos que atuam no carnaval-negócio, sem que a Prefeitura assuma as suas responsabilidades com a dimensão cultural do carnaval, formulando e implementando políticas culturais dedicadas à festa e regulando negócios e negociantes que atuam no mercado carnavalesco, não há saída.

Arriar as cordas – e só no circuito da Avenida, porque no circuito Barra-Ondina… ah!, aí nem pensar, é o filé do negócio (hotéis, televisões, celebridades), convenhamos que generosidade tem limites! – sem mexer na ordem do desfile nos circuitos é fazer um jogo de faz-de-conta, jogo do qual a Prefeitura participa consciente e irresponsavelmente. Arriam as cordas para não “arriarem” abadás, camarotes, carros-de-apoio (pra quem não é do pedaço baiano, são aqueles caminhões que seguem atrás dos trios elétricos dos blocos oferecendo serviços privados de bar, banheiro e atendimento médico e que também servem de poleiro para papagaios de piratas e sub-celebridades locais olharem de cima a “patuleia” que brinca espremida pelas cordas) etc.

Mais que generosidade, o que o carnaval espera das estrelas que inventou é que se reconheçam como súditos de Momo, como devedores da cidade e de sua folia, folia, aliás, que os fez grandes e ricos, ainda que muitos deles, aqui e ali, deixem entrever a falsa e arrogante ideia de que foram eles que tornaram o carnaval uma grande festa.

Sem isso, até a generosidade corre riscos. O risco de revelar-se uma farsa. De revelar que, no lugar da generosidade, a máscara de quem se imagina generoso esconde mesmo é o desprezo e o desrespeito pelos que não podem ou não querem pagar pela alegria carnavalesca. Com a palavra, Bell Marques, líder da Banda Chiclete com Banana, que, com bandana e sem máscara, declarou que “povão” tem mais é que agradecer aos céus pela festa que ele faz de dentro das cordas e que, aliás, a ideia de arriar as cordas este ano na Avenida não foi dele. Foi do seu patrocinador.

Paulo Miguez é doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas. Atualmente é professor do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da UFBA e coordena o Programa Multidisciplinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade (UFBA). Foi assessor do ex-ministro da Cultura Gilberto Gil e Secretário de Políticas Culturais do Ministério da Cultura entre 2003 e 2005.

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