fev
14

´==========================================

OPINIÃO POLÍTICA

O general e o Rei

Ivan de Carvalho

Não quero deixar passar em branco, ainda sobre o movimento de paralisação da PM baiana, um episódio que já foi objeto de muita notícia, muito comentário, muita conversa. Creio que ainda há uma coisinha a dizer a respeito.

Tem a ver com as avaliações ou julgamentos, que se fizeram e pelo menos até ontem ainda ecoavam na mídia, a respeito das atitudes cordiais e redutoras de tensão que o comandante da VI Região Militar, general Gonçalves Dias – cumprindo sua missão de comandar a operação de sítio da Assembléia Legislativa – adotou no dia de seu aniversário.

Não adotou por ser o seu aniversário, evidentemente. Mas porque foi um dia, no movimento grevista dos PMs, em que os dois lados, principalmente o lado oficial, dava sinais públicos de que as negociações avançavam e poderiam levar ao fim da greve. Então o general aceitou receber um inesperado bolo de aniversário entregue por um participante da greve, emocionou-se, chegando a chorar durante o abraço que acompanhou o bolo (ele estava ali sob forte tensão, assim como todos, dos dois lados, nos quais só havia irmãos de humanidade e de cidadania).

E sugeriu que os grevistas que estavam fora da linha de sítio da Assembléia fossem dormir, pois não haveria combate, tanto que nem pusera colete à prova de balas, pois sua missão ali era a de cercar, isolar a sede da Assembléia ocupada. Adotou ainda algumas atitudes que tanto podem ser chamadas de simpáticas quanto de tendentes a uma redução de tensão, permitindo entrarem alguns alimentos e água para o pessoal sitiado. Óbvio que estabelecia uma espécie de trégua sem retirada das posições, criando um ambiente psicológico mais favorável às tentativas de negociação de paz que governo e grevistas faziam em outros locais.

Mas a República tremeu nas bases e nas cúpulas. O governador Jaques Wagner não gostou, o ministro da Justiça idem e a presidente Dilma Rousseff, que certamente teria preferido encontrar generais com a disposição de espírito do general Gonçalves Dias durante o tempo em que ficou presa por causa de sua luta contra o regime autoritário, desaprovou a conduta do comandante da VI Região Militar, que, mesmo mantido no posto, deixou, pelo menos na prática, o comando das operações para seu superior hierárquico, o general comandante do Exército no Nordeste.

Uns dizem que o general se excedeu. Dizem também que ele reconheceu para o governador Jaques Wagner que se havia excedido. Dizem que ele não teve sensibilidade ou justa percepção da situação e deixou-se levar pela emoção, quando lhe caberia apenas “ser eficaz”, o que em momento algum foi por alguém demonstrado que não ocorreu. Sei que no princípio os ânimos estiveram exaltados e as tropas sitiantes atingiram vários grevistas com balas de borracha e armas químicas não letais (gás de pimenta, bombas de “efeito moral”, coisas parecidas). É que o fantasma de uma tomada do prédio à força levava os grevistas de dentro e de fora ao paroxismo.

Nesses momentos extremamente tensos, o deputado Tadeu Fernandes, do PSB (base do governo), capitão PM licenciado para exercer o mandato, teve uma atuação no “campo de batalha” que talvez haja evitado incidentes mais graves, pois foi um momento em que um grupo de grevistas tentava romper o cerco militar para alcançar o prédio da Assembléia, ocupado por outros PMs grevistas. Tadeu, inclusive, impediu o espancamento de um grevista já dominado, no chão, por dois militares. Ele defendeu o grevista com o próprio corpo e a ação cessou.

Queria assinalar só mais uma coisa. O general Gonçalves Dias não tem razões, na minha opinião, para avaliar que exagerou ou para sentir-se magoado por uma parte das reações ao seu comportamento. Que leia Matheus, capítulo cinco, versículo nove, citando Jesus: “Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus”.

Isso é bem melhor.

Be Sociable, Share!

Comentários

Olivia on 14 Fevereiro, 2012 at 7:43 #

Bravo, Ivan. Para mim, a falta de sorriso e da capacidade de se emocionar está adoecendo os membros do governo Dilma, é só reparar quantos estão doentes. Sorrir não faz mal, amigos, ajuda.


vangelis on 14 Fevereiro, 2012 at 8:55 #

Ah, se todos os generais fossem humanistas não teríamos mais guerras e nem golpes políticos. O Brasil republicano começou com o Marechal Deodoro e descambou no golpe de 64, onde nasceu politicamente a nossa “Presidenta”. Se autorizado tivesse saído o tiro de canhão nós e os jornalistas estaríamos vendo outro drama. Melhor assim com a atitude do General Pacifista.
P.S.: O Elio(sem H) Gaspari escreveu também um artigo, com ironia, sobre atitude do General sob o título:
“General do povo, não”.


danilo on 14 Fevereiro, 2012 at 14:39 #

e onde já se viu stalinista sorridente? nunca vimos a presidenta sorrindo. ela só aparece com aquele dedo em riste, que até parece os gestos do general Silvio Frota…


Deixe um comentário
Name:
Email:
Website:
Comments:

  • Arquivos

  • Fevereiro 2012
    S T Q Q S S D
    « jan   mar »
     12345
    6789101112
    13141516171819
    20212223242526
    272829