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OPINIÃO POLÍTICA

Concorrência forte

Ivan de Carvalho

Enquanto escrevo, os policiais militares decidiam sobre proposta de remuneração a ser levada ao governo e firmavam a continuidade da greve que ontem completou dez dias, período no qual, antes da noite passada, já haviam ocorrido 136 homicídios, um recorde em tempos de paz na Bahia, se é que se pode qualificar esse período de tempo de paz. A perspectiva era de que as duas reuniões de PMs poderia estender-se até a madrugada.

Enquanto eles resolvem, creio que há uma coisa que devo assinalar. Sou solidário com o povo sírio, que tem sido massacrado covardemente pela ditadura vitalícia e hereditária de Bashar al-Assad, que age sob a proteção da Rússia de Vladimir Putin, interessada em recuperar sua perdida influência geopolítica, objetivo que acabará atingindo à custa de muito sangue.

Mas o que têm a ver, perguntará o leitor, os massacres da população civil pelo exército de Bashar al-Assad, indivíduo tão simpático à diplomacia brasileira, com a greve da PM da Bahia e os 136 homicídios somente na região metropolitana de Salvador no período de paralisação quase total da corporação?

A imagem. É isto que têm a ver as duas situações.
A Bahia, com essa crise e às vésperas do carnaval, vem sendo, merecidamente, o alvo fundamental do noticiário nacional sobre violência e insegurança pública. Isso tem sido inevitável e não temos concorrência nenhuma, pelo menos por enquanto. É verdade que se fala na possibilidade de irrupção de greves nas polícias militares de alguns outros estados, especialmente Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, para citar só os mais importantes, e até no Distrito Federal. E ontem iniciava-se noticiário também sobre a possibilidade de greve nacional das polícias civis estaduais. Mas são hipóteses, perspectivas, possibilidades. Nada consumado.

Então, no país, a greve na PM baiana e seus corolários são o show. Mas fora do país a situação na Bahia tem concorrência forte, desigual, tanto pela amplitude da violência quanto pela importância política internacional da crise. É nisso que a crise síria ajuda a Bahia, atraindo para lá a maior parte do noticiário mundial sobre violência, tingindo de vermelho-sangue os jornais, as telas de TV, os vídeos na Internet.

Assim, mercê de Bashar al-Assad, suas metralhadores, tanques e canhões disparando contra civis quase todos desarmados, ainda que chamados de “terroristas”, a crise na Bahia consegue passar quase sub-repticiamente no noticiário internacional de violência. Aparece, bota a cara na tela, no papel, no monitor, mas não chega a brilhar.

Se, mercê de Deus, a Síria fosse uma democracia e lá os governantes não confundissem a cabeça dos policiais militares, levando-os a crer que têm o direito de fazer greve, ainda que proibida pela Constituição, a Bahia estaria hoje brilhando muito mais na mídia mundial.

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