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OPINIÃO POLÍTICA

Motim, um conceito superado

Ivan de Carvalho

O governador da Bahia, Jaques Wagner, do PT, em entrevista à Folha de S. Paulo, ontem, disse que a greve na Bahia está sendo orquestrada nacionalmente para pressionar o Congresso a aprovar a PEC 300, uma proposta de emenda constitucional segundo a qual os policiais militares e civis de todo o país teriam remuneração igual aos do Distrito Federal.

Uma resposta surgiu de bate-pronto por intermédio do presidente estadual do PMDB, deputado Lúcio Vieira Lima, entrevistado por Mário Kertész para a Rádio Metrópole: “Isso é uma tentativa do governador de dividir e democratizar os prejuízos”, ao atribuir a esse movimento um caráter nacional.

Na mesma entrevista à Folha, o governador disse que os métodos usados por uma parte dos grevistas da PM são “coisa de bandido”. Referia-se ao uso de armas para tomar ônibus e bloquear vias públicas. Também atribuiu, segundo a Folha, uma parte dos homicídios ocorridos nos últimos dias a policiais militares grevistas.

Certamente não àqueles que estavam dentro do prédio da Assembléia, que desde o início da noite de terça-feira ocupavam, grande parte deles armada, a sede de um dos Poderes do Estado, mas sem violência. Até às 20:15 horas de ontem, quando escrevia estas linhas, não haviam, que se soubesse, matado ninguém.

A manhã, ontem, no entorno da Assembléia Legislativa foi agitadíssima por conta do veto das forças militares e policiais militares que sitiavam – sob o comando do general Gonçalves Dias, comandante da VI Região Militar, que agia com serenidade – o Palácio Deputado Luís Eduardo Magalhães – ao ingresso de um grupo de outros PMs e familiares dos PMs que já estavam no prédio.

Na área externa, três PMs grevistas foram feridos com balas de borracha e foram usadas também bombas de gás e de “efeito moral”. Um PM estava sendo espancado por dois soldados do Exército, sendo socorrido pelo deputado Capitão Tadeu Fernandes, do PSB, que conseguiu interromper a agressão, praticamente usando o corpo para proteger a vítima. O PM espancado e o general Gonçalves Dias acabaram abraçando-se.

A tarde foi bem menos intranquila, embora um caminhão haja chegado com placas de metal para serem usadas de modo a impedir a visão do prédio. E a transparência, hein? Os jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas ficariam impedidos de terem uma visão da sede do Poder Legislativo e documentar, mesmo à distância, o que lá acontecesse. Houve protestos e o caminhão foi embora com suas placas.

No início da noite, o deputado Capitão Tadeu, que havia se retirado quando as coisas estavam calmas, voltou, mas não lhe foi permitido acesso ao interior da área isolada. Ele disse à Rádio Metrópole que o governo estava pondo à frente das negociações o deputado Nelson Pelegrino (candidato a prefeito pelo PT em Salvador) e a prefeita de Lauro de Freitas, Moema Gramacho. Disse que isso prejudica negociações e que o governo oferecia apenas não enviar o líder da greve Marco Prisco para uma prisão federal, mas estadual, além do aumento de 6,5 por cento, mesmo percentual da inflação oficial deste ano. Observou que isso apenas não levaria a um acordo.

Falando do teatro de operações, o deputado Capitão Tadeu, entre indignado e desconsolado, disse que tudo que via indicava que “vai haver a invasão do prédio esta noite” e acrescentou que os PMs que ocupam a sede da Assembléia “dizem que vão atirar”.

Em tempo: o que grande parte da PM da Bahia está fazendo não é uma greve, mas um motim, perfeitamente tipificado em lei. Mas como Lula, em 2001, a um passo de eleger-se presidente em 2002 – referindo-se ao motim em muitas unidades da PM da Bahia – disse que “toda greve é legal”, mesmo em serviços essenciais, se os salários “não são essenciais”, e que na Suécia até o Exército pode fazer greve fora de período de guerra, então o conceito de motim ficou ultrapassado. Uma anistia geral a policiais amotinados no país foi dada durante seu governo.

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