Lisboa:O Castelo de São Jorge visto do Rossio
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Depois de passar um mês de férias entre Benin, Paris e Lisboa o jornalista Claudio Leal retorna esta terça-feira a Salvador, a tempo de um reencontro com Yemanja na praia do Rio Vermelho, dia 2 de fevereiro, como promete na “carta eletrônica” a este editor horas antes de pegar o avião em Lisboa.

Beleza de escrito, na forma e no conteúdos. Destes que já quase não se fazem mais no País. BP publica o texto com autorização do autor. Confira.

(Vitor Hugo Soares)

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CARTA ELETRÔNICA

EUROPA, ÁFRICA E BAHIA

Claudio Leal

“Do Rossio, observando o Castelo de São Jorge da janela do meu quarto, envio-lhe este sinal de fumaça com as cores portuguesas. Retornei de um périplo beninense e francês, desaguando em Lisboa, Évora, Braga e Guimarães. Um imenso Portugal.

Quando procuro ler notícias da patriazinha (licença, Vinicius de Moraes), vejo uma overdose de Big Brother e outras coisas desse jaez, como diriam os antigos editorialistas. Tá difícil. Se calhar, compro uma água-furtada em Alfama e estendo o varal em Lisboa, uma cidade de encantos diversos, dentre os quais o linguajar popular que nos soa ingenuamente literário, mesmo quando lambe o rés-do-chão.

Na Mouraria, uma miúda, de não mais que 12 anos, choramingava com as amigas: o Sérgio, seu namorado, enviara uma carta de amor para outra rapariga. Modos trágicos, a pequena continuou o relato: “Então eu o olhei com os olhos definitivos de quem o amava muito”. Olhos definitivos, olha lá que maravilha!

A viagem ao Benin teve muitos roteiros e cidades – um balanço ainda por fazer -, mas foi bonita a caminhada, pá. Claro, não me surpreenderam a miséria, o atraso na gestão urbana, a ausência do Estado, etc. e mil outros tals. Nada tão distante de alguns “recantos” brasileiros.

Pois bem, os vestígios de Bahia na costa africana do Atlântico adensaram a experiência. Você e Margarida certamente iriam adorar ver a Festa do Bonfim realizada pelos descendentes dos escravos retornados. A catedral de Porto Novo se abre para a irmandade dos negros “agudás”, gostosamente auto-intitulados “brasileiros”, já que carregam sobrenomes lusófonos – Silva, Souza, Correia, por aí. Depois da festa religiosa e do desfile dos mascarados, os agudás promovem uma patuscada de carnaval, com direito a bumba-meu-boi e burrinha, também carregados nesse refluxo dos africanos ao Benin.

O que se tornou folclórico, no Brasil, ainda é um comovedor divertimento em Porto Novo. As crianças correm de bestagens que não nos assustam mais. Amaral, um altaneiro agudá, puxa as músicas como se fora um Nelson Sargento ou Monarco – ou semelhante elegância de bamba. Nisso tudo há um inevitável sabor de universo próximo do desaparecimento. O Brasil, além de não conhecer o Brasil, ignora esse amor sanguíneo dos beninenses às bahias deixadas para trás.

Voando de Cotonou a Paris. A França segue naquela maré que Paulo Mendes Campos definiu muito bem, na década de 50: “inteligência fatigada”. Porém, ai porém, Paris permanece atraente ao frio, que faz os turistas abrirem o gás. Do que vi, as coisas não andam fáceis para o marido de Carla Bruni, após o desastre da perda do triplo AAA.

Só se fala dessas três letrinhas. Continuo com a estranheza de ver o mercado financeiro distribuir notas, arrogantemente, a Estados já baqueados. Mas essa cafajestada foi aprovada por muito tempo pelos próprios comissários da Europa. Em Portugal, há uma melancolia brutal da crise, perceptível em Lisboa e no Norte. Outro dia vi uma reportagem da RTP sobre uma tal de Anacieta, adolescente que encomendou um irmãozinho aos pais. Com a crise, informou o jornalista, o projeto de gravidez foi adiado. Coitada da Anacieta!
Retorno para a Bahia no dia 31 de janeiro e assistirei à Festa de Yemanjá, desta vez com uma carta de recomendação dos ancestrais africanos. Tremei.

Nos veremos no retorno. Um beijo para Margarida. E pros da pesada, diz que vou levando.

Abraços lusitanos,
Claudio.

Claudio Leal, jornalista baiano, trabalha na redação da revista digital Terra Magazine em São Paulo. Está em viagem de férias.

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Comentários

Marlon Marcos on 31 Janeiro, 2012 at 11:37 #

Difusa poesia deste craque sem igual. Meu amigo.


Graça Azevedo on 31 Janeiro, 2012 at 13:01 #

Venha levando… te esperamos!


Cida Torneros on 31 Janeiro, 2012 at 13:29 #

Maravilha de texto, sensibilidade e técnica..hum..além do gostinho de viagem por lugares que amo tanto!!! beijos, Claudio, parabéns e venha que Yemanjá o espera, com certeza!!!
Cida Torneros


Olivia on 31 Janeiro, 2012 at 14:13 #

Odoyá, Claudinho!


Mariana on 31 Janeiro, 2012 at 16:51 #

Claudinho, eu não sei porquê ainda me surpreendo com você…Mesmo sabendo do seu imenso e inenarrável potencial humano e jornalistico, cada vez que leio seus textos sempre me invadem novas esperanças e emoções indizíveis…
Você não imagina a alegria que sinto quando constato que, não obstante uma juventude alienada e vidrada nos big brothers da vida, você existe e faz toda a diferença!
Seu texto é lindo, emocionante, empolgante e me enche de esperança!
Faça uma boa viagem de volta! Que Iemanjá e todos os santos lhe abençoem e lhe proteja!
Da amiga e admiradora, Mariana


Carlos Volney on 31 Janeiro, 2012 at 17:58 #

Claudinho é dessas figuras raras, verdadeiro acidente da natureza que não nos deixa perder de todo a esperança no ser humano.


Thais Bilenky on 14 Fevereiro, 2012 at 17:17 #

Vitor Hugo, fez bem em publicar. Abraços, Thais


rosane santana on 15 Fevereiro, 2012 at 7:28 #

Cláudio Leal, outras paisagens lhe esperam, que não o jornalismo. Está na hpora de arrumar as malas, companheiro…urgentemente! I Ching hexagrama 55, oráculo chinês que gue gosto e leio há 30 anos: “O Sol brilha ao meio dia, a imagem da plenitude; depois da plenitude vem a decadência”.


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