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OPINIÃO POLÍTICA

Duas atitudes de Dilma

Ivan de Carvalho

A presidente Dilma Rousseff chega amanhã a Salvador para participar, juntamente com o governador Jaques Wagner – que tem ascendência judaica – de uma solenidade que marcará o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, instituído pela Organização das Nações Unidas. É uma maneira da presidente manifestar condenação, inclusive com a intenção de que não se repita jamais (o que é bom, até porque um novo Holocausto de Israel vem sendo persistentemente armado), a um dos maiores crimes cometidos no século XX – e certamente ao mais chocante e notório.

É também uma maneira de manifestar solidariedade ao povo que, na época do Holocausto, não tinha um país e desde o ano 70 da era cristã, com a Diáspora, vinha e continua sendo com freqüência alvo de perseguições de diversas intensidades e amplitudes, variando do preconceito ao genocídio, como ocorreu no caso do Holocausto, que um celerado como o presidente-ditador do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, declara ser “uma fraude” e “um mito”, que segundo ele teve o objetivo de fundamentar a criação do Estado de Israel.

A presidente aceitou o convite da Sociedade Israelita da Bahia para estar presente no encontro que ocorrerá no Forum Ruy Barbosa em memória da “fraude” que produziu a morte de seis milhões de judeus em campos de concentração nazistas.

Uma outra atitude favorável à preservação e valorização dos direitos humanos acaba de ser adotada pelo governo brasileiro, por intermédio do Itamaraty, mas evidentemente por decisão da presidente da República. O governo atendeu a um pedido de visto de entrada no Brasil da blogueira cubana Yoani Sánchez, detentora de dez prêmios internacionais, que vem à Bahia para o lançamento, em Jequié, de um documentário sobre a “Conexão Cuba-Honduras”, no qual Yoani dá um depoimento.

Ela também encaminhou à presidente Dilma Rousseff, por intermédio da embaixada brasileira, uma carta em que pede a interferência da chefe de Estado junto ao governo cubano para que a licença de saída de Cuba – um documento apelidado no país dos Castro de “carta branca”. Isto porque sair de Cuba não é considerado um direito, mas algum tipo de concessão que o regime faz às pessoas, quando acha que convém. Ou que negar não convém, como é agora o caso.

Não há dúvida de que o Itamaraty, antes de dar o visto de entrada, e considerando o relacionamento idílico que os governos brasileiro e cubano têm mantido há anos (daqui a poucos dias a presidente Dilma vai a Cuba), fez contato com o governo da ilha e certificou-se de que a “carta branca” será concedida. A negativa, evidentemente, chamaria muito mais atenção para o caso do que a vinda de Yoani ao Brasil. Seria mais desagradável para o governo cubano, que já negou, antes, todos os 20 pedidos de Yoani para viajar ao exterior.

Mas desta vez a viagem é para o Brasil, cujo governo tem prestigiado muito, nos últimos nove anos, a ditadura dos irmãos Castro, e a presidente Dilma estaria numa situação muito incômoda se Yoani fosse impedida de sair de lá para respirar um pouco de ar livre. É que existe a carta (não divulgada) de Yoani a Dilma e esta seria colocada ante duas interpretações alternativas: ou atendeu ao pedido de interferência de Yoani e não teve a influência necessária ou não quis interferir. Qualquer das alternativas seria ruim. A presidente naturalmente compreendeu isto tão bem quanto os irmãos Castro.

Quem anda indignado com a sinuca de bico da qual não conseguiu desvencilhar-se é o assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, aquele incapaz de falar duas coisas sem dizer três bobagens. Já disse que se Yoani pedir asilo político dificilmente poderia manter seu blog (ela não pediu nem vai pedir asilo nenhum), vai voltar para Cuba porque quer ficar lutando de dentro, só o “assessor” parece não entender isso. Ele disse também que o Brasil deu o visto de entrada e que para sair de Cuba, Yoani que se vire, o que, em tese, exclui do jogo a hipótese de a presidente Dilma ter influenciado para a saída ser permitida.

Devia ter ficado calado. Quem tem um assessor desses não precisa de inimigo.

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