Luiz Caldas no carnaval do ano passado em Salvador
Foto Reinaldo Marques/Terra
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DEU NA REVISTA DIGITAL TERRA MAGAZINE

Dayanne Sousa

O Pai do Axé, Luiz Caldas, tornou-se um crítico da indústria do Carnaval baiano. Em sua nova música, composta em parceria com César Rasec, lamenta a “chuva de grana” por trás da organização dos foliões de Salvador em camarotes e blocos com abadás. Divisão que, no olhar do músico, arranca a espontaneidade da festa. “O Carnaval perde na essência para poder lucrar na parte financeira”, lamenta em entrevista a Terra Magazine.

Saudoso de tempos em que não havia a “farda” que uniformiza os blocos, Caldas se vê como um dos responsáveis pelo mal que ataca. Sua música Fricote, que em 2010 comemorou 25 anos, é considerada o marco inicial do axé. O ritmo passou a embalar trios elétricos e foi o pano de fundo de um processo que tornou o Carnaval mais lucrativo para grandes empresas do entretenimento. Para o músico, tudo terminou por concentrar as atenções da festa em poucos artistas de visibilidade e excluir “profissionais que fazem Carnaval de uma forma tão brilhante”.

– Eu tenho claro o meu quinhão de culpa nisso. Porque, afinal de contas, eu sou o criador do Axé Music. Antes de mim, era só o frevo. Eu dei uma música nova pra Bahia. E, claro, trouxe também as gravadoras pra os artistas daqui.

Com gravadoras ele não lida mais. Afirma que se recusou a “baixar a cabeça” e preferiu a liberdade de compor como quer e disponibilizar suas músicas na internet. Recentemente, lançou em seu site 130 músicas inéditas e pretende seguir trabalhando até que 280 canções estejam no ar.

Sobre a “culpa” pelo apartheid carnavalesco, acrescenta que nunca participou das mudanças na festa baiana.

– Eu toquei durante anos em blocos de graça. Eu tocava para o povo mesmo. Hoje em dia seria impossível alguém ir pro Carnaval tocar de graça, esse romantismo ficou lá atrás.

Em 2012, o cantor e compositor deve sair em um trio elétrico independente, ainda sem data para circular por Salvador.

A entrevista de Luiz Caldas

Terra Magazine – O que motivou sua música sobre o apartheid no Carnaval? É uma canção de protesto?

Luiz Caldas – Eu e César Rasec, meu parceiro, começamos a ver a grande transformação que o Carnaval sofreu e vem sofrendo. Vai sofrer outras ainda, nada fica como está. Mas só que a mudança que houve no Carnaval foi muito mais pelo lado financeiro. Não pelo lado da arte, como foi nos anos passados. Antes a coisa modificava pelo jeito de as pessoas dançarem, pelo jeito das pessoas se fantasiarem. Mas de um tempo pra cá virou um grande negócio. E quem realmente criou o Carnaval está sendo deixado de lado. É o folião pipoca. Não chega a ser um protesto, é só um alerta. Não há necessidade de protestar porque eu não sou contra o comércio. Não sou contra ninguém ganhar grana. Mas você não precisa matar a galinha dos ovos de ouro. Porque, neste caso, a galinha dos ovos de ouro pra mim é a alegria, é a espontaneidade do Carnaval. Trocaram a fantasia que a pessoa fazia em casa – como era antigamente – por um pedaço de pano que é o abadá. Ficou todo mundo vestido igual, tipo uma farda. O Carnaval perde na essência para poder lucrar na parte financeira.

Sua música tem um diálogo do folião pipoca com o sujeito do camarote. Você acha que o folião pipoca pode acabar? Está diminuindo a participação do povo?

O Carnaval que mais tem participação popular mesmo é o de Pernambuco, que não modificou seu formato de deixar o folião ele mesmo cuidar da onda, do visual dele. O lance de você cuidar da sua música. Hoje o Carnaval de Salvador é legal, mas eu não consigo compreender muito bem o lance da música eletrônica em cima de um trio elétrico. Você pode ter uma música, mas daí a ter forró em cima do trio… Eu acho interessante quando uma banda que faz Carnaval toca uma música ou outra. Mas trazer assim é uma forma meio estranha. Você acaba tirando profissionais que fazem Carnaval de uma forma tão brilhante.

Você acha que o Carnaval de Salvador deixou de ser espontâneo?

Deixou e está deixando de uma forma muito rápida. A gente tem que ter cuidado porque nossa música sempre teve uma carga de baianidade e negritude muito grande. Aos poucos, eu sinto que isso vem dando espaço pra música norte-americana, com Beyoncé e várias outras. Muitos artistas nossos estão levando por esse lado. Acho que é muito melhor primeiro a gente se preocupar com a música e depois com a coreografia, essas coisas. Porque quem vai dançar mesmo é o povo.
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Veja a letra de Apartheid da Alegria

Dayanne Sousa

O músico Luiz Caldas lança, via internet, um álbum com frevos que fazem referência à história do Carnaval e dos trios elétricos na Bahia. Uma das canções é Apartheid da Alegria, na qual discute os lucros de camarotes e vendas de abadás. Até os foliões pipoca (que não pagam e pulam o carnaval fora das cordas dos blocos) “já não brinca sem gastar”, canta.

O trabalho, feito em parceria com César Rasec, é parte de um projeto de Caldas para lançar até 280 músicas inéditas. E nada passa pro gravadoras, é vendido pela internet. No final de 2012, o cantor e compositor divulgou 130 dessas canções em discos separados por ritmo. Há albuns de rock, samba, mpb e forró.

APARTHEID DA ALEGRIA
(Luiz Caldas e César Rasec)

Chuva de grana, carnaval com capilé
A festa acabou sendo o que é
Estica e puxa na fila pra desfilar
E a pipoca já não brinca sem gastar

No apartheid da alegria
O trio que passa traz a massa
E no camarote, segurança e muito mimo de graça
Dentro do bloco a beijação não traz pirraça
Do outro lado o Pitt Bull só quer brocar
Não se volta no tempo sem respeito à praça
Careta agora é só pra se enfezar
Agora é o abadá, mortalha nunca mais
Pois quando tudo é free sempre se quer mais
E atrás de espaço fica o nobre cidadão
Maluco pra tirar o pé do chão

Ei você aí do camarote, toma uma aí por mim
Porque aqui embaixo é bico seco, agora é assim (bis)
Ei você que tá nessa pipoca, pula um pouco aí por mim
Porque dessa mordomia eu só vou sair no fim

Luiz Caldas (voz, guitarras baianas, guitarra base, baixo, caixa e surdão), Claudinho Guimarães (pratos) e Andréa Caldas e Paulinho Caldas (vocal)

Terra Magazine

Leia entrevita na íntegra em TM:

http://terramagazine.terra.com.br

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Comentários

Mia Shackley pokeda on 31 Janeiro, 2012 at 17:58 #

Quando o homem reconhece Deus como seu Criador e Salvador, seu cora� ão passa a adorá lo em amor e submissão.


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