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DE OLHO NELES

Aurora Vascocelos

“Pense num absurdo. Na Bahia tem precedente”. A frase do governador Octávio Mangabeira já está surrada, porém continua mais atual do que nunca no estado. Desta vez, o absurdo foi a liminar expedida pela juíza Lisbete Maria Almeida, da 7ª Vara da Fazenda Pública, proibindo uma manifestação popular contra a ocupação da Praça de Ondina, que é pública, já OCUPADA pelo Camarote Salvador da empresa Premium Eventos, que tomou toda a área incluindo partes da praia do referido bairro. A juíza proibiu a jornalista Nadja Vladi, uma das líderes do Movimento Desocupa de comparecer ao evento sob pena de pagar multa diária de R$5 mil reais.

Fiquei numa dúvida profunda: porque a desimportância da lei que garente que todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local?

A atitude da juíza desagradou a todos os que prezam a liberdade de expressão e cerca de 400 pessoas compareceram à manifestação para protestar contra a ocupação do local pelo camarote, expandindo o protesto contra o desgoverno municipal e o uso de áreas públicas para a construção dos camarotes, cujos lucros milionários não são revertidos em benefício da cidade. A manifestação foi uma grande festa- com microfone aberto a todos aqueles que quiseram protestar contra os desmandos desta cidade abandonada pelos poderes públicos, como uma vaca da qual tiram todo o leite e deixam na pele e no osso.

A instalação de camarotes na cidade é considerada uma mina de ouro para seus donos. Conforme os sites noticiosos, no do Premium, o camarote em questão da praia de Ondina, a diária mais barata custa R$490 e a mais cara R$ 900. Para quem compra o pacote o custo é menor: o kit masculino para seis dias sai por R$4.980 e o feminino por R$3.690.

Esse lance de proibição das pessoas se manifestarem contra um empreendimento acordado entre empresários e poderes públicos municipais me deixam com a pulga atrás da orelha. Começo a ver as coisas com uma ansiosa antecipação. Não me sai da cabeça o projeto do PT de “redemocratizar a imprensa”, eufemismo usado para controlar a mídia que não dance conforme a música do partido, e até essa tal comissão estadual de regulação da imprensa criada recentemente pelo governo do Estado.

Por outro lado, já se viu que o povo baiano e soteropolitano, em particular, não gostam nada de ser reprimidos nos seus justos direitos. O movimento vai continuar. E os donos de camarote que se preparem. A prefeitura vai ter que provar que esses empreendimentos dão lucro a cidade, informar de quanto foi esse ganho e onde a grana vai ser utilizada.

Um dos discursos do superintendente de Controle e Ordenamento do Uso do Solo (Sucom), Cláudio Silva, responsável pelo acordo com a empresa foi o de que não há o que se discutir porque o contrato trouxe benefícios para a cidade e que aquela era uma área usada inclusive para o tráfico de drogas. As más linguas do facebook e de outras redes insinuam que no quesito das drogas deve mudar apenas a clientela, o preço e a quantidade. Mas, nisso eu não me meto porque não frequento camarotes e nunca vi nada.

Enfim, os donos de camarotes e seus acordados que se segurem. Tudo indica que a partir de agora, o povo vai estar de olho neles. A prefeitura que prepare seus recibos e notas fiscais. Se entra dinheiro nessa ocupação desavergonhada do espaço público de Salvador, a grana tem que ser revertida para a cidade, o que até agora ninguém viu acontecer. O que se vê é a situação de decadência e degradação em que nossa terra se encontra. E isso já passou dos limites há muito tempo.

Aurora Vasconcelos é jornalista. O texto foi escrito especialmente o BP

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Comentários

bird on 15 Janeiro, 2012 at 22:26 #

Ao invés de se posicionar em favor do bem estar da sociedade a decisão da juíza beneficia o capital financeiro da indústria do carnaval baiano. Ha muito tempo a alegria do povo deixou de ser espontânea, agora é ela é construída na base da geração do dinheiro. São ações, como essa, do judiciário que são combatidas pela Ministra Eliana Calmon quando critica a doença “Juízite Aguda” que afeta aos nossos togados.


Zeca Peixoto on 16 Janeiro, 2012 at 9:23 #

Quero parabenizar o texto da colega Aurora Vasconcelos. Mas também relativizar um item nele publicado que creio desconexo ou mesmo contraditório com o posicionamento. Aurora, se dependesse da mídia que você defende, a corporativa e ligada ao grande capital, certamente que não teríamos veiculação para a manifestação. Eu mesmo sou testemunha, pois estive entre aqueles que se encontravam na linha de frente dessa mobilização desde sempre. Não me recorre a memória nenhuma matéria de porte sobre o #Desocupasalvador na chamada “imprensa independente”, mas profundamente dependente dos negócios contra os quais protestávamos no sábado. Teve matéria na TV Bahia? Teve no Correio da Bahia? Se posicionar contra o Conselho Estadual de Comunicação, cujo intento é justamente propiciar políticas públicas à multiplicação de canais de vozes na sociedade, me parece um contradito violento para quem se posiciona contra acordos espúrios entre a Prefeitura e as empresas dos netos de ACM. É contradição ou ingenuidade?


Aurora on 17 Janeiro, 2012 at 17:26 #

Zeca

Obviamente, não posso deixar de concordar com sua análise em relação à grande mídia. Sabemos que ela não quer criar polêmica com os empresários, seus clientes, mas não acho que isso torne contraditória minha crítica à criação de um conselho. O conselho, obviamente, vai determinar quem “merece” e não merece os anúncios. Acho que essa oficialização da noticia é mais terrível porque será feita com o dinheiro público e impedirá criticas, o que é essencial nas democracias.. É um controle. Essa mesma mídia certamente não dará nenhuma noticia que desagrade ao governo. Onde está a contradição? Bato nessa TECLA porque censura, ou “Seleção” com dinheiro público é um desrespeito à educação popular e ao seu direito de pensar e tomar partido. Quanto à mídia, de modo geral, o interesse é financeiro o que possibilita a abertura de brechas em uns e outros…Meu ponto de vista é essencialmente pragmático e não vejo ingenuidade nenhuma nele.


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