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Postado em 13-01-2012
Arquivado em (Artigos, Ivan) por vitor em 13-01-2012 00:52


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OPINIÃO POLÍTICA

A Lavagem do Bonfim

Ivan de Carvalho

A Lavagem do Bonfim tem 1001 utilidades. Claro que não é o caso de produzir uma relação, nem este espaço seria suficiente à enfadonha tentativa, mas há validade em pinçar uma ou outra, quase a esmo.

Vamos começar pelos animais, jegues, cavalos, sempre nobre presença nos cortejos. Este ano a coisa havia ficado ruça. Uma decisão judicial liminar havia proibido que eles participassem, cerceando-lhes o direito de vir para a Conceição da Praia e ir para a colina do Bonfim, sob a alegação de que assim estariam protegidos contra não sei o que. O calor, talvez.

Mas, droga, no interior da Bahia os jegues que ainda existem – aqueles que não foram abatidos para o consumo humano de sua carne (não faça o leitor cara feia, os chineses servem cachorros em restaurantes grã-finos de lá) – sobem e descem serras ou percorrem a caatinga, sob sol inclemente e debaixo de uma cangalha que permite pendurar neles todos as cargas que seus donos avaliam que são capazes de carregar. Colaboram com eles burros e mulas.

Quanto aos cavalos, ainda constituem um meio de transporte relevante na área rural, onde as estradas de rodagem são escassas ou não existem, e além dessa tarefa de transportar os cavaleiros, servem-lhes de instrumento de lazer, geralmente sob chibata e espora. Isso sem falar nos hipódromos, onde têm a honra de correr muito para encher os bolsos de seus donos e de divertir um público de fina estampa. E ainda não surgiu uma decisão judicial (nem, que eu saiba, mera provocação à Justiça) proibindo as corridas de cavalos e determinando a extinção dos hipódromos. Mas se quis negar a jegues, cavalos e burros o direito de participar da Lavagem do Bonfim, com o que, mesmo inconscientemente, têm a oportunidade de reverenciar o dono da festa.

A presidente do Tribunal de Justiça, Telma Brito, atendendo a ação do Município de Salvador, na noite de quarta-feira cassou a liminar, acertadamente liberando os já citados animais e outros que eventualmente se apresentassem, suponho, a se integrarem no cortejo. Que, aliás, bem precisaria, a julgar pela avaliação do ex-ministro Geddel Vieira Lima, para quem “este ano, as ruas estão vazias”, completando: “Não sei se as pessoas estão com medo de sair de casa. Acho que elas estão se sentindo inseguras e, por isso, deixaram de vir para a Lavagem”.

Geddel, claro, criticava a insegurança pública no cotidiano da cidade, embora o governo haja posto 2600 policiais no trajeto do cortejo. Mas jegues, burros e cavalos não têm, pelo menos em tese, medo de bandidos nem pivetes e não foi por isso que eles não marcaram presença. Nem por estarem impedidos por decisão judicial liminar, que já fora derrubada. E muito menos pela alegação da Federação Baiana de Entidades Ambientalistas Defensoras dos Animais. Sua presidente, Ana Rita Tavares (ela não reivindicou ser chamada de presidenta), apesar da cassação da liminar, disse que “o mais importante é que a população já está conscientizada sobre a importância do cuidado com esses animais”. Só com esses? E os outros? As baratas… monges budistas não matam baratas, nem formigas, nem mosquitos da dengue. Foi animal, tá salvo. Vegetal, aí tem conversa.

Mas, voltando aos jegues, burros e cavalos, a mim parece que a verdadeira razão de não estarem na lavagem é que a liminar proibitiva fez com que tudo se organizasse para ser sem eles. Como a decisão permissiva ocorreu apenas horas antes do início da lavagem, não havia mais como inserir a bicharada, melhor dizendo, os animais.

A não ser que saíssem fazendo um arrastão para incluir no cortejo todos os cães vadios e gatos de janela que achassem pelo caminho. Mas certamente não o fizerem por entenderem que isso tiraria a paz do cortejo – misturar cães e gatos seria pior que a mistura política a que o cortejo já está adaptado há décadas.

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