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Postado em 13-01-2012
Arquivado em (Artigos) por vitor em 13-01-2012 22:47

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ARTIGO

A MULHER SEM CULPA

Maria Aparecida Torneros

Em cada cultura, em cada época ou era, a figura feminina tem passado por poucas e boas, melhor dizendo , muitas e más pressões de seu tempo. Religiões, moral, cobranças, modelos, medos, submissões, dependências, estereótipos, espaços a preencher com imagens físicas e mentais, medidas a serem conquistadas com dietas, pedaços de pele e carne a serem consumidos pelo fútil prazer de serem aceitas por alguém ou pela sociedade em geral, onde estiverem, estão ou estiveram inseridas.

Mulheres sem culpa, será que existem, existiram ou existirão aos bocados, pilhas delas, por aí, na história?
Talvez, uma Joana D’arc, uma Maria Madalena, uma médica que trabalhe no grupo Médico sem Fronteiras, uma dirigente que não acionou a bomba atômica, uma escritora que disseminou sem pestanejar o direito feminino de ser ela mesma, como fez Simone de Beauvoir , por exemplo.

Sem arrependimentos, sem medos passados , presentes ou futuros, que mulheres cultivam a chance de serem realmente livres dentro de si mesmas, lutadoras, bravas, consumidoras da própria essência, mãe amorosa e dura de filhos que ela cria para o mundo tão duro quanto? Poucas, algumas, quase todas, aquelas privilegiadas, as que acreditam em si mesmas, as que enfrentam sem pensar os obstáculos e vão em frente?

A canção de Piaf, interpretada por Cassia Eller me fez pensar na corregedora Eliana Calmon. Calma, minha gente, que a corregedora está no lugar certo e na hora certa, ela corrige, ora, é seu dever de ofício, sem culpa, com dignidade e coragem. Um atributo ora feminino, quem diria…

Em artigo de Ivan de Carvalho, destaco trecho que a mim tocou profundamente: ” Nos próximos oito meses há uma grande possibilidade de lances emocionantes na luta entre as duas partes da magistratura, a que quer um Conselho Nacional de Justiça exercendo uma fiscalização eficaz do aparelho judiciário do país e a que quer tornar essa fiscalização esquálida, frágil, quase imprestável. O prazo de oito meses diz respeito ao tempo que resta de mandato à atual corregedora nacional de Justiça, a ministra baiana Eliana Calmon, do Superior Tribunal de Justiça. Terminará no início de setembro seu movimentado mandato no cargo que ocupa no CNJ, quando os até previsíveis (por corporativos) ataques judiciais e extrajudiciais de setores da magistratura às suas ações e procedimentos levou-a a confrontar esses setores. E, para usar expressão bem popular, botou a boca no mundo. Entre outras coisas, disse que há “um gravíssimo problema” de “bandidos escondidos atrás da toga”.

Que mulher não conhece, nas entranhas e nas fases da lua, prazos como este, de 7, 8 ou 9 meses, justo período para nascer vida nova, parir filhos e mudar o mundo.

Cada vez que penso numa mulher como Piaf, Cassia, Eliana, e tantas outras, do porte de quem se entrega às causas da sua vida e de outras que delas dependem, seja sob o ponto de vista da sensibilidade, da emoão, da razão ou da justiça, lembro mesmo é que é preciso dar um viva às femeas que realizam e não se arrependem, pois vão na direção dos seus propósitos e se baseiam nas suas livres consciências, sem se importar para fogueiras de bruxas, serpentes de traições ou armadilhas de amores mentirosos, elas seguem em frente e vão.

Sem se arrependerem de nada, recomeçam do zero, todos os dias, antes, durante, e depois das próprias vidas, através da reflexão que nos legam e dos exemplos que nos deixam, não se furtam ao toque ameaçador de inimigos públicos ou recônditos, nem à manobra de velhos articuladores que as sociedades fabricam e alimentam no seio de falsos pudores, podres poderes, hipocresias camufladas ou de verdades mascaradas, elas, mais do que tudo, dão a volta nas pedras do caminho e enfrentam seus perigos, arriscam-se nas quedas, aceitam ajuda se preciso for, ou, quando são abatidas, levam consigo o dom de renascerem, em muitas novas Elianas, Edites, Cassias, Joanas, Simones, Marias, Madalenas, Ritas, que cantam… por isso não provoque… ou que entoam juntas..não, eu não me arrependo de nada..


Cida Torneros é jornalista e escritora, mora no Rio de Janeiro, onde edita o Blog da Mulher Necessária

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