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ARTIGO

UM CHOPE AOS VELHOS BAIANOS

Janio Ferreira Soares

Atualmente está na moda falar mal de João Gilberto, do mesmo modo que, tempos atrás, a onda era malhar o então ministro Valdir Pires, coincidentemente outro pacato cidadão da velha guarda baiana que também possui a voz na tonalidade de quem venera a paz – “onde o fim da tarde é lilás, e onde o mar arrebenta em mim o lamento de tantos ais” (dá-lhes, Gil e Donato!).

Não sou da geração que acompanhou a revolucionária batida do violão de João Gilberto, tampouco faço parte dos inúmeros tietes que o tem como um dos deuses da cocada preta e que acedem velas a cada espirro seu. Mesmo assim lhe sou grato, quando nada, por ele ter sido – segundo declaração dos próprios -, um dos principais responsáveis pelo surgimento de vários artistas que vivem rodando no prato da minha vitrola nas sagradas manhãs de sábado – onde o lúpulo é rei, a música é rainha e a ressaca é madrasta. (A propósito, Eric Clapton, em sua recente excursão pelo Brasil, declarou que gostaria de conhecer o juazeirense ermitão para, quem sabe, fazerem um dueto de Cocaine em ritmo de bossa).

Resolvi abordar este assunto porque estou no Rio de Janeiro, bem próximo do quadrilátero que nos anos 70 foi o território dos baianos que vieram para cá dar uma bela sacudida na MPB. Portanto, por uma questão de usucapião, sinto-me a vontade batendo pernas nas mesmas calçadas por onde transitaram inúmeros tamancos desvairados sob gigantescas bocas-de-sino a varrer o chão das praças, numa época em que, como canta o grande Paulo Diniz, a moda era por um arco-íris na moringa e ser inserido no contexto, sempre procurando pela moça Gal. Mas Ipanema agora é outra.

No lugar de revoluções culturais, a moçada prefere tomar açaí e ouvir músicas em aparelhos com uma maçã mordida nas costas. Como sou do tempo em que a maçã que valia era a verde que rodava no meio dos discos dos Beatles, peço mais um chope e brindo aos velhos baianos que um dia fizeram deste pedaço um grande vapor barato, que ainda hoje navega debaixo dos caracóis dos meus cabelos cada vez mais brancos.

Janio Ferreira Soares, cronista, é secretário de Cultura e Turismo de Paulo Afonso, na margem baiana do Rio São Francisco

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Comentários

Graça Azevedo on 7 Janeiro, 2012 at 15:27 #

Lindo o seu texto!


Janio on 7 Janeiro, 2012 at 16:14 #

Maravilha, Gracinha, pena que quando eu cheguei por essas bandas Vitor já estava entre a Augusta e a Angélica. Mas um dia a gente retoma aquela cerveja com um tucunaré na brasa, de preferência olhando pro São Francisco.


Olivia on 7 Janeiro, 2012 at 18:50 #

Belo texto, como sempre. Coloquei no twitter. Adoro João e o Rio, valeu, Janinho.


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