Vaclav Havel: adeus  a um estadista

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ARTIGO DA SEMANA

Václav Havel: da Brasilia de FHC a Praga

Vitor Hugo Soares

Guardo duas fortes impressões relacionadas com o ex-presidente da República Checa, Václav Havel – líder político, intelectual, dramaturgo , boêmio e estadista, tudo no superlativo – que morreu domingo passado e foi sepultado nesta sexta-feira (23). A primeira, de quando o líder principal da Revolução de Veludo que transformou seu país esteve em Brasília, no governo de FHC.

A segunda lembrança vem de uma viagem inesquecível a Praga, logo em seguida, quando Václav Havel que já governara a antiga Tchecoslováquia, dirigia então a recém fundada República Checa e a romântica cidade do leste europeu respirava em liberdade plena. Rasgada a cortina soviética, Praga recebia seus visitantes com alegria, beleza, arte, cultura e braços abertos.

Penso nisso enquanto sigo as notícias e vejo as imagens do velório e enterro de Havel ontem . O político e intelectual que parte cercado de honras e admiração de dirigentes democráticos do mundo, mas principalmente do respeito e amor de seu povo. No velório durante a semana e no enterro de sexta, sucessivas e marcantes imagens de emoção diante da perda. Em tudo e em todos no entanto, evidências de sentimento genuínos. Verdade e dignidade – dos políticos e do povo -, bem ao estilo de Havel, um herói da democracia e da liberdade de expressão na Europa.

Que diferença gritante da histeria coletiva que milhões de habitantes do planeta têm visto na Coreia do Norte nestes últimos dias, desde a confirmação da morte do ditador Kim Jong-il. Neste caso, em tudo e em quase todos, toques nítidos de farsa e mistificação ideológicas montados pelo regime e transmitidas através da televisão e outros veículos chapa-branca de comunicação do beligerante país asiático, há década sob o domínio inflexível de um dos governantes mais perversos e violentos da história da humanidade.

Quem quiser que trate da Coreia e seu ridículo ditador morto. Quem julgar relevante que dedique os espaços mais generosos dos “horários nobres” da informação nas nossas redes de televisão e da nossa imprensa à encenação de lá. Isso é parte do jogo e não me surpreende mais.

Neste espaço, porém, prefiro destacar a vida e a história exemplar de Václav Havel, em especial as duas lembranças mais próximas e marcantes que guardo dele. Como esquecer, por exemplo, da estada de Havel em Brasília no segundo governo de Fernando Henrique Cardoso? Não tanto pelo encontro em si dos dois dirigentes no Palácio do Planalto, do qual pouca ou quase nenhuma memória restou.

O que ficou mesmo foi a recordação da imagem emblemática da estatura política e grandeza intelectual do líder checo, aliada a perfil do homem público de extrema modéstia e simplicidade. Sinais sintetizados na fotografia publicada naquele dia na edição online de grande jornal brasileiro (não lembro se O Globo, a Folha ou Estadão).

Sei que a imagem correu o mundo. Era o flagrante jornalístico do político, escritor, poeta e humanista que, depois do encontro com FHC pediu para parar o carro que o conduzia ao aeroporto na frente de um barzinho popular da zona sul da Capital Federal. Havel queria beber um guaraná, tomar um café e fumar um cigarro antes de retornar ao seu país. O flagrante jornalístico é deste momento do boêmio Havel diante do embasbacado dono do bar.

Pouco tempo depois fiz a minha primeira, única e inesquecível viagem à República Checa. A caminho de Praga, o ônibus procedente de Frankfurt fez uma breve parada em Nuremberg, onde a simpática guia checa Lucila permitiu ao grupo de brasileiros e turistas de outros países, um passeio livre pelo centro da cidade alemã, até a frente do prédio histórico de julgamento dos crimes do nazismo.

“Não vão se perder, hein! Não esqueçam de que o nosso destino é Praga”, lembrava a guia a todo intante.

Não nos perdemos. E antes de Lucila voltar eu já estava com Margarida (minha mulher e também jornalista) dentro do ônibus, conversando em espanhol com o checo e bem informado motorista da excursão sobre a visita recente de Václav Havel ao Brasil.

Falei da minha grande admiração pela obra do intelectual e ação do político condutor da “Revolução de Veludo”. Quando a guia retornou o motorista comentou, apontando para o jornalista: “ele sabe bastante sobre Václav”.

Não esqueço do aceno e do sorriso afetuoso que recebi de Lucila. Nem das histórias que ela contou sobre o revolucionário estadista, até a morte pouco antes do Natal de 2011, deixando mais pobre e mambembe a política europeia e mundial. “Morto Václav Havel, que viva Václav Havel”, como assinalou o “El País” no melhor necrológio que li sobre um estadista, como já não se faz mais hoje em dia.

Vitor Hugo Soares é jornalista.E-MAIL: vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Cida Torneros on 24 dezembro, 2011 at 7:19 #

Feliz Natal! Vitor!! grande artigo, belo, bem escrito, esclarecedor, eu aprendi muito sobre Václav, e me solidarizo com a dor do povo checo!
bjs pra Margarida e toda a família!
Maria Aparecida Torneros, Cida…


Mariana Soares on 24 dezembro, 2011 at 9:21 #

Belíssimo artigo, meu irmão! Tudo a ver com o Natal, com o que é Natal na sua essência. E que seja este para você, Margô e toda a turma que faz o BP acontecer um momento mágico de muito amor, alegria, união, paz e solidariedade. Vamos festejá-lo, não só com a mesa farta, os presentes, as festas de confraternização do trabalho e dos amigos, mas, também, com muita fé, esperança, amor, ternura, aconchego de mãos se encontrando, beijos trocados e muitos abraços. Receba aí o meu, bem apertado, amoroso, doce e repleto de bons desejos para você! Feliz Natal! Tim…Tim.. Mariana


vitor on 24 dezembro, 2011 at 10:26 #

Mariana,

Tim Tim”, com a melhor taça de cristal da Boêmia (em tributo ao grande Václav Havel) e o melho vinho que houver, como pede o Natal.

Não bastam os que colocam a mão na massa mais diretamente todos os dias – como este editor – para produzir o Bahia em Pauta. É gente como você -generosa, atenta, magnânima e inteligente, evidentemente – que faz o BP acontecer e ser o que ele é e como ele é.

Através de você, o Bahia em Pauta abraça, agradece e deseja a todos os seus leitores e amigos um Feliz Natal. E um Ano Novo ainda melhor, para a gente continuar a fazer e acontecer no BP em 2012.

Um beijo fraterno e especial para você, em meu nome e de Margarida.

Tim Tim


lilian on 24 dezembro, 2011 at 12:42 #

Grande artigo! Feliz Natal a todos do Bahia em Pauta!!Que a luz do Menino Jesus ilumine a todos nós!


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