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Postado em 17-12-2011
Arquivado em (Artigos) por vitor em 17-12-2011 00:14


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ARTIGO DA SEMANA

Memória no ano dos escândalos

Vitor Hugo Soares

Puxo o carretel da linha do tempo na tentativa de produzir, para o blog que edito na Bahia, um desses habituais resumos jornalísticos de fim de ano, a começar por uma definição para postar na tumba do moribundo 2011. Estranhamente, a memória me conduz para a mesa de um simpático Café, na Avenida 18 de Julio, na elegante e sempre generosa Montevidéu dos anos 70.

Recanto então repleto de exilados brasileiros em sonhos e desvarios sobre a derrubada da ditadura e o retorno ao Brasil. Obviamente, a depender da preferência de cada um, sob o comando de João Goulart ou Leonel Brizola, ambos vivos e, na época, igualmente abrigados no Uruguai.

Recordo bem, e quando escrevo estas linhas, agora, é como se estivesse de frente para dois destes ex-exilados no Café da querida cidade à beira do Rio da Prata. Um deles, o falecido coronel Dagoberto Rodrigues, ex-diretor geral dos Correios e Telégrafos no governo Jango. Antes do golpe, um órgão estratégico das comunicações no País, cujo comando exigia um dirigente com a capacidade, coragem e, principalmente, a incorruptibilidade do saudoso coronel Dagoberto, uma história e um exemplo ainda à espera do resgate no país desmemoriado.

O outro personagem da mesa é o jornalista alagoano Paulo Cavalcante Valente – “o Doutor Paulo é o amigo mais presente e leal de meu pai no exílio”, ouvi naquele mesmo período dos lábios de Neusinha, a filha do ex-governador do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul, falecida este ano. De Paulo não tenho notícias há algum tempo, mas espero reencontrá-lo com saúde e caminhando quilômetros na orla do Rio, onde planejo passar as festas deste fim de ano.

É de Paulo Valente o comentário do qual não esqueço, naquela mesa do Café naquele distante anos 70, mas que parece ter ficado congelado no tempo: “Rapaz, aqui do exílio, vendo, lendo e ouvindo as notícias de lá, o que mais surpreende é a inesgotável capacidade do Brasil para tolerar e conviver com escândalos. Cada semana um escândalo maior substitui o anterior na TV, revistas e jornais, mas nada acontece como conseqüência ou punição exemplar. Fica quase todo mundo só esperando o corrupto e o escândalo da vez”.

Toca o sino da memória: Bingo! Aí está um belo título do resumo de 2011: “O ano dos escândalos”. Pode não ser muito original, mas é a melhor sugestão que tenho e agradeço por ela ao querido amigo Paulo Valente. E ao Uruguai, onde a presidente Dilma Rousseff aportará nos próximos dias para participar da última cúpula do ano do Mercosul. Antes de desembarcar em Salvador para duas semanas de férias na cristalina praia privada de Inema (dos encantos de Lula e dona Marisa em dias de poder), na área da Base Naval de Aratu.

E chega de escândalos, pelo menos por hoje. Prefiro aproveitar o restantes destas linhas para dar um pulo também em Buenos Aires, do outro lado do Rio da Prata, onde esteve esta semana o artista baiano Caetano Veloso, participando de um evento transcendente na área dos direitos humanos e da liberdade de pensamento e expressão na América Latina, realizado no Parque da Memória, belíssimo espaço da capital portenha, dedicado à ação e reflexão permanente sobre os mais de 30 mil presos da ditadura argentina, um deles o músico brasileiro Francisco Tenório Cerqueira Junior, o Tenorinho.

Como de hábito, o fato foi solenemente ignorado pela chamada grande imprensa brasileira, provavelmente mais empenhada na procura da pauta que leve a novo e grande escândalo à esquerda ou à direita, envolvendo petista ou tucano, socialistas ou liberais. Não importa, vale tudo!

Na apresentação da longa e reveladora entrevista feita pela repórter Karina Michelletto, com o artista brasileiro, o Diário Página 12 oferece mais informações: A estadia local de Veloso foi tão curta quanto intensa. O cantor e compositor participou de uma homenagem a Francisco Tenorio Cerqueria Júnior, Tenorinho, um pianista de jazz seqüestrado em Buenos Aires três dias antes do golpe de 76, que havia chegado acompanhando Vinícius de Moraes e Toquinho.

Pelo que se conseguiu reconstruir de sua história, um grupo-tarefa da ESMA (a escola militar de prisões clandestinas e torturas da ditadura na Argentina) o confundiu por seu aspecto físico (barba longa, cabeludo e óculos), foi torturado durante nove dias e finalmente assassinado, conta o jornal portenho.

A conversa de Caetano com a jornalista em um hotel da Recoleta é longa, densa e esclarecedora. Não cabe nem pode ser reproduzida na íntegra neste espaço como desejaria neste fim de ano. Mas fica aqui a recomendação da leitura para quem estiver interessado. O texto, na íntegra, pode ser recuperado no site de Página 12 na Internet ( ) . http://www.pagina12.com.ar/diario

Em mais um fim de ano no país dos escândalos, mas infelizmente de memória cada vez mais curta, vale à pena a leitura. Confira.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail : vitor_soares1@terra.com.br

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Comentários

Graça Azevedo on 17 dezembro, 2011 at 21:53 #

E assim, com este maravilhoso e lúcido texto, vamos nos despedindo de 2011 que, prá nos deixar mais tristes, leva de uma só vez Cesária, Joãozinho e Sérgio Brito.


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